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Palestra: “Do Clique ao Vício: o perigo silencioso das apostas online” – UniBrasil – Material de apoio

Biblioteca de apoio: ludopatia, apostas online e saúde mental

Material complementar da palestra “Do clique ao vício: o perigo silencioso das apostas on-line”

No dia 30 de abril de 2026, participei da palestra “Do clique ao vício: o perigo silencioso das apostas on-line”, realizada na UniBrasil, ao lado da psicóloga Greicy Pais. O encontro teve como objetivo ampliar o diálogo sobre ludopatia, apostas esportivas, jogos online, impactos familiares e os desafios clínicos que surgem diante desse fenômeno cada vez mais presente na vida de muitas pessoas.

Este espaço foi organizado como uma biblioteca de apoio para estudantes, profissionais, familiares e demais interessados no tema. Aqui você encontrará artigos, documentos oficiais, diretrizes clínicas, estudos científicos e links úteis para compreender melhor o transtorno do jogo, suas consequências emocionais, familiares, financeiras e sociais, além de possibilidades de tratamento e encaminhamento.

A proposta não é esgotar o assunto, mas oferecer um ponto de partida confiável para quem deseja estudar, orientar melhor uma família, reconhecer sinais de alerta ou encaminhar alguém que esteja sofrendo com apostas online, bets, cassino virtual, Jogo do Tigrinho ou outras formas de jogo problemático.

O transtorno do jogo não deve ser reduzido a falta de caráter ou fraqueza moral. Trata-se de um problema que pode envolver perda de controle, sofrimento psíquico, endividamento, vergonha, conflitos familiares e necessidade de cuidado especializado.

Se você participou da palestra e chegou até aqui pelo QR Code exibido ao final do encontro, seja bem-vindo. Use este material como apoio para aprofundar seus estudos, revisitar os temas discutidos e encontrar caminhos de orientação, prevenção e cuidado.

1. Artigos do site sobre ludopatia e apostas online

Abaixo estão artigos publicados no site Leonardo Fd Araujo | Psicologia, com linguagem acessível e foco clínico, familiar e psicoeducativo.

2. Documentos oficiais do Ministério da Saúde — Brasil

Os documentos abaixo ajudam a compreender como o tema dos jogos de apostas vem sendo tratado no campo da saúde pública brasileira, especialmente no âmbito da saúde mental, da Rede de Atenção Psicossocial e das ações intersetoriais.

3. Diretrizes e documentos técnicos internacionais

4. Estudos sobre psicoterapia e tratamento psicológico

5. Estudos sobre naltrexona e tratamento medicamentoso

Os links abaixo são estudos e revisões sobre o uso de naltrexona e outros recursos farmacológicos no transtorno do jogo. O uso de medicação deve sempre ser avaliado por profissional médico, preferencialmente em articulação com psicoterapia e acompanhamento familiar.

6. Grupos de apoio e recursos práticos

Grupos de apoio podem ser um complemento importante ao tratamento. Eles não substituem psicoterapia ou avaliação médica quando necessária, mas podem oferecer identificação, compromisso, rede e suporte em momentos difíceis.

7. Contexto brasileiro, regulação e reportagens

8. Escalas, instrumentos de rastreio e avaliação

As escalas e instrumentos abaixo podem ser úteis para rastreio, triagem, pesquisa, atenção ambulatorial e serviços públicos de saúde. No entanto, é importante lembrar que uma escala não substitui avaliação clínica, entrevista psicológica, investigação do contexto familiar, análise do funcionamento emocional e, quando necessário, avaliação médica ou psiquiátrica.

Esses instrumentos ajudam a organizar sinais, estimar gravidade, acompanhar evolução e orientar encaminhamentos, mas seus resultados devem ser interpretados com cuidado. Em geral, são mais indicados como ferramentas complementares, especialmente em contextos de saúde pública, serviços de triagem, ambulatórios, estudos científicos e acompanhamento de casos.

Escalas ajudam a rastrear sinais de risco, mas não devem ser usadas isoladamente para “fechar diagnóstico” ou substituir o olhar clínico.

Para estudantes e profissionais, essas escalas podem ser excelentes portas de entrada para compreender o fenômeno. Ainda assim, o uso responsável exige formação, interpretação cuidadosa e articulação com uma avaliação clínica mais ampla. No transtorno do jogo, a pontuação em uma escala deve ser lida junto da história da pessoa, do impacto financeiro, do sofrimento emocional, da presença de comorbidades, do risco de autoagressão e da dinâmica familiar.

Encaminhamentos e contato profissional

Caso você seja estudante, profissional da saúde, advogado, familiar ou alguém que esteja acompanhando uma pessoa com problemas relacionados ao jogo, este material também pode servir como ponte para novas conversas, encaminhamentos e construção de rede de apoio.

Atuo na clínica em casos que envolvam ludopatia e realizo orientação familiar voltada a esses casos. Na área judicial e extrajudicial, trabalho na avaliação e elaboração de documentos psicológicos quando há demanda relacionada ao transtorno do jogo. Elaboração de laudos, pareceres técnicos e assistência técnica psicológica relacionados a ludopatia.

Contato profissional

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia presencial e online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Orientação familiar em Ludopatia

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Atendimento presencial e online
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Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Descobri que meu marido aposta escondido: o que fazer?

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  • Descobrir que um familiar aposta ou joga escondido pode gerar choque, raiva, medo, confusão e sensação de traição emocional e financeira.

  • A primeira conversa precisa ser firme, mas não humilhante: o objetivo é entender a gravidade do problema e iniciar uma busca real por ajuda.

  • Pagar dívidas repetidamente, sem plano de tratamento e limites financeiros, pode manter o ciclo da dependência em vez de interrompê-lo.

  • A orientação familiar com um psicólogo pode ajudar a organizar uma linha de apoio mais consciente, protegendo a família e favorecendo o tratamento.

Descobri que meu marido aposta escondido: o que fazer?

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Era uma terça-feira chuvosa quando Ana encontrou a carta do banco. O envelope estava sobre a bancada da cozinha, misturado a contas de luz, propaganda de supermercado e correspondências que normalmente ninguém abria com pressa. Mas aquele papel parecia diferente. Havia um peso silencioso nele.

Ao abrir, Ana sentiu o corpo inteiro gelar. A carta comunicava a inscrição do nome de Jorge no Serasa e trazia um resumo de dívidas em aberto: dois empréstimos pessoais e um cartão de crédito estourado. Ela leu uma vez, leu de novo, tentou entender se havia algum erro. Mas os números estavam ali, organizados demais para serem engano. Eram os  dígitos mais pesados que já havia visto: 147.853,00 reais em dívidas.

Naquele instante, um filme começou a passar pela cabeça. A vida financeira da família sempre tinha parecido estável. Uma viagem por ano. O filho em escola particular. A casa própria, quitada havia quatro anos. Os dois com bons empregos. Ana, funcionária pública em regime híbrido. Jorge, administrador especializado em contratos de franquias, também trabalhando parte da semana em casa.

Nada parecia fora do lugar. Pelo menos, não até aquela carta.

Na manhã seguinte, Jorge ficaria em home office. Ana decidiu que seria a oportunidade de conversar. Sentou-se à mesa da cozinha com uma xícara de café nas mãos, trêmula, tentando encontrar coragem. Jorge apareceu ainda sonolento, abriu o notebook, comentou algo banal sobre a chuva e olhou para ela como se fosse mais uma manhã comum.

Com a voz embargada, Ana colocou a carta sobre a mesa.

“Jorge, eu preciso entender o que está acontecendo.”

Ele olhou para o papel, ficou pálido e não disse nada. Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da cozinha. Ana esperava uma explicação: um erro do banco, uma dívida antiga, alguma emergência que ele não tinha contado. Mas o que veio foi diferente.

Jorge começou a chorar. Disse que tinha começado com apostas pequenas, “só para testar”. Depois tentou recuperar o que perdeu. Em seguida escondeu. Depois fez um empréstimo. Mais outro. O cartão virou uma saída temporária. E, quando percebeu, já não sabia mais como contar.

Essa história é fictícia, mas talvez algo nela soe familiar. Talvez não tenha sido uma carta do banco. Talvez tenha sido uma notificação no celular, uma conversa interrompida, um extrato estranho, uma cobrança inesperada ou uma mentira que não fechava.

Se você descobriu que alguém da sua família joga escondido, este artigo é um convite para respirar, organizar os próximos passos e buscar ajuda com responsabilidade.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

O primeiro impacto: choque, raiva e confusão

Descobrir que um familiar está jogando escondido costuma gerar uma mistura intensa de emoções. Pode haver raiva, medo, decepção, vergonha, culpa e uma sensação profunda de traição. Muitas pessoas relatam que a dor não vem apenas da dívida, mas da mentira.

É comum que a família pense: “Como eu não percebi?”, “Por que ele não me contou?”, “Será que há mais dívidas?”, “Em quem eu posso confiar agora?”. Essas perguntas são compreensíveis. Quando o jogo se instala em segredo, a família perde a sensação de chão.

Por isso, o primeiro cuidado é não tentar resolver tudo no mesmo dia. A urgência é grande, mas decisões tomadas no auge do desespero podem piorar a situação: ameaças impossíveis de cumprir, exposição pública, pagamentos apressados, discussões agressivas ou acordos feitos sem clareza.

A vergonha e o segredo por trás da ludopatia

A vergonha é uma das emoções mais fortes em quem sofre com transtorno do jogo. Muitas vezes, a pessoa não esconde apenas porque quer manipular a família. Ela também esconde porque sente medo de ser descoberta, julgada, abandonada ou vista como alguém “sem caráter”.

Isso não significa que as mentiras não tenham consequências. Elas têm. A família tem o direito de se sentir ferida. Mas compreender o papel da vergonha ajuda a pensar em uma abordagem mais eficaz. Humilhação, xingamentos e exposição pública podem aumentar o silêncio e dificultar ainda mais a busca por ajuda.

Diretrizes internacionais sobre danos relacionados ao jogo reconhecem que vergonha, estigma e medo de revelar o problema podem impedir a pessoa de falar sobre o jogo e procurar apoio. Por isso, a conversa familiar precisa ser firme, mas também precisa abrir uma porta para tratamento.

A vergonha pode manter o problema escondido. A conversa certa pode começar a quebrar esse silêncio.

O que observar antes da primeira conversa?

Antes de confrontar o familiar, tente reunir informações básicas. Não se trata de investigar como um detetive ou invadir a intimidade de forma desorganizada, mas de evitar uma conversa baseada apenas em suspeitas vagas.

Alguns pontos podem ajudar:

  • quais dívidas já apareceram? Há alguma com agiotas?
  • há empréstimos, cartão de crédito, cheque especial ou Pix recorrentes para plataformas de apostas?
  • existem contas atrasadas ou compromissos familiares comprometidos?
  • a pessoa já mentiu anteriormente sobre dinheiro?
  • há sinais de ansiedade, irritabilidade, isolamento ou depressão?
  • há risco de autoagressão, desespero extremo ou falas sobre morte?

Se houver risco imediato à vida ou falas de desesperança, a prioridade não é discutir dívida. A prioridade é segurança. Nesses casos, procure ajuda emergencial, acione familiares próximos e busque atendimento em pronto atendimento, UPA, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Como iniciar a conversa?

A primeira conversa não precisa resolver tudo. Ela precisa abrir uma linha de realidade. O ideal é escolher um momento com privacidade, sem crianças presentes, sem plateia e sem interrupções. Evite iniciar a conversa no meio de uma briga ou logo depois de uma descoberta explosiva, quando todos estão sem condições emocionais de escutar.

Uma forma possível de começar é:

“Eu encontrei informações sobre dívidas e preciso entender o que está acontecendo. Eu estou muito abalada, mas quero que a gente converse com seriedade. O que está acontecendo com o jogo?”

Essa abordagem é diferente de começar com acusação direta, como: “Você acabou com a nossa vida” ou “Você é um irresponsável”. A raiva pode até ser legítima, mas, se ela ocupar todo o espaço, a pessoa pode entrar em negação, defesa ou fuga.

O objetivo da conversa é entender a gravidade do problema e iniciar encaminhamentos concretos: quais dívidas existem, há quanto tempo o jogo acontece, quais plataformas são usadas, se já houve tentativas de parar e se a pessoa aceita buscar ajuda.

Quem deve participar dessa conversa?

Nem toda a família precisa participar da primeira conversa. Em muitos casos, quanto mais pessoas envolvidas de forma desorganizada, maior o risco de exposição, vergonha e conflito. A intervenção familiar precisa ser pensada com cuidado.

Pode fazer sentido envolver:

  • o cônjuge ou companheiro diretamente afetado;
  • um pai ou uma mãe, quando a pessoa depende emocional ou financeiramente da família de origem;
  • um irmão ou irmã que tenha boa relação e maturidade para ajudar;
  • um amigo próximo, confiável e respeitoso;
  • um profissional de saúde mental, quando a situação já está muito grave ou conflituosa.

O critério não deve ser “quem está com mais raiva”, mas quem pode ajudar com firmeza, discrição e equilíbrio. A família precisa formar uma rede de apoio, não um tribunal.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Cuidado com o ciclo de remendar o problema

Um dos erros mais comuns é tentar resolver apenas a dívida. A família descobre o problema, se assusta, paga o cartão, negocia com o agiota, quita o empréstimo, cobre o cheque especial e espera que tudo volte ao normal. A pessoa promete que nunca mais vai jogar. Por algumas semanas, parece funcionar. Depois, uma nova dívida aparece.

Esse ciclo pode se repetir muitas vezes:

  • descoberta;
  • crise familiar;
  • promessa de parar;
  • pagamento ou renegociação da dívida;
  • alívio temporário;
  • nova recaída;
  • nova dívida;
  • nova crise.

Pagar uma dívida pode ser necessário em alguns casos, mas pagar sem plano pode manter o problema. A questão não é apenas “quanto ele deve?”, mas “o que será feito para o comportamento não continuar?”.

Quando a família só remenda a dívida, mas não enfrenta o transtorno, o ciclo tende a continuar.

Primeiros passos práticos para a família

Depois da descoberta, é importante transformar o choque em ação organizada. Isso não significa controlar a pessoa como se ela fosse incapaz de tudo, mas criar limites claros enquanto o tratamento começa.

Alguns passos iniciais podem ajudar:

  • Mapear a situação financeira: listar dívidas, credores, cartões, agiotas, empréstimos e contas atrasadas.
  • Evitar novos empréstimos sem plano: não transformar a família em fonte permanente de cobertura das perdas.
  • Proteger o orçamento básico: alimentação, moradia, saúde, escola, transporte e despesas essenciais precisam ser priorizados.
  • Reduzir acesso a meios de aposta: conversar sobre bloqueios, limites bancários, cartões e aplicativos.
  • Buscar ajuda especializada: procurar um psicólogo com experiência no tratamento de ludopatia, fazer uma avaliação médica quando necessário e participar de grupos de apoio (Jogadores Anônimos).
  • Registrar combinados: acordos verbais feitos no calor da crise tendem a se perder.
  • Observar risco emocional: vergonha intensa, desespero e fala suicida exigem atenção imediata.

O papel da orientação familiar com psicólogo

A orientação familiar é uma ferramenta muito importante quando existe transtorno do jogo. Muitas vezes, os familiares chegam ao consultório em sofrimento, sem saber se devem acolher, confrontar, perdoar, controlar, pagar dívidas ou se afastar.

O psicólogo que atua com esse tema pode ajudar a família a compreender o funcionamento da ludopatia, diferenciar ajuda de manutenção do problema e construir uma linha de apoio mais consciente. Isso inclui trabalhar limites financeiros, comunicação, prevenção de recaídas, sinais de risco e participação de pessoas-chave da rede de apoio.

A família também precisa de espaço para falar da própria dor. Quem convive com alguém em sofrimento por jogo pode desenvolver ansiedade, vigilância constante, medo de novas mentiras, raiva acumulada e exaustão emocional.

Nesse sentido, a orientação familiar não serve apenas para “ensinar a lidar com o jogador”. Serve também para proteger a família, organizar decisões e impedir que todos fiquem presos ao ciclo da crise. Inclusive encaminhar, quando necessário, o familiar para algum colega psicólogo, para que também cuide e trabalhe seu emocional. Sempre precisamos perguntar: quem vai cuidar de quem cuida?

Quando buscar avaliação médica?

Em alguns casos, além da psicoterapia, pode ser importante encaminhar a pessoa para avaliação médica ou psiquiátrica. Isso é especialmente relevante quando há depressão, ansiedade intensa, impulsividade importante, uso de álcool ou outras substâncias, insônia grave, risco de autoagressão ou recaídas frequentes.

O transtorno do jogo pode aparecer associado a outros quadros emocionais. Por isso, olhar apenas para a dívida pode ser insuficiente. O tratamento precisa considerar a pessoa como um todo: comportamento, emoções, vínculos, rotina, saúde mental e contexto familiar.

E se ele ou ela negar o problema?

A negação é comum. A pessoa pode dizer que está tudo sob controle, que foi apenas uma fase, que está quase recuperando o dinheiro, que a família está exagerando ou que não precisa de tratamento.

Nesses casos, a família não precisa entrar em disputa para “vencer” a conversa. Pode ser mais útil voltar aos fatos:

  • “Há uma dívida concreta.”
  • “Houve mentira ou omissão.”
  • “O orçamento familiar foi afetado.”
  • “Nós precisamos de ajuda para lidar com isso.”
  • “Não vamos continuar pagando ou encobrindo sem tratamento.”

Mesmo que a pessoa ainda não aceite ajuda, os familiares podem buscar orientação de um psicólogo que tenha experiência no tratamento de ludopatia. A mudança de postura da família pode ser decisiva para interromper o ciclo de promessas, pagamentos e recaídas.

O que não fazer

Algumas atitudes, embora compreensíveis, podem piorar o cenário:

  • expor a pessoa publicamente;
  • envolver filhos pequenos na discussão;
  • pagar dívidas repetidamente sem plano de tratamento;
  • fazer ameaças que não serão cumpridas;
  • tratar o problema apenas como falta de caráter;
  • ignorar sinais de risco emocional;
  • acreditar que apenas “força de vontade” resolverá tudo;
  • tentar controlar tudo sozinha ou sozinho.

A família precisa de equilíbrio: não pode sustentar o jogo, mas também não precisa destruir a pessoa pela vergonha. O caminho mais saudável costuma estar na combinação entre acolhimento, limite e tratamento.

O primeiro passo pode ser informação de qualidade

Quando a família descobre o problema, é comum buscar respostas rápidas na internet. Isso pode ajudar, desde que as informações sejam confiáveis. Procure conteúdos de qualidade produzidos por profissionais de saúde, instituições reconhecidas e serviços especializados.

Também vale considerar grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, e espaços voltados aos familiares. Esses grupos podem ajudar a reduzir a sensação de isolamento e mostrar que outras famílias também enfrentam situações parecidas.

O mais importante é não permanecer sozinho na tentativa de resolver um problema complexo. O transtorno do jogo costuma exigir rede, orientação e consistência.

Considerações finais

Descobrir que um familiar aposta escondido pode ser uma experiência devastadora. Em poucos minutos, a família tenta reconstruir meses ou anos de sinais que talvez tenham passado despercebidos. A carta do banco, a dívida, o cartão estourado ou o empréstimo escondido não revelam apenas um problema financeiro. Revelam também um sofrimento que vinha sendo mantido em segredo.

Nesse momento, é natural sentir raiva, medo e decepção. Mas a pergunta mais importante passa a ser: o que fazer agora?

O primeiro passo é sair do improviso. Conversar com firmeza, mapear a situação, proteger o orçamento familiar, bens familiares, evitar o ciclo de apenas remendar dívidas e buscar ajuda especializada. A psicoterapia pode auxiliar tanto a pessoa que joga quanto os familiares, criando uma linha de apoio mais consciente, com limites reais e possibilidade de recuperação.

A ludopatia não deve ser reduzida a “frescura” ou falta de caráter. É um transtorno que pode ser tratado. Mas o tratamento precisa começar com reconhecimento, responsabilidade e ação concreta.

Se essa história se parece com algo que está acontecendo na sua casa, talvez este seja o momento de buscar ajuda. Descobrir que o marido aposta escondido ou algum outro familiar, um filho, amigo é uma situação delicada e que precisa de atendimento especializado. Ninguém precisa enfrentar isso sozinho!

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras

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Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248/chapter/recommendations

NATIONAL COUNCIL ON PROBLEM GAMBLING. FAQs: What is problem gambling? Washington, DC: NCPG, s.d. Disponível em: https://www.ncpgambling.org/help-treatment/faqs-what-is-problem-gambling/

Descansar sem culpa: como sair da lógica de produtividade o tempo todo

  • Artigo publicado em: 26 abril, 2026
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  • Muitas pessoas se sentem culpadas ao descansar porque aprenderam a associar valor pessoal com produtividade, rendimento e utilidade constante.

  • A cultura contemporânea reforça a ideia de que até o lazer precisa “servir para alguma coisa”, o que esvazia o prazer e aumenta a autocobrança.

  • Descansar não é desperdício: é uma necessidade emocional, mental e física, além de um gesto legítimo de cuidado consigo mesmo.

  • Recuperar prazer sem cobrança exige rever crenças sobre merecimento, desacelerar a vigilância interna e reaprender a viver momentos sem transformá-los em meta.

  • Quando até a pausa vem acompanhada de ansiedade, irritação ou sensação de fracasso, a psicoterapia pode ajudar a reconstruir uma relação mais saudável com o tempo e com a vida. Enfim descansar sem culpa!

Culpa por descansar: por que até o lazer parece improdutivo?

Leitura estimada: 7 minutos

Descansar deveria ser algo simples. Mas, para muita gente, não é. O corpo até para, mas a mente continua em alerta. Em vez de alívio, aparece incômodo. No lugar do prazer, culpa. A sensação é de que seria melhor estar resolvendo alguma pendência, produzindo algo útil ou aproveitando o tempo “de verdade”. Até o lazer, que poderia ser espontâneo e restaurador, começa a parecer improdutivo.

Esse é um retrato cada vez mais comum entre adultos sobrecarregados. Pessoas que vivem sob pressão constante, tentando dar conta de tudo, responder a todos, manter desempenho, cumprir funções e ainda parecer emocionalmente equilibradas. Nesse contexto, descansar pode começar a soar como falha. E, aos poucos, o tempo livre deixa de ser espaço de recomposição para se transformar em mais um território de cobrança.

Mas o que explica essa dificuldade de simplesmente parar? Por que tanta gente se sente mal ao descansar, como se estivesse cometendo algum erro? Talvez a resposta esteja menos no descanso em si e mais na lógica que aprendemos a reproduzir sem perceber.

A cultura de estar sempre rendendo

Vivemos em uma cultura que valoriza performance a todo custo. Não basta trabalhar: é preciso render. É insuficiente apenas cumprir tarefas: é preciso otimizar. Não basta fazer o necessário: é preciso ir além, manter constância, mostrar resultado, provar valor. Essa lógica, que já era forte no ambiente profissional, foi se espalhando por outras áreas da vida. Hoje ela atravessa a forma como as pessoas se alimentam, treinam, estudam, descansam, se relacionam e até se divertem.

É como se toda experiência humana precisasse justificar sua existência. O descanso precisa ser eficiente. O lazer precisa ter propósito. O hobby precisa trazer desenvolvimento. O tempo livre precisa render alguma coisa. Aos poucos, perde-se a capacidade de viver momentos que não estejam subordinados à utilidade.

Quando a pessoa passa a medir o próprio valor pelo que produz, parar deixa de parecer cuidado e começa a parecer fracasso.

Esse padrão não surge do nada. Muitas vezes, ele é construído ao longo da vida. Pode vir de uma educação muito exigente, de contextos em que descansar era visto como preguiça, de relações marcadas por comparação, ou mesmo de fases difíceis em que a pessoa precisou funcionar o tempo inteiro para sobreviver emocionalmente. Em outros casos, a própria vida contemporânea alimenta isso: excesso de estímulos, notificações, comparação nas redes sociais, agendas cheias e uma sensação permanente de que sempre há mais a fazer.

Assim, não é raro que alguém continue funcionando no automático mesmo quando já está exausto. E não porque não saiba que precisa de pausa, mas porque a pausa passou a ativar desconforto, culpa e insegurança. Diria até que essa lógica é um caminho para o desenvolvimento de um burnout.

Descanso não é desperdício

Uma das armadilhas mais comuns da vida adulta é acreditar que o descanso só é legítimo depois de um nível extremo de cansaço. Como se fosse necessário “merecer” a pausa. Entramos em um modelo como se o corpo e a mente só pudessem parar depois de entregar tudo. Esse raciocínio, embora muito difundido, cobra um preço alto.

Descansar não é desperdício, mas sim uma necessidade. O corpo precisa de recuperação. A mente precisa de intervalo e as emoções precisam de espaço para se reorganizar. Quando isso não acontece, a conta costuma aparecer em forma de irritação, ansiedade, sensação de vazio, dificuldade de concentração, perda de prazer e esgotamento progressivo.

O problema é que, para quem internalizou a lógica da produtividade contínua, até aquilo que faz bem pode despertar culpa. Ao invés de viver o descanso como cuidado, a pessoa o vive como desvio. No lugar de enxergar a pausa como parte da saúde, ela a percebe como atraso.

Pequenas pausas em culpa

  • Descanso não precisa ser prêmio por exaustão.
  • Lazer não é perda de tempo.
  • Pausar não é o mesmo que desistir.
  • Nem tudo o que faz bem precisa gerar resultado.

A vida fica pesada demais quando até o prazer precisa provar que é útil.

Em psicoterapia, muitas pessoas percebem que não estão apenas cansadas. Estão condicionadas. Condicionadas a se vigiar, a se exigir, a se autorizar apenas o mínimo de alívio, e ainda com culpa. Essa percepção costuma ser importante porque muda o foco da questão. Em vez de apenas tentar “descansar melhor”, a pessoa começa a investigar por que descansar ficou emocionalmente tão difícil.

Nem sempre a dificuldade está no tempo disponível. Às vezes, ela está nas crenças que foram sendo construídas ao longo da vida: “eu preciso estar rendendo”, “não posso perder tempo”, “só tenho valor quando sou útil”, “descansar é para quem já fez tudo”. São ideias que parecem normais, mas que frequentemente empobrecem a experiência de viver.

Como recuperar prazer sem cobrança

Recuperar prazer sem cobrança é, antes de tudo, reaprender a se relacionar com o próprio tempo. É sair da lógica de que toda experiência precisa ser convertida em desempenho. É voltar a reconhecer que existem momentos que valem por si, sem meta, sem retorno, sem justificativa.

Isso não costuma acontecer de forma imediata. Para quem passou muito tempo funcionando sob exigência, o prazer livre de cobrança pode até soar estranho no começo. Há pessoas que se sentem inquietas quando não estão fazendo algo “útil”. Outras transformam qualquer hobby em tarefa. Algumas só conseguem descansar quando já estão no limite. Em todos esses casos, há algo em comum: o descanso deixou de ser vivido com naturalidade.

Alguns movimentos podem ajudar nesse processo:

  • Fazer algo sem finalidade: ouvir música, caminhar, ver um filme ou simplesmente pausar, sem exigir que isso resulte em aprendizado ou produtividade.
  • Observar a culpa sem se submeter a ela: sentir desconforto ao descansar não significa que descansar esteja errado.
  • Resgatar atividades que davam prazer: hobbies, interesses ou pequenos rituais que foram abandonados em nome da correria.
  • Rever a ideia de merecimento: você não precisa chegar ao esgotamento para se autorizar a parar.
  • Redefinir valor pessoal: seu valor não deveria depender apenas do que você entrega, resolve ou produz.

Esse movimento exige algo profundo: aceitar que existir não é o mesmo que performar. Que a vida não precisa ser ocupada o tempo todo para ser válida. E que o prazer não precisa ser eficiente para ser legítimo.

Psicologia nas telas: Curtindo a Vida Adoidado

Um filme que pode ilustrar esse tema de forma leve e simbólica é Curtindo a Vida Adoidado. Embora seja lembrado como uma comédia clássica, ele também oferece uma leitura interessante sobre tempo, obrigação e presença.

Ferris Bueller, o protagonista, rompe por um dia com a rotina e com a lógica da obrigação. Evidentemente, o filme não deve ser interpretado de forma literal, mas como metáfora ele funciona muito bem. Enquanto alguns personagens parecem aprisionados à rigidez, ao controle e ao excesso de regra, Ferris encarna uma postura mais espontânea diante da vida.

Às vezes, o problema não é só o excesso de tarefas. É o esquecimento de que viver também envolve pausa, leveza e presença.

O filme ajuda a lembrar algo importante: nem tudo na vida precisa ser utilitário. Há experiências que têm valor exatamente porque nos devolvem contato com o presente. Em uma cultura em que até o lazer parece precisar justificar sua existência, essa é uma reflexão valiosa.

Quando buscar ajuda

Se você sente culpa frequente ao descansar, dificuldade de relaxar, irritação quando para, ou a sensação constante de que nunca fez o suficiente, isso merece atenção. Nem sempre o problema está apenas na rotina cheia. Muitas vezes, ele está na forma como você aprendeu a se relacionar com exigência, produtividade e merecimento.

A psicoterapia pode ajudar a compreender esses padrões com mais profundidade, identificar suas origens e construir uma relação mais saudável com o tempo, com os limites e com a própria vida emocional. Em vez de apenas tentar render mais, talvez seja o momento de investigar por que parar tem sido tão difícil.

Quando descansar vira culpa, o sofrimento nem sempre está só no excesso de tarefas. Às vezes, ele está na dificuldade de se permitir viver sem se provar o tempo todo. E esse é um ponto que merece cuidado.

Sobre o autor

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Como citar este artigo

ARAUJO, Leonardo Fd. Culpa por descansar: por que até o lazer parece improdutivo. In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 10 abr. 2026. Disponível em: <https://psicologoemcuritiba.com.br/>. Acesso em: 10 abr. 2026.

Fontes

  • HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
  • BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante.
  • SELIGMAN, Martin E. P. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva.
  • LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes.

Autoeficácia: por que acreditar na própria capacidade muda a forma como você vive

  • Artigo publicado em: 8 abril, 2026
  • Categorias:

 

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  • Autoeficácia é a crença de que você é capaz de agir, aprender, persistir e lidar melhor com os desafios da vida.

  • Ela não é a mesma coisa que autoestima, mas influencia diretamente a forma como a pessoa se posiciona diante das dificuldades.

  • Autoeficácia, autoimagem e autoestima formam uma tríade importante para a saúde emocional e para a construção de uma relação mais saudável consigo mesmo.

  • A boa notícia é que a autoeficácia pode ser fortalecida ao longo da vida, inclusive com o auxílio da psicoterapia.

  • Ao final, você ainda confere uma dica de filme para refletir sobre confiança em si mesmo, perseverança e reconstrução emocional.

 

Autoeficácia: o que é, como influencia a autoestima e por que ela é importante

Leitura estimada: 6 minutos

Muita gente convive com a sensação de que não é capaz, mesmo tendo qualidades, experiência e potencial. Em muitos casos, isso tem relação com a autoeficácia, um conceito importante da psicologia que diz respeito à crença na própria capacidade de agir, aprender, persistir e enfrentar desafios. Entender o que é autoeficácia, como ela se relaciona com a autoestima e de que forma interfere na autoimagem pode ser um passo importante para fortalecer a saúde emocional e desenvolver mais segurança diante da vida.

Em outras palavras, a autoeficácia ajuda a explicar por que algumas pessoas seguem tentando mesmo quando o caminho parece difícil, enquanto outras desistem antes mesmo de começar. Mais do que um conceito teórico, ela tem impacto direto na forma como lidamos com frustrações, escolhas, mudanças e metas pessoais. E justamente por isso esse tema desperta tanto interesse dentro da psicologia e também entre pessoas que buscam se compreender melhor.

O que é autoeficácia e por que esse conceito importa tanto?

A autoeficácia pode ser entendida como a crença que a pessoa tem de que é capaz de lidar com determinadas situações, superar obstáculos e produzir resultados por meio das próprias ações. Não se trata apenas de pensar de forma otimista, mas de desenvolver uma confiança realista na própria capacidade de agir.

Esse conceito ajuda a explicar por que duas pessoas, diante de uma mesma dificuldade, podem reagir de maneiras tão diferentes. Enquanto uma percebe um problema como algo difícil, mas enfrentável, a outra já se sente derrotada antes mesmo de tentar. Em muitos casos, a diferença não está apenas no conhecimento, no talento ou na experiência, mas na forma como cada uma percebe sua própria capacidade de responder ao desafio.

A forma como você acredita em sua própria capacidade pode mudar completamente a maneira como enfrenta a vida.

Na prática, a autoeficácia interfere diretamente em vários aspectos do cotidiano, como a disposição para tentar algo novo, a persistência diante das dificuldades, a tolerância à frustração e até a coragem para tomar decisões importantes. Pessoas com autoeficácia mais fragilizada tendem a pensar frases como “eu não dou conta”, “isso não é para mim” ou “não adianta tentar”. Já quem desenvolve uma percepção mais sólida de capacidade costuma adotar uma postura mais funcional, como “vai ser difícil, mas posso aprender” ou “talvez eu consiga lidar melhor com isso do que imagino”.

Autoeficácia e psicologia positiva: um olhar para as forças emocionais

Quando falamos em autoeficácia, também abrimos espaço para uma conversa importante com a psicologia positiva. Ao contrário do que muita gente imagina, psicologia positiva não significa ignorar a dor ou viver em um estado artificial de otimismo. Trata-se de um campo da psicologia que busca compreender, de forma científica, os recursos internos e externos que favorecem bem-estar, crescimento emocional, resiliência e qualidade de vida.

Dentro dessa perspectiva, a autoeficácia ganha destaque porque fortalece a percepção de competência, iniciativa e enfrentamento. Quando a pessoa acredita que pode agir com mais clareza e consistência, ela deixa de viver apenas reagindo à vida e passa a participar dela de forma mais ativa.

Isso não quer dizer ausência de medo, insegurança ou sofrimento. A questão é que, mesmo sentindo tudo isso, a pessoa começa a perceber que ainda pode construir caminhos. E essa mudança de posição interna faz diferença. A autoeficácia não apaga os problemas, mas reduz a sensação de impotência diante deles.

  • Favorece uma postura mais ativa diante dos desafios.
  • Ajuda a sustentar metas e escolhas com mais consistência.
  • Contribui para o enfrentamento emocional em momentos difíceis.
  • Fortalece a percepção de recursos internos e possibilidades reais de mudança.

A autoeficácia não elimina o sofrimento, mas pode transformar a forma como a pessoa se relaciona com ele.

Autoeficácia, autoimagem e autoestima: entendendo essa tríade

Esse é um dos pontos mais interessantes do tema. Muitas pessoas confundem autoeficácia com autoestima, mas os dois conceitos não são iguais.

A autoestima está relacionada ao valor que a pessoa atribui a si mesma. É o quanto ela se sente digna, valiosa e merecedora. A autoimagem, por sua vez, diz respeito à forma como a pessoa se enxerga, envolvendo aparência, personalidade, capacidades e identidade. Já a autoeficácia está relacionada à crença de que se consegue agir, aprender, enfrentar e lidar com situações de forma eficaz.

Essas três dimensões se influenciam o tempo todo e ajudam a compor a forma como cada pessoa se percebe e se posiciona no mundo.

  • Autoimagem: responde, em grande parte, à pergunta “como eu me vejo?”.
  • Autoestima: se aproxima da pergunta “quanto eu me valorizo?”.
  • Autoeficácia: toca a pergunta “o quanto eu acredito que consigo?”.

Quando essa tríade está enfraquecida, o sofrimento costuma aparecer de forma mais intensa. A pessoa pode se enxergar mal, se valorizar pouco e ainda acreditar que não consegue mudar nada em sua vida. Esse cenário favorece insegurança, procrastinação, autossabotagem, comparação excessiva e sensação de fracasso.

Por outro lado, quando a autoeficácia começa a se fortalecer, isso pode repercutir positivamente também na autoestima e na autoimagem. Afinal, à medida que a pessoa vive experiências concretas de competência, começa a construir uma visão mais firme e mais saudável de si mesma. Muitas vezes, fortalecer a autoestima passa justamente por experimentar, na prática, que se é capaz.

A autoeficácia pode ser desenvolvida?

Sim, e essa é uma das notícias mais importantes sobre o tema. A autoeficácia não é um traço fixo, como se algumas pessoas simplesmente nascessem confiantes e outras não. Ela pode ser construída e fortalecida ao longo da vida.

Isso costuma acontecer por meio de experiências reais, pequenas conquistas, metas possíveis, aprendizados consistentes e enfrentamentos bem conduzidos. Quando a pessoa percebe, na prática, que conseguiu lidar com algo que antes parecia impossível, sua crença interna começa a se reorganizar.

Às vezes, isso acontece em situações simples, mas emocionalmente significativas:

  • colocar um limite;
  • sustentar uma decisão;
  • retomar uma rotina;
  • enfrentar uma conversa difícil;
  • persistir em algo mesmo com medo.

Frases motivacionais podem até gerar alívio momentâneo, mas nem sempre produzem mudanças profundas. A autoeficácia cresce menos com discursos vazios e mais com experiências concretas. Ela amadurece quando a pessoa consegue perceber, de forma realista, que pode agir diferente e construir respostas novas diante da vida.

Na psicoterapia, esse fortalecimento costuma acontecer de maneira gradual e consistente. Muitas pessoas chegam ao consultório marcadas por frustrações, críticas, comparações ou histórias repetidas de inadequação. Aos poucos, o processo terapêutico pode ajudar a revisar essas narrativas internas, reconhecer recursos já existentes e construir metas mais compatíveis com a realidade do momento.

Desenvolver autoeficácia não é se tornar invencível. É construir uma confiança mais realista, madura e saudável em si mesmo.

Dica de filme: uma história para refletir sobre autoeficácia

Uma boa indicação para pensar sobre esse tema é o filme À Procura da Felicidade. A obra mostra a trajetória de um homem que enfrenta dificuldades intensas, insegurança, pressão, perdas e incertezas, mas continua tentando.

Mais do que contar uma história de sucesso, o filme retrata perseverança, resistência emocional e a força que nasce quando alguém, apesar de tudo, continua acreditando que pode seguir em frente. Ele é um bom exemplo de como a autoeficácia não tem relação com uma vida sem sofrimento, mas com a capacidade de manter o movimento mesmo em cenários difíceis.

Para quem deseja refletir sobre confiança em si mesmo, persistência e reconstrução emocional, é uma excelente escolha.

Considerações finais

Falar em autoeficácia é falar da forma como você se posiciona diante do mundo. Não é sobre perfeição, nem sobre nunca falhar. Trata-se, sobretudo, de desenvolver uma base interna mais firme, capaz de sustentar tentativas, aprendizados, ajustes e persistência.

Quando a autoimagem está ferida, a autoestima abalada e a autoeficácia enfraquecida, a vida pode parecer pesada demais. Mas quando essas dimensões começam a se reorganizar, algo importante acontece: a pessoa passa a sentir que existe caminho. E, muitas vezes, esse já é o começo da mudança.

Quando buscar ajuda psicológica

Se você percebe que sua autoestima oscila com frequência, que sua autoimagem foi marcada por críticas ou comparações, ou que falta confiança para lidar com desafios do dia a dia, a psicoterapia pode ser um espaço importante para compreender e fortalecer esses aspectos.

Desenvolver a autoeficácia não significa se tornar invencível, mas aprender a confiar mais em si mesmo de forma realista e saudável.

Se esse tema faz sentido para você, buscar ajuda pode ser um passo importante para fortalecer sua relação consigo mesmo e com a própria vida.

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
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Bigorrilho, Curitiba – PR

 

Citação deste artigo

ARAUJO, Leonardo Fd. Autoeficácia: o que é, como influencia a autoestima e por que ela é importante. In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 09/04/2026. Disponível em: https://psicologoemcuritiba.com.br/?p=1932&preview=true. Acesso em: [inserir data].

Fontes:

BANDURA, Albert. Self-Efficacy: Toward a Unifying Theory of Behavioral Change. Psychological Review, 1977.

PIGNAULT, A. et al. The Relationship between Self-Esteem, Self-Efficacy, and Psychological Well-Being. 2023.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento e como funciona

Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo

Ler resumo do artigo ⮟
  • A naltrexona tem sido estudada como possível recurso auxiliar no tratamento da ludopatia, especialmente em casos com forte impulso para apostar.

  • O uso para transtorno do jogo ainda é considerado off-label (fora da bula) e deve ser sempre avaliado por médico, preferencialmente psiquiatra.

  • Estudos clínicos indicam resultados promissores em alguns pacientes, mas ainda não permitem tratar a medicação como solução isolada.

  • O tratamento da ludopatia envolve psicoterapia, orientação familiar, prevenção de recaídas, limites financeiros e, em alguns casos, suporte medicamentoso.

Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Quando se fala em tratamento da ludopatia, uma das perguntas mais frequentes é direta: existe algum medicamento que ajude a parar de jogar?

A resposta exige cuidado. Não existe uma “cura rápida” em forma de medicação. O transtorno do jogo é um fenômeno complexo, que envolve comportamento, emoção, impulsividade, contexto de vida, prejuízos financeiros e dinâmica familiar. No entanto, nos últimos anos, alguns estudos vêm investigando o uso de medicamentos como a naltrexona como possível recurso auxiliar no tratamento.

Este artigo tem como objetivo esclarecer, de forma responsável e acessível, o que se sabe até o momento sobre essa abordagem, seus limites e seu lugar dentro de um tratamento mais amplo.

O que é a naltrexona?

A naltrexona é uma medicação conhecida principalmente pelo seu uso no tratamento de dependência de álcool e opioides. De forma simplificada, ela atua em sistemas do cérebro relacionados à recompensa, ao prazer, motivação e ao reforço comportamental.

Esse mecanismo despertou o interesse de pesquisadores: se o transtorno do jogo compartilha características com outros comportamentos aditivos como impulsividade, busca por recompensa, fissura e dificuldade de controle, será que a naltrexona poderia ajudar também nesses casos?

A partir dessa hipótese, começaram a surgir estudos investigando seu uso no tratamento do jogo patológico, hoje mais frequentemente chamado de transtorno do jogo ou ludopatia.

O que os estudos indicam até agora?

Os estudos sobre naltrexona no transtorno do jogo ainda não permitem afirmar que ela seja uma solução definitiva, mas apontam resultados relevantes em alguns grupos de pacientes. A principal hipótese é que, por atuar em sistemas cerebrais ligados à recompensa, ao prazer e ao impulso, a naltrexona possa ajudar a reduzir a fissura ou urgência de jogar.

Um dos estudos clássicos foi publicado por Kim, Grant, Adson e Shin, em 2001, em um ensaio duplo-cego comparando naltrexona e placebo no tratamento do jogo patológico. Os autores observaram redução dos sintomas no grupo tratado com naltrexona, embora tenham destacado a necessidade de cautela e de novos estudos para confirmação dos achados.

Em 2008, Grant, Kim e Hartman publicaram outro estudo duplo-cego, placebo-controlado, avaliando a naltrexona em adultos com jogo patológico e forte urgência para apostar. O estudo também encontrou resultados favoráveis, especialmente na redução dos impulsos relacionados ao jogo.

Por outro lado, nem todos os estudos encontraram benefícios tão consistentes. Toneatto, Brands e Selby, em 2009, avaliaram a naltrexona em pessoas com jogo patológico associado ao abuso ou dependência de álcool, e os resultados não demonstraram superioridade clara da medicação em relação ao placebo nesse contexto específico.

Outro estudo, publicado por Kovanen e colaboradores em 2016, avaliou o uso de naltrexona “conforme a necessidade” em pessoas com jogo patológico que também recebiam suporte psicossocial. Os autores concluíram que essa forma de uso não trouxe benefício adicional substancial para o grupo como um todo, embora tenham apontado possibilidades de resposta em subgrupos específicos.

Mais recentemente, uma revisão sistemática com meta-análise em rede publicada por Ioannidis e colaboradores, em 2025, indicou que naltrexona e nalmefeno estão entre as opções farmacológicas com evidência mais favorável para o transtorno do jogo, embora os autores também tenham destacado limitações importantes, como tolerabilidade, tamanho dos estudos e necessidade de pesquisas mais robustas.

A naltrexona pode ser promissora como recurso adjuvante, mas não deve ser apresentada como “remédio para parar de jogar” ou como substituta da psicoterapia.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento

O que dizem as diretrizes clínicas?

As diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence (NICE – Reino Unido), publicadas em 2025, recomendam considerar a naltrexona para reduzir a gravidade do jogo quando a psicoterapia não alcançou os resultados esperados após um curso adequado de tratamento, ou quando a pessoa apresenta recaídas repetidas apesar de ter recebido intervenção psicológica apropriada. Ou seja, um caso refratário ao tratamento psicoterápico ou mesmo mais resistente.

A própria diretriz destaca que, em janeiro de 2025, esse era um uso off-label da naltrexona. Isso significa que a medicação não deve ser usada de forma banalizada ou sem avaliação médica. O início do tratamento deve ocorrer sob responsabilidade de profissional médico qualificado e experiente, preferencialmente em articulação com uma abordagem psicológica e familiar.

O que significa uso off-label?

Uso off-label significa que uma medicação está sendo utilizada para uma finalidade diferente daquela para a qual foi originalmente aprovada pelas autoridades regulatórias, que o uso não está descrito na bula. Isso não quer dizer, necessariamente, que o uso seja inadequado. Significa que ele exige critério clínico, avaliação individualizada, acompanhamento médico e consentimento informado.

No caso da ludopatia, a decisão de utilizar naltrexona deve ser tomada por um médico, geralmente psiquiatra, considerando:

  • histórico clínico do paciente;
  • intensidade do comportamento de jogo;
  • presença de outras condições de saúde mental;
  • uso de álcool, opioides ou outras substâncias;
  • uso de outras medicações;
  • condições hepáticas e demais aspectos de saúde geral;
  • risco de recaídas e gravidade dos prejuízos causados pelo jogo.

Esse cuidado é fundamental porque a medicação pode ter contraindicações, interações e efeitos adversos. Além disso, cada paciente apresenta uma história diferente. O que pode fazer sentido em um caso pode não ser indicado em outro.

A naltrexona não substitui a psicoterapia

Mesmo quando indicada, a naltrexona deve ser compreendida como recurso auxiliar. Ela pode ajudar alguns pacientes a reduzirem a fissura e a urgência de jogar, mas não reorganiza, sozinha, a vida emocional, financeira e familiar da pessoa. Essa mesma dinâmica de recurso auxiliar é vista em outros transtornos, como por exemplo a depressão e a ansiedade, sendo indicado o tratamento multidisciplinar, envolvendo o trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.

A medicação não substitui o trabalho de compreender gatilhos, reconstruir rotina, lidar com vergonha, assumir responsabilidades, reparar danos possíveis e desenvolver estratégias de prevenção de recaídas.

Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa. E ainda oferecer informações e orientações de qualidade aos familiares, tendo o profissional de psicologia como um aliado nesse processo.

A medicação pode reduzir o impulso, mas a recuperação exige mudança de comportamento, reorganização da vida e reconstrução de vínculos.

A importância da psicoterapia

Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa.

Estudos apontam que intervenções psicológicas estruturadas, especialmente abordagens cognitivas e comportamentais, apresentam resultados consistentes na redução do comportamento de jogo e na prevenção de recaídas. Uma revisão sistemática conduzida por Cowlishaw e colaboradores (2012), publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews, encontrou evidências de que a psicoterapia pode reduzir significativamente a frequência e a intensidade das apostas em pessoas com transtorno do jogo.

Além disso, o acompanhamento psicológico permite trabalhar aspectos que a medicação não alcança: padrões de pensamento distorcidos, impulsividade, regulação emocional, vergonha, culpa e reconstrução de sentido fora do jogo.

Outro ponto fundamental é o trabalho com a família. A psicoterapia também pode oferecer orientação aos familiares, ajudando-os a compreender o transtorno, estabelecer limites saudáveis e construir uma rede de apoio mais consciente. Nesse contexto, o profissional de psicologia se torna um aliado importante não apenas do paciente, mas de todo o sistema familiar envolvido.

A medicação pode ajudar a reduzir o impulso, mas é na psicoterapia que a pessoa aprende a sustentar a mudança.

O papel da psicoterapia no tratamento da ludopatia

A psicoterapia ajuda o paciente a reconhecer o ciclo do jogo. Muitas vezes, esse ciclo envolve ansiedade, tensão, aposta, perda, culpa, tentativa de recuperar, nova perda, segredo e promessa de parar. Sem compreender esse funcionamento, a pessoa pode repetir o mesmo padrão diversas vezes.

O trabalho terapêutico pode envolver:

  • identificação de gatilhos emocionais;
  • manejo da impulsividade;
  • prevenção de recaídas;
  • reconstrução da rotina;
  • trabalho com vergonha, culpa e negação;
  • reorganização da relação com dinheiro;
  • fortalecimento da rede de apoio;
  • desenvolvimento de estratégias para lidar com fissura e urgência de apostar.

Em alguns casos, a psicoterapia também ajuda o paciente a lidar com questões associadas, como ansiedade, depressão, baixa autoestima, solidão, conflitos conjugais, estresse no trabalho ou uso de álcool e outras substâncias.

Família, limites e corresponsabilidade

A família pode ter papel fundamental no tratamento da ludopatia, especialmente quando recebe orientação adequada. Muitas vezes, os familiares estão confusos, com raiva, medo ou culpa, sem saber se devem acolher, confrontar, pagar dívidas ou impor limites.

A orientação familiar pode ajudar a construir uma linha de apoio mais consciente. A família não deve ser transformada em polícia, mas também não pode sustentar o ciclo do jogo com empréstimos repetidos, pagamento de dívidas sem plano ou promessas vazias de mudança.

Algumas medidas podem ser discutidas em conjunto:

  • estabelecimento de limites financeiros claros;
  • proteção do orçamento familiar;
  • restrição temporária de acesso a crédito, cartões ou grandes valores, quando necessário;
  • acompanhamento de sinais de recaída;
  • apoio emocional sem humilhação;
  • participação em sessões de orientação familiar;
  • encaminhamento para avaliação psiquiátrica quando indicado;
  • construção de um plano de prevenção de recaídas.

Quando paciente, família, psicólogo e médico atuam de forma integrada, o tratamento tende a ganhar mais consistência. A recuperação não depende apenas de força de vontade; ela precisa de estrutura.

Quando considerar avaliação psiquiátrica?

A avaliação psiquiátrica pode ser importante quando o comportamento de jogo está associado a impulsividade intensa, recaídas frequentes, depressão, ansiedade significativa, uso de álcool ou outras substâncias, ideação suicida ou dificuldade persistente de controle mesmo com acompanhamento psicológico. Esses pontos reforçam, ainda mais, a importância da participação dos familiares. Observando e dando feedbacks ao psicólogo sobre como anda o dia a dia em casa.

Nesses casos, o psiquiatra poderá avaliar se há indicação de medicação, incluindo ou não a naltrexona, além de considerar outros diagnósticos e condições associadas. O objetivo não é apenas “dar remédio”, mas compreender o quadro de forma ampla e segura.

É importante reforçar: psicólogos não prescrevem medicamentos. O papel do psicólogo é avaliar, acompanhar, orientar, trabalhar aspectos emocionais e comportamentais, e, quando necessário, encaminhar para avaliação médica.

Cuidados importantes sobre medicação

Todo tratamento medicamentoso precisa ser individualizado. A naltrexona não deve ser iniciada por conta própria, compartilhada entre familiares ou utilizada com base em vídeos, fóruns ou relatos de internet.

Também é importante que o paciente informe ao médico sobre uso de álcool, opioides, analgésicos, outras medicações, histórico de doenças hepáticas e qualquer condição clínica relevante. O acompanhamento profissional permite avaliar benefícios, riscos, efeitos adversos e necessidade de ajustes.

No campo da ludopatia, a medicação pode ser uma ferramenta. Mas a ferramenta precisa estar dentro de um plano. Sem mudança de comportamento, reorganização financeira, apoio familiar e prevenção de recaídas, o risco de retorno ao padrão anterior permanece elevado.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento e como funciona

Considerações finais

O avanço dos estudos sobre o uso da naltrexona na ludopatia abre possibilidades importantes, mas também exige cautela. Como vimos, a medicação pode ajudar alguns pacientes, especialmente na redução da fissura e da urgência de apostar, mas não deve ser tratada como solução isolada. Aqui reforço o papel do tratamento multidisciplinar, unindo do trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.

Na prática clínica, no dia a dia do consultório, é possível observar alguns sinais que merecem atenção. Em pacientes que estão em acompanhamento psiquiátrico e utilizando a naltrexona como parte do tratamento, mesmo considerando uma amostra pequena e sem o rigor de estudos controlados, percebe-se empiricamente uma tendência a um desenrolar mais estável do quadro.

Em alguns casos, nota-se maior aderência ao tratamento, participação mais consistente dos familiares e uma sensação de maior segurança no dia a dia, especialmente em relação ao controle dos impulsos. Essa percepção clínica não substitui evidência científica, mas dialoga com os resultados encontrados em estudos que apontam a medicação como um possível recurso adjuvante no manejo do transtorno do jogo.

Ainda assim, é fundamental reforçar mais uma vez: o tratamento da ludopatia é multifatorial. Ele envolve psicoterapia, responsabilidade, limites, reorganização financeira, prevenção de recaídas, participação em grupos de apoio (jogadores anônimos), orientação familiar e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso.

A medicação pode facilitar o caminho, mas é o conjunto do tratamento que sustenta a mudança.

Se o jogo passou a ocupar espaço excessivo na sua vida ou na sua família, buscar ajuda pode ser o primeiro passo para retomar o controle. O caminho não é imediato, mas é possível quando existe acompanhamento adequado, rede de apoio e um plano realista de recuperação.

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Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

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Fontes

GRANT, Jon E.; KIM, Suck Won; HARTMAN, Boyd K. A double-blind, placebo-controlled study of the opiate antagonist naltrexone in the treatment of pathological gambling urges. The Journal of Clinical Psychiatry, v. 69, n. 5, p. 783-789, 2008. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18384246/

COWLISHAW, Sean et al. Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23076947/

KIM, Suck Won; GRANT, Jon E.; ADSON, Daniel E.; SHIN, Young Chul. Double-blind naltrexone and placebo comparison study in the treatment of pathological gambling. Biological Psychiatry, v. 49, n. 11, p. 914-921, 2001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11377409/

TONEATTO, Tony; BRANDS, Bruna; SELBY, Peter. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of naltrexone in the treatment of concurrent alcohol use disorder and pathological gambling. The American Journal on Addictions, v. 18, n. 3, p. 219-225, 2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19340640/

KOVANEN, Leena et al. A randomised, double-blind, placebo-controlled trial of as-needed naltrexone in the treatment of pathological gambling. European Addiction Research, v. 22, n. 2, p. 70-79, 2016. Disponível em: https://karger.com/ear/article/22/2/70/119448/A-Randomised-Double-Blind-Placebo-Controlled-Trial

IOANNIDIS, Konstantinos et al. Pharmacological management of gambling disorder: a systematic review and network meta-analysis. Comprehensive Psychiatry, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39675219/

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder