Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo
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A naltrexona tem sido estudada como possível recurso auxiliar no tratamento da ludopatia, especialmente em casos com forte impulso para apostar.
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O uso para transtorno do jogo ainda é considerado off-label (fora da bula) e deve ser sempre avaliado por médico, preferencialmente psiquiatra.
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Estudos clínicos indicam resultados promissores em alguns pacientes, mas ainda não permitem tratar a medicação como solução isolada.
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O tratamento da ludopatia envolve psicoterapia, orientação familiar, prevenção de recaídas, limites financeiros e, em alguns casos, suporte medicamentoso.
Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo
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Quando se fala em tratamento da ludopatia, uma das perguntas mais frequentes é direta: existe algum medicamento que ajude a parar de jogar?
A resposta exige cuidado. Não existe uma “cura rápida” em forma de medicação. O transtorno do jogo é um fenômeno complexo, que envolve comportamento, emoção, impulsividade, contexto de vida, prejuízos financeiros e dinâmica familiar. No entanto, nos últimos anos, alguns estudos vêm investigando o uso de medicamentos como a naltrexona como possível recurso auxiliar no tratamento.
Este artigo tem como objetivo esclarecer, de forma responsável e acessível, o que se sabe até o momento sobre essa abordagem, seus limites e seu lugar dentro de um tratamento mais amplo.
O que é a naltrexona?
A naltrexona é uma medicação conhecida principalmente pelo seu uso no tratamento de dependência de álcool e opioides. De forma simplificada, ela atua em sistemas do cérebro relacionados à recompensa, ao prazer, motivação e ao reforço comportamental.
Esse mecanismo despertou o interesse de pesquisadores: se o transtorno do jogo compartilha características com outros comportamentos aditivos como impulsividade, busca por recompensa, fissura e dificuldade de controle, será que a naltrexona poderia ajudar também nesses casos?
A partir dessa hipótese, começaram a surgir estudos investigando seu uso no tratamento do jogo patológico, hoje mais frequentemente chamado de transtorno do jogo ou ludopatia.
O que os estudos indicam até agora?
Os estudos sobre naltrexona no transtorno do jogo ainda não permitem afirmar que ela seja uma solução definitiva, mas apontam resultados relevantes em alguns grupos de pacientes. A principal hipótese é que, por atuar em sistemas cerebrais ligados à recompensa, ao prazer e ao impulso, a naltrexona possa ajudar a reduzir a fissura ou urgência de jogar.
Um dos estudos clássicos foi publicado por Kim, Grant, Adson e Shin, em 2001, em um ensaio duplo-cego comparando naltrexona e placebo no tratamento do jogo patológico. Os autores observaram redução dos sintomas no grupo tratado com naltrexona, embora tenham destacado a necessidade de cautela e de novos estudos para confirmação dos achados.
Em 2008, Grant, Kim e Hartman publicaram outro estudo duplo-cego, placebo-controlado, avaliando a naltrexona em adultos com jogo patológico e forte urgência para apostar. O estudo também encontrou resultados favoráveis, especialmente na redução dos impulsos relacionados ao jogo.
Por outro lado, nem todos os estudos encontraram benefícios tão consistentes. Toneatto, Brands e Selby, em 2009, avaliaram a naltrexona em pessoas com jogo patológico associado ao abuso ou dependência de álcool, e os resultados não demonstraram superioridade clara da medicação em relação ao placebo nesse contexto específico.
Outro estudo, publicado por Kovanen e colaboradores em 2016, avaliou o uso de naltrexona “conforme a necessidade” em pessoas com jogo patológico que também recebiam suporte psicossocial. Os autores concluíram que essa forma de uso não trouxe benefício adicional substancial para o grupo como um todo, embora tenham apontado possibilidades de resposta em subgrupos específicos.
Mais recentemente, uma revisão sistemática com meta-análise em rede publicada por Ioannidis e colaboradores, em 2025, indicou que naltrexona e nalmefeno estão entre as opções farmacológicas com evidência mais favorável para o transtorno do jogo, embora os autores também tenham destacado limitações importantes, como tolerabilidade, tamanho dos estudos e necessidade de pesquisas mais robustas.
A naltrexona pode ser promissora como recurso adjuvante, mas não deve ser apresentada como “remédio para parar de jogar” ou como substituta da psicoterapia.
O que dizem as diretrizes clínicas?
As diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence (NICE – Reino Unido), publicadas em 2025, recomendam considerar a naltrexona para reduzir a gravidade do jogo quando a psicoterapia não alcançou os resultados esperados após um curso adequado de tratamento, ou quando a pessoa apresenta recaídas repetidas apesar de ter recebido intervenção psicológica apropriada. Ou seja, um caso refratário ao tratamento psicoterápico ou mesmo mais resistente.
A própria diretriz destaca que, em janeiro de 2025, esse era um uso off-label da naltrexona. Isso significa que a medicação não deve ser usada de forma banalizada ou sem avaliação médica. O início do tratamento deve ocorrer sob responsabilidade de profissional médico qualificado e experiente, preferencialmente em articulação com uma abordagem psicológica e familiar.
O que significa uso off-label?
Uso off-label significa que uma medicação está sendo utilizada para uma finalidade diferente daquela para a qual foi originalmente aprovada pelas autoridades regulatórias, que o uso não está descrito na bula. Isso não quer dizer, necessariamente, que o uso seja inadequado. Significa que ele exige critério clínico, avaliação individualizada, acompanhamento médico e consentimento informado.
No caso da ludopatia, a decisão de utilizar naltrexona deve ser tomada por um médico, geralmente psiquiatra, considerando:
- histórico clínico do paciente;
- intensidade do comportamento de jogo;
- presença de outras condições de saúde mental;
- uso de álcool, opioides ou outras substâncias;
- uso de outras medicações;
- condições hepáticas e demais aspectos de saúde geral;
- risco de recaídas e gravidade dos prejuízos causados pelo jogo.
Esse cuidado é fundamental porque a medicação pode ter contraindicações, interações e efeitos adversos. Além disso, cada paciente apresenta uma história diferente. O que pode fazer sentido em um caso pode não ser indicado em outro.
A naltrexona não substitui a psicoterapia
Mesmo quando indicada, a naltrexona deve ser compreendida como recurso auxiliar. Ela pode ajudar alguns pacientes a reduzirem a fissura e a urgência de jogar, mas não reorganiza, sozinha, a vida emocional, financeira e familiar da pessoa. Essa mesma dinâmica de recurso auxiliar é vista em outros transtornos, como por exemplo a depressão e a ansiedade, sendo indicado o tratamento multidisciplinar, envolvendo o trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.
A medicação não substitui o trabalho de compreender gatilhos, reconstruir rotina, lidar com vergonha, assumir responsabilidades, reparar danos possíveis e desenvolver estratégias de prevenção de recaídas.
Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa. E ainda oferecer informações e orientações de qualidade aos familiares, tendo o profissional de psicologia como um aliado nesse processo.
A medicação pode reduzir o impulso, mas a recuperação exige mudança de comportamento, reorganização da vida e reconstrução de vínculos.
A importância da psicoterapia
Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa.
Estudos apontam que intervenções psicológicas estruturadas, especialmente abordagens cognitivas e comportamentais, apresentam resultados consistentes na redução do comportamento de jogo e na prevenção de recaídas. Uma revisão sistemática conduzida por Cowlishaw e colaboradores (2012), publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews, encontrou evidências de que a psicoterapia pode reduzir significativamente a frequência e a intensidade das apostas em pessoas com transtorno do jogo.
Além disso, o acompanhamento psicológico permite trabalhar aspectos que a medicação não alcança: padrões de pensamento distorcidos, impulsividade, regulação emocional, vergonha, culpa e reconstrução de sentido fora do jogo.
Outro ponto fundamental é o trabalho com a família. A psicoterapia também pode oferecer orientação aos familiares, ajudando-os a compreender o transtorno, estabelecer limites saudáveis e construir uma rede de apoio mais consciente. Nesse contexto, o profissional de psicologia se torna um aliado importante não apenas do paciente, mas de todo o sistema familiar envolvido.
A medicação pode ajudar a reduzir o impulso, mas é na psicoterapia que a pessoa aprende a sustentar a mudança.
O papel da psicoterapia no tratamento da ludopatia
A psicoterapia ajuda o paciente a reconhecer o ciclo do jogo. Muitas vezes, esse ciclo envolve ansiedade, tensão, aposta, perda, culpa, tentativa de recuperar, nova perda, segredo e promessa de parar. Sem compreender esse funcionamento, a pessoa pode repetir o mesmo padrão diversas vezes.
O trabalho terapêutico pode envolver:
- identificação de gatilhos emocionais;
- manejo da impulsividade;
- prevenção de recaídas;
- reconstrução da rotina;
- trabalho com vergonha, culpa e negação;
- reorganização da relação com dinheiro;
- fortalecimento da rede de apoio;
- desenvolvimento de estratégias para lidar com fissura e urgência de apostar.
Em alguns casos, a psicoterapia também ajuda o paciente a lidar com questões associadas, como ansiedade, depressão, baixa autoestima, solidão, conflitos conjugais, estresse no trabalho ou uso de álcool e outras substâncias.
Família, limites e corresponsabilidade
A família pode ter papel fundamental no tratamento da ludopatia, especialmente quando recebe orientação adequada. Muitas vezes, os familiares estão confusos, com raiva, medo ou culpa, sem saber se devem acolher, confrontar, pagar dívidas ou impor limites.
A orientação familiar pode ajudar a construir uma linha de apoio mais consciente. A família não deve ser transformada em polícia, mas também não pode sustentar o ciclo do jogo com empréstimos repetidos, pagamento de dívidas sem plano ou promessas vazias de mudança.
Algumas medidas podem ser discutidas em conjunto:
- estabelecimento de limites financeiros claros;
- proteção do orçamento familiar;
- restrição temporária de acesso a crédito, cartões ou grandes valores, quando necessário;
- acompanhamento de sinais de recaída;
- apoio emocional sem humilhação;
- participação em sessões de orientação familiar;
- encaminhamento para avaliação psiquiátrica quando indicado;
- construção de um plano de prevenção de recaídas.
Quando paciente, família, psicólogo e médico atuam de forma integrada, o tratamento tende a ganhar mais consistência. A recuperação não depende apenas de força de vontade; ela precisa de estrutura.
Quando considerar avaliação psiquiátrica?
A avaliação psiquiátrica pode ser importante quando o comportamento de jogo está associado a impulsividade intensa, recaídas frequentes, depressão, ansiedade significativa, uso de álcool ou outras substâncias, ideação suicida ou dificuldade persistente de controle mesmo com acompanhamento psicológico. Esses pontos reforçam, ainda mais, a importância da participação dos familiares. Observando e dando feedbacks ao psicólogo sobre como anda o dia a dia em casa.
Nesses casos, o psiquiatra poderá avaliar se há indicação de medicação, incluindo ou não a naltrexona, além de considerar outros diagnósticos e condições associadas. O objetivo não é apenas “dar remédio”, mas compreender o quadro de forma ampla e segura.
É importante reforçar: psicólogos não prescrevem medicamentos. O papel do psicólogo é avaliar, acompanhar, orientar, trabalhar aspectos emocionais e comportamentais, e, quando necessário, encaminhar para avaliação médica.
Cuidados importantes sobre medicação
Todo tratamento medicamentoso precisa ser individualizado. A naltrexona não deve ser iniciada por conta própria, compartilhada entre familiares ou utilizada com base em vídeos, fóruns ou relatos de internet.
Também é importante que o paciente informe ao médico sobre uso de álcool, opioides, analgésicos, outras medicações, histórico de doenças hepáticas e qualquer condição clínica relevante. O acompanhamento profissional permite avaliar benefícios, riscos, efeitos adversos e necessidade de ajustes.
No campo da ludopatia, a medicação pode ser uma ferramenta. Mas a ferramenta precisa estar dentro de um plano. Sem mudança de comportamento, reorganização financeira, apoio familiar e prevenção de recaídas, o risco de retorno ao padrão anterior permanece elevado.
Considerações finais
O avanço dos estudos sobre o uso da naltrexona na ludopatia abre possibilidades importantes, mas também exige cautela. Como vimos, a medicação pode ajudar alguns pacientes, especialmente na redução da fissura e da urgência de apostar, mas não deve ser tratada como solução isolada. Aqui reforço o papel do tratamento multidisciplinar, unindo do trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.
Na prática clínica, no dia a dia do consultório, é possível observar alguns sinais que merecem atenção. Em pacientes que estão em acompanhamento psiquiátrico e utilizando a naltrexona como parte do tratamento, mesmo considerando uma amostra pequena e sem o rigor de estudos controlados, percebe-se empiricamente uma tendência a um desenrolar mais estável do quadro.
Em alguns casos, nota-se maior aderência ao tratamento, participação mais consistente dos familiares e uma sensação de maior segurança no dia a dia, especialmente em relação ao controle dos impulsos. Essa percepção clínica não substitui evidência científica, mas dialoga com os resultados encontrados em estudos que apontam a medicação como um possível recurso adjuvante no manejo do transtorno do jogo.
Ainda assim, é fundamental reforçar mais uma vez: o tratamento da ludopatia é multifatorial. Ele envolve psicoterapia, responsabilidade, limites, reorganização financeira, prevenção de recaídas, participação em grupos de apoio (jogadores anônimos), orientação familiar e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso.
A medicação pode facilitar o caminho, mas é o conjunto do tratamento que sustenta a mudança.
Se o jogo passou a ocupar espaço excessivo na sua vida ou na sua família, buscar ajuda pode ser o primeiro passo para retomar o controle. O caminho não é imediato, mas é possível quando existe acompanhamento adequado, rede de apoio e um plano realista de recuperação.
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Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
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Fontes
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KOVANEN, Leena et al. A randomised, double-blind, placebo-controlled trial of as-needed naltrexone in the treatment of pathological gambling. European Addiction Research, v. 22, n. 2, p. 70-79, 2016. Disponível em: https://karger.com/ear/article/22/2/70/119448/A-Randomised-Double-Blind-Placebo-Controlled-Trial
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