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Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer?

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  • Descobrir que um familiar joga escondido pode gerar choque, raiva, medo, confusão e sensação de traição emocional e financeira.

  • A primeira conversa precisa ser firme, mas não humilhante: o objetivo é entender a gravidade do problema e iniciar uma busca real por ajuda.

  • Pagar dívidas repetidamente, sem plano de tratamento e limites financeiros, pode manter o ciclo da dependência em vez de interrompê-lo.

  • A orientação familiar com um psicólogo pode ajudar a organizar uma linha de apoio mais consciente, protegendo a família e favorecendo o tratamento.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer?

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Era uma terça-feira chuvosa quando Ana encontrou a carta do banco. O envelope estava sobre a bancada da cozinha, misturado a contas de luz, propaganda de supermercado e correspondências que normalmente ninguém abria com pressa. Mas aquele papel parecia diferente. Havia um peso silencioso nele.

Ao abrir, Ana sentiu o corpo inteiro gelar. A carta comunicava a inscrição do nome de Jorge no Serasa e trazia um resumo de dívidas em aberto: dois empréstimos pessoais e um cartão de crédito estourado. Ela leu uma vez, leu de novo, tentou entender se havia algum erro. Mas os números estavam ali, organizados demais para serem engano. Eram os  dígitos mais pesados que já havia visto: 147.853,00 reais em dívidas.

Naquele instante, um filme começou a passar pela cabeça. A vida financeira da família sempre tinha parecido estável. Uma viagem por ano. O filho em escola particular. A casa própria, quitada havia quatro anos. Os dois com bons empregos. Ana, funcionária pública em regime híbrido. Jorge, administrador especializado em contratos de franquias, também trabalhando parte da semana em casa.

Nada parecia fora do lugar. Pelo menos, não até aquela carta.

Na manhã seguinte, Jorge ficaria em home office. Ana decidiu que seria a oportunidade de conversar. Sentou-se à mesa da cozinha com uma xícara de café nas mãos, trêmula, tentando encontrar coragem. Jorge apareceu ainda sonolento, abriu o notebook, comentou algo banal sobre a chuva e olhou para ela como se fosse mais uma manhã comum.

Com a voz embargada, Ana colocou a carta sobre a mesa.

“Jorge, eu preciso entender o que está acontecendo.”

Ele olhou para o papel, ficou pálido e não disse nada. Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da cozinha. Ana esperava uma explicação: um erro do banco, uma dívida antiga, alguma emergência que ele não tinha contado. Mas o que veio foi diferente.

Jorge começou a chorar. Disse que tinha começado com apostas pequenas, “só para testar”. Depois tentou recuperar o que perdeu. Em seguida escondeu. Depois fez um empréstimo. Mais outro. O cartão virou uma saída temporária. E, quando percebeu, já não sabia mais como contar.

Essa história é fictícia, mas talvez algo nela soe familiar. Talvez não tenha sido uma carta do banco. Talvez tenha sido uma notificação no celular, uma conversa interrompida, um extrato estranho, uma cobrança inesperada ou uma mentira que não fechava.

Se você descobriu que alguém da sua família joga escondido, este artigo é um convite para respirar, organizar os próximos passos e buscar ajuda com responsabilidade.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

O primeiro impacto: choque, raiva e confusão

Descobrir que um familiar está jogando escondido costuma gerar uma mistura intensa de emoções. Pode haver raiva, medo, decepção, vergonha, culpa e uma sensação profunda de traição. Muitas pessoas relatam que a dor não vem apenas da dívida, mas da mentira.

É comum que a família pense: “Como eu não percebi?”, “Por que ele não me contou?”, “Será que há mais dívidas?”, “Em quem eu posso confiar agora?”. Essas perguntas são compreensíveis. Quando o jogo se instala em segredo, a família perde a sensação de chão.

Por isso, o primeiro cuidado é não tentar resolver tudo no mesmo dia. A urgência é grande, mas decisões tomadas no auge do desespero podem piorar a situação: ameaças impossíveis de cumprir, exposição pública, pagamentos apressados, discussões agressivas ou acordos feitos sem clareza.

A vergonha e o segredo por trás da ludopatia

A vergonha é uma das emoções mais fortes em quem sofre com transtorno do jogo. Muitas vezes, a pessoa não esconde apenas porque quer manipular a família. Ela também esconde porque sente medo de ser descoberta, julgada, abandonada ou vista como alguém “sem caráter”.

Isso não significa que as mentiras não tenham consequências. Elas têm. A família tem o direito de se sentir ferida. Mas compreender o papel da vergonha ajuda a pensar em uma abordagem mais eficaz. Humilhação, xingamentos e exposição pública podem aumentar o silêncio e dificultar ainda mais a busca por ajuda.

Diretrizes internacionais sobre danos relacionados ao jogo reconhecem que vergonha, estigma e medo de revelar o problema podem impedir a pessoa de falar sobre o jogo e procurar apoio. Por isso, a conversa familiar precisa ser firme, mas também precisa abrir uma porta para tratamento.

A vergonha pode manter o problema escondido. A conversa certa pode começar a quebrar esse silêncio.

O que observar antes da primeira conversa?

Antes de confrontar o familiar, tente reunir informações básicas. Não se trata de investigar como um detetive ou invadir a intimidade de forma desorganizada, mas de evitar uma conversa baseada apenas em suspeitas vagas.

Alguns pontos podem ajudar:

  • quais dívidas já apareceram? Há alguma com agiotas?
  • há empréstimos, cartão de crédito, cheque especial ou Pix recorrentes para plataformas de apostas?
  • existem contas atrasadas ou compromissos familiares comprometidos?
  • a pessoa já mentiu anteriormente sobre dinheiro?
  • há sinais de ansiedade, irritabilidade, isolamento ou depressão?
  • há risco de autoagressão, desespero extremo ou falas sobre morte?

Se houver risco imediato à vida ou falas de desesperança, a prioridade não é discutir dívida. A prioridade é segurança. Nesses casos, procure ajuda emergencial, acione familiares próximos e busque atendimento em pronto atendimento, UPA, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Como iniciar a conversa?

A primeira conversa não precisa resolver tudo. Ela precisa abrir uma linha de realidade. O ideal é escolher um momento com privacidade, sem crianças presentes, sem plateia e sem interrupções. Evite iniciar a conversa no meio de uma briga ou logo depois de uma descoberta explosiva, quando todos estão sem condições emocionais de escutar.

Uma forma possível de começar é:

“Eu encontrei informações sobre dívidas e preciso entender o que está acontecendo. Eu estou muito abalada, mas quero que a gente converse com seriedade. O que está acontecendo com o jogo?”

Essa abordagem é diferente de começar com acusação direta, como: “Você acabou com a nossa vida” ou “Você é um irresponsável”. A raiva pode até ser legítima, mas, se ela ocupar todo o espaço, a pessoa pode entrar em negação, defesa ou fuga.

O objetivo da conversa é entender a gravidade do problema e iniciar encaminhamentos concretos: quais dívidas existem, há quanto tempo o jogo acontece, quais plataformas são usadas, se já houve tentativas de parar e se a pessoa aceita buscar ajuda.

Quem deve participar dessa conversa?

Nem toda a família precisa participar da primeira conversa. Em muitos casos, quanto mais pessoas envolvidas de forma desorganizada, maior o risco de exposição, vergonha e conflito. A intervenção familiar precisa ser pensada com cuidado.

Pode fazer sentido envolver:

  • o cônjuge ou companheiro diretamente afetado;
  • um pai ou uma mãe, quando a pessoa depende emocional ou financeiramente da família de origem;
  • um irmão ou irmã que tenha boa relação e maturidade para ajudar;
  • um amigo próximo, confiável e respeitoso;
  • um profissional de saúde mental, quando a situação já está muito grave ou conflituosa.

O critério não deve ser “quem está com mais raiva”, mas quem pode ajudar com firmeza, discrição e equilíbrio. A família precisa formar uma rede de apoio, não um tribunal.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Cuidado com o ciclo de remendar o problema

Um dos erros mais comuns é tentar resolver apenas a dívida. A família descobre o problema, se assusta, paga o cartão, negocia com o agiota, quita o empréstimo, cobre o cheque especial e espera que tudo volte ao normal. A pessoa promete que nunca mais vai jogar. Por algumas semanas, parece funcionar. Depois, uma nova dívida aparece.

Esse ciclo pode se repetir muitas vezes:

  • descoberta;
  • crise familiar;
  • promessa de parar;
  • pagamento ou renegociação da dívida;
  • alívio temporário;
  • nova recaída;
  • nova dívida;
  • nova crise.

Pagar uma dívida pode ser necessário em alguns casos, mas pagar sem plano pode manter o problema. A questão não é apenas “quanto ele deve?”, mas “o que será feito para o comportamento não continuar?”.

Quando a família só remenda a dívida, mas não enfrenta o transtorno, o ciclo tende a continuar.

Primeiros passos práticos para a família

Depois da descoberta, é importante transformar o choque em ação organizada. Isso não significa controlar a pessoa como se ela fosse incapaz de tudo, mas criar limites claros enquanto o tratamento começa.

Alguns passos iniciais podem ajudar:

  • Mapear a situação financeira: listar dívidas, credores, cartões, agiotas, empréstimos e contas atrasadas.
  • Evitar novos empréstimos sem plano: não transformar a família em fonte permanente de cobertura das perdas.
  • Proteger o orçamento básico: alimentação, moradia, saúde, escola, transporte e despesas essenciais precisam ser priorizados.
  • Reduzir acesso a meios de aposta: conversar sobre bloqueios, limites bancários, cartões e aplicativos.
  • Buscar ajuda especializada: procurar um psicólogo com experiência no tratamento de ludopatia, fazer uma avaliação médica quando necessário e participar de grupos de apoio (Jogadores Anônimos).
  • Registrar combinados: acordos verbais feitos no calor da crise tendem a se perder.
  • Observar risco emocional: vergonha intensa, desespero e fala suicida exigem atenção imediata.

O papel da orientação familiar com psicólogo

A orientação familiar é uma ferramenta muito importante quando existe transtorno do jogo. Muitas vezes, os familiares chegam ao consultório em sofrimento, sem saber se devem acolher, confrontar, perdoar, controlar, pagar dívidas ou se afastar.

O psicólogo que atua com esse tema pode ajudar a família a compreender o funcionamento da ludopatia, diferenciar ajuda de manutenção do problema e construir uma linha de apoio mais consciente. Isso inclui trabalhar limites financeiros, comunicação, prevenção de recaídas, sinais de risco e participação de pessoas-chave da rede de apoio.

A família também precisa de espaço para falar da própria dor. Quem convive com alguém em sofrimento por jogo pode desenvolver ansiedade, vigilância constante, medo de novas mentiras, raiva acumulada e exaustão emocional.

Nesse sentido, a orientação familiar não serve apenas para “ensinar a lidar com o jogador”. Serve também para proteger a família, organizar decisões e impedir que todos fiquem presos ao ciclo da crise. Inclusive encaminhar, quando necessário, o familiar para algum colega psicólogo, para que também cuide e trabalhe seu emocional. Sempre precisamos perguntar: quem vai cuidar de quem cuida?

Quando buscar avaliação médica?

Em alguns casos, além da psicoterapia, pode ser importante encaminhar a pessoa para avaliação médica ou psiquiátrica. Isso é especialmente relevante quando há depressão, ansiedade intensa, impulsividade importante, uso de álcool ou outras substâncias, insônia grave, risco de autoagressão ou recaídas frequentes.

O transtorno do jogo pode aparecer associado a outros quadros emocionais. Por isso, olhar apenas para a dívida pode ser insuficiente. O tratamento precisa considerar a pessoa como um todo: comportamento, emoções, vínculos, rotina, saúde mental e contexto familiar.

E se ele ou ela negar o problema?

A negação é comum. A pessoa pode dizer que está tudo sob controle, que foi apenas uma fase, que está quase recuperando o dinheiro, que a família está exagerando ou que não precisa de tratamento.

Nesses casos, a família não precisa entrar em disputa para “vencer” a conversa. Pode ser mais útil voltar aos fatos:

  • “Há uma dívida concreta.”
  • “Houve mentira ou omissão.”
  • “O orçamento familiar foi afetado.”
  • “Nós precisamos de ajuda para lidar com isso.”
  • “Não vamos continuar pagando ou encobrindo sem tratamento.”

Mesmo que a pessoa ainda não aceite ajuda, os familiares podem buscar orientação de um psicólogo que tenha experiência no tratamento de ludopatia. A mudança de postura da família pode ser decisiva para interromper o ciclo de promessas, pagamentos e recaídas.

O que não fazer

Algumas atitudes, embora compreensíveis, podem piorar o cenário:

  • expor a pessoa publicamente;
  • envolver filhos pequenos na discussão;
  • pagar dívidas repetidamente sem plano de tratamento;
  • fazer ameaças que não serão cumpridas;
  • tratar o problema apenas como falta de caráter;
  • ignorar sinais de risco emocional;
  • acreditar que apenas “força de vontade” resolverá tudo;
  • tentar controlar tudo sozinha ou sozinho.

A família precisa de equilíbrio: não pode sustentar o jogo, mas também não precisa destruir a pessoa pela vergonha. O caminho mais saudável costuma estar na combinação entre acolhimento, limite e tratamento.

O primeiro passo pode ser informação de qualidade

Quando a família descobre o problema, é comum buscar respostas rápidas na internet. Isso pode ajudar, desde que as informações sejam confiáveis. Procure conteúdos de qualidade produzidos por profissionais de saúde, instituições reconhecidas e serviços especializados.

Também vale considerar grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, e espaços voltados aos familiares. Esses grupos podem ajudar a reduzir a sensação de isolamento e mostrar que outras famílias também enfrentam situações parecidas.

O mais importante é não permanecer sozinho na tentativa de resolver um problema complexo. O transtorno do jogo costuma exigir rede, orientação e consistência.

Considerações finais

Descobrir que um familiar joga escondido pode ser uma experiência devastadora. Em poucos minutos, a família tenta reconstruir meses ou anos de sinais que talvez tenham passado despercebidos. A carta do banco, a dívida, o cartão estourado ou o empréstimo escondido não revelam apenas um problema financeiro. Revelam também um sofrimento que vinha sendo mantido em segredo.

Nesse momento, é natural sentir raiva, medo e decepção. Mas a pergunta mais importante passa a ser: o que fazer agora?

O primeiro passo é sair do improviso. Conversar com firmeza, mapear a situação, proteger o orçamento familiar, bens familiares, evitar o ciclo de apenas remendar dívidas e buscar ajuda especializada. A psicoterapia pode auxiliar tanto a pessoa que joga quanto os familiares, criando uma linha de apoio mais consciente, com limites reais e possibilidade de recuperação.

A ludopatia não deve ser reduzida a “frescura” ou falta de caráter. É um transtorno que pode ser tratado. Mas o tratamento precisa começar com reconhecimento, responsabilidade e ação concreta.

Se essa história se parece com algo que está acontecendo na sua casa, talvez este seja o momento de buscar ajuda. Você não precisa enfrentar isso sozinho!

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR

Fontes

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AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf

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Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento e como funciona

Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo

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  • A naltrexona tem sido estudada como possível recurso auxiliar no tratamento da ludopatia, especialmente em casos com forte impulso para apostar.

  • O uso para transtorno do jogo ainda é considerado off-label (fora da bula) e deve ser sempre avaliado por médico, preferencialmente psiquiatra.

  • Estudos clínicos indicam resultados promissores em alguns pacientes, mas ainda não permitem tratar a medicação como solução isolada.

  • O tratamento da ludopatia envolve psicoterapia, orientação familiar, prevenção de recaídas, limites financeiros e, em alguns casos, suporte medicamentoso.

Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Quando se fala em tratamento da ludopatia, uma das perguntas mais frequentes é direta: existe algum medicamento que ajude a parar de jogar?

A resposta exige cuidado. Não existe uma “cura rápida” em forma de medicação. O transtorno do jogo é um fenômeno complexo, que envolve comportamento, emoção, impulsividade, contexto de vida, prejuízos financeiros e dinâmica familiar. No entanto, nos últimos anos, alguns estudos vêm investigando o uso de medicamentos como a naltrexona como possível recurso auxiliar no tratamento.

Este artigo tem como objetivo esclarecer, de forma responsável e acessível, o que se sabe até o momento sobre essa abordagem, seus limites e seu lugar dentro de um tratamento mais amplo.

O que é a naltrexona?

A naltrexona é uma medicação conhecida principalmente pelo seu uso no tratamento de dependência de álcool e opioides. De forma simplificada, ela atua em sistemas do cérebro relacionados à recompensa, ao prazer, motivação e ao reforço comportamental.

Esse mecanismo despertou o interesse de pesquisadores: se o transtorno do jogo compartilha características com outros comportamentos aditivos como impulsividade, busca por recompensa, fissura e dificuldade de controle, será que a naltrexona poderia ajudar também nesses casos?

A partir dessa hipótese, começaram a surgir estudos investigando seu uso no tratamento do jogo patológico, hoje mais frequentemente chamado de transtorno do jogo ou ludopatia.

O que os estudos indicam até agora?

Os estudos sobre naltrexona no transtorno do jogo ainda não permitem afirmar que ela seja uma solução definitiva, mas apontam resultados relevantes em alguns grupos de pacientes. A principal hipótese é que, por atuar em sistemas cerebrais ligados à recompensa, ao prazer e ao impulso, a naltrexona possa ajudar a reduzir a fissura ou urgência de jogar.

Um dos estudos clássicos foi publicado por Kim, Grant, Adson e Shin, em 2001, em um ensaio duplo-cego comparando naltrexona e placebo no tratamento do jogo patológico. Os autores observaram redução dos sintomas no grupo tratado com naltrexona, embora tenham destacado a necessidade de cautela e de novos estudos para confirmação dos achados.

Em 2008, Grant, Kim e Hartman publicaram outro estudo duplo-cego, placebo-controlado, avaliando a naltrexona em adultos com jogo patológico e forte urgência para apostar. O estudo também encontrou resultados favoráveis, especialmente na redução dos impulsos relacionados ao jogo.

Por outro lado, nem todos os estudos encontraram benefícios tão consistentes. Toneatto, Brands e Selby, em 2009, avaliaram a naltrexona em pessoas com jogo patológico associado ao abuso ou dependência de álcool, e os resultados não demonstraram superioridade clara da medicação em relação ao placebo nesse contexto específico.

Outro estudo, publicado por Kovanen e colaboradores em 2016, avaliou o uso de naltrexona “conforme a necessidade” em pessoas com jogo patológico que também recebiam suporte psicossocial. Os autores concluíram que essa forma de uso não trouxe benefício adicional substancial para o grupo como um todo, embora tenham apontado possibilidades de resposta em subgrupos específicos.

Mais recentemente, uma revisão sistemática com meta-análise em rede publicada por Ioannidis e colaboradores, em 2025, indicou que naltrexona e nalmefeno estão entre as opções farmacológicas com evidência mais favorável para o transtorno do jogo, embora os autores também tenham destacado limitações importantes, como tolerabilidade, tamanho dos estudos e necessidade de pesquisas mais robustas.

A naltrexona pode ser promissora como recurso adjuvante, mas não deve ser apresentada como “remédio para parar de jogar” ou como substituta da psicoterapia.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento

O que dizem as diretrizes clínicas?

As diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence (NICE – Reino Unido), publicadas em 2025, recomendam considerar a naltrexona para reduzir a gravidade do jogo quando a psicoterapia não alcançou os resultados esperados após um curso adequado de tratamento, ou quando a pessoa apresenta recaídas repetidas apesar de ter recebido intervenção psicológica apropriada. Ou seja, um caso refratário ao tratamento psicoterápico ou mesmo mais resistente.

A própria diretriz destaca que, em janeiro de 2025, esse era um uso off-label da naltrexona. Isso significa que a medicação não deve ser usada de forma banalizada ou sem avaliação médica. O início do tratamento deve ocorrer sob responsabilidade de profissional médico qualificado e experiente, preferencialmente em articulação com uma abordagem psicológica e familiar.

O que significa uso off-label?

Uso off-label significa que uma medicação está sendo utilizada para uma finalidade diferente daquela para a qual foi originalmente aprovada pelas autoridades regulatórias, que o uso não está descrito na bula. Isso não quer dizer, necessariamente, que o uso seja inadequado. Significa que ele exige critério clínico, avaliação individualizada, acompanhamento médico e consentimento informado.

No caso da ludopatia, a decisão de utilizar naltrexona deve ser tomada por um médico, geralmente psiquiatra, considerando:

  • histórico clínico do paciente;
  • intensidade do comportamento de jogo;
  • presença de outras condições de saúde mental;
  • uso de álcool, opioides ou outras substâncias;
  • uso de outras medicações;
  • condições hepáticas e demais aspectos de saúde geral;
  • risco de recaídas e gravidade dos prejuízos causados pelo jogo.

Esse cuidado é fundamental porque a medicação pode ter contraindicações, interações e efeitos adversos. Além disso, cada paciente apresenta uma história diferente. O que pode fazer sentido em um caso pode não ser indicado em outro.

A naltrexona não substitui a psicoterapia

Mesmo quando indicada, a naltrexona deve ser compreendida como recurso auxiliar. Ela pode ajudar alguns pacientes a reduzirem a fissura e a urgência de jogar, mas não reorganiza, sozinha, a vida emocional, financeira e familiar da pessoa. Essa mesma dinâmica de recurso auxiliar é vista em outros transtornos, como por exemplo a depressão e a ansiedade, sendo indicado o tratamento multidisciplinar, envolvendo o trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.

A medicação não substitui o trabalho de compreender gatilhos, reconstruir rotina, lidar com vergonha, assumir responsabilidades, reparar danos possíveis e desenvolver estratégias de prevenção de recaídas.

Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa. E ainda oferecer informações e orientações de qualidade aos familiares, tendo o profissional de psicologia como um aliado nesse processo.

A medicação pode reduzir o impulso, mas a recuperação exige mudança de comportamento, reorganização da vida e reconstrução de vínculos.

A importância da psicoterapia

Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa.

Estudos apontam que intervenções psicológicas estruturadas, especialmente abordagens cognitivas e comportamentais, apresentam resultados consistentes na redução do comportamento de jogo e na prevenção de recaídas. Uma revisão sistemática conduzida por Cowlishaw e colaboradores (2012), publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews, encontrou evidências de que a psicoterapia pode reduzir significativamente a frequência e a intensidade das apostas em pessoas com transtorno do jogo.

Além disso, o acompanhamento psicológico permite trabalhar aspectos que a medicação não alcança: padrões de pensamento distorcidos, impulsividade, regulação emocional, vergonha, culpa e reconstrução de sentido fora do jogo.

Outro ponto fundamental é o trabalho com a família. A psicoterapia também pode oferecer orientação aos familiares, ajudando-os a compreender o transtorno, estabelecer limites saudáveis e construir uma rede de apoio mais consciente. Nesse contexto, o profissional de psicologia se torna um aliado importante não apenas do paciente, mas de todo o sistema familiar envolvido.

A medicação pode ajudar a reduzir o impulso, mas é na psicoterapia que a pessoa aprende a sustentar a mudança.

O papel da psicoterapia no tratamento da ludopatia

A psicoterapia ajuda o paciente a reconhecer o ciclo do jogo. Muitas vezes, esse ciclo envolve ansiedade, tensão, aposta, perda, culpa, tentativa de recuperar, nova perda, segredo e promessa de parar. Sem compreender esse funcionamento, a pessoa pode repetir o mesmo padrão diversas vezes.

O trabalho terapêutico pode envolver:

  • identificação de gatilhos emocionais;
  • manejo da impulsividade;
  • prevenção de recaídas;
  • reconstrução da rotina;
  • trabalho com vergonha, culpa e negação;
  • reorganização da relação com dinheiro;
  • fortalecimento da rede de apoio;
  • desenvolvimento de estratégias para lidar com fissura e urgência de apostar.

Em alguns casos, a psicoterapia também ajuda o paciente a lidar com questões associadas, como ansiedade, depressão, baixa autoestima, solidão, conflitos conjugais, estresse no trabalho ou uso de álcool e outras substâncias.

Família, limites e corresponsabilidade

A família pode ter papel fundamental no tratamento da ludopatia, especialmente quando recebe orientação adequada. Muitas vezes, os familiares estão confusos, com raiva, medo ou culpa, sem saber se devem acolher, confrontar, pagar dívidas ou impor limites.

A orientação familiar pode ajudar a construir uma linha de apoio mais consciente. A família não deve ser transformada em polícia, mas também não pode sustentar o ciclo do jogo com empréstimos repetidos, pagamento de dívidas sem plano ou promessas vazias de mudança.

Algumas medidas podem ser discutidas em conjunto:

  • estabelecimento de limites financeiros claros;
  • proteção do orçamento familiar;
  • restrição temporária de acesso a crédito, cartões ou grandes valores, quando necessário;
  • acompanhamento de sinais de recaída;
  • apoio emocional sem humilhação;
  • participação em sessões de orientação familiar;
  • encaminhamento para avaliação psiquiátrica quando indicado;
  • construção de um plano de prevenção de recaídas.

Quando paciente, família, psicólogo e médico atuam de forma integrada, o tratamento tende a ganhar mais consistência. A recuperação não depende apenas de força de vontade; ela precisa de estrutura.

Quando considerar avaliação psiquiátrica?

A avaliação psiquiátrica pode ser importante quando o comportamento de jogo está associado a impulsividade intensa, recaídas frequentes, depressão, ansiedade significativa, uso de álcool ou outras substâncias, ideação suicida ou dificuldade persistente de controle mesmo com acompanhamento psicológico. Esses pontos reforçam, ainda mais, a importância da participação dos familiares. Observando e dando feedbacks ao psicólogo sobre como anda o dia a dia em casa.

Nesses casos, o psiquiatra poderá avaliar se há indicação de medicação, incluindo ou não a naltrexona, além de considerar outros diagnósticos e condições associadas. O objetivo não é apenas “dar remédio”, mas compreender o quadro de forma ampla e segura.

É importante reforçar: psicólogos não prescrevem medicamentos. O papel do psicólogo é avaliar, acompanhar, orientar, trabalhar aspectos emocionais e comportamentais, e, quando necessário, encaminhar para avaliação médica.

Cuidados importantes sobre medicação

Todo tratamento medicamentoso precisa ser individualizado. A naltrexona não deve ser iniciada por conta própria, compartilhada entre familiares ou utilizada com base em vídeos, fóruns ou relatos de internet.

Também é importante que o paciente informe ao médico sobre uso de álcool, opioides, analgésicos, outras medicações, histórico de doenças hepáticas e qualquer condição clínica relevante. O acompanhamento profissional permite avaliar benefícios, riscos, efeitos adversos e necessidade de ajustes.

No campo da ludopatia, a medicação pode ser uma ferramenta. Mas a ferramenta precisa estar dentro de um plano. Sem mudança de comportamento, reorganização financeira, apoio familiar e prevenção de recaídas, o risco de retorno ao padrão anterior permanece elevado.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento e como funciona

Considerações finais

O avanço dos estudos sobre o uso da naltrexona na ludopatia abre possibilidades importantes, mas também exige cautela. Como vimos, a medicação pode ajudar alguns pacientes, especialmente na redução da fissura e da urgência de apostar, mas não deve ser tratada como solução isolada. Aqui reforço o papel do tratamento multidisciplinar, unindo do trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.

Na prática clínica, no dia a dia do consultório, é possível observar alguns sinais que merecem atenção. Em pacientes que estão em acompanhamento psiquiátrico e utilizando a naltrexona como parte do tratamento, mesmo considerando uma amostra pequena e sem o rigor de estudos controlados, percebe-se empiricamente uma tendência a um desenrolar mais estável do quadro.

Em alguns casos, nota-se maior aderência ao tratamento, participação mais consistente dos familiares e uma sensação de maior segurança no dia a dia, especialmente em relação ao controle dos impulsos. Essa percepção clínica não substitui evidência científica, mas dialoga com os resultados encontrados em estudos que apontam a medicação como um possível recurso adjuvante no manejo do transtorno do jogo.

Ainda assim, é fundamental reforçar mais uma vez: o tratamento da ludopatia é multifatorial. Ele envolve psicoterapia, responsabilidade, limites, reorganização financeira, prevenção de recaídas, participação em grupos de apoio (jogadores anônimos), orientação familiar e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso.

A medicação pode facilitar o caminho, mas é o conjunto do tratamento que sustenta a mudança.

Se o jogo passou a ocupar espaço excessivo na sua vida ou na sua família, buscar ajuda pode ser o primeiro passo para retomar o controle. O caminho não é imediato, mas é possível quando existe acompanhamento adequado, rede de apoio e um plano realista de recuperação.

Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR

Fontes

GRANT, Jon E.; KIM, Suck Won; HARTMAN, Boyd K. A double-blind, placebo-controlled study of the opiate antagonist naltrexone in the treatment of pathological gambling urges. The Journal of Clinical Psychiatry, v. 69, n. 5, p. 783-789, 2008. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18384246/

COWLISHAW, Sean et al. Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23076947/

KIM, Suck Won; GRANT, Jon E.; ADSON, Daniel E.; SHIN, Young Chul. Double-blind naltrexone and placebo comparison study in the treatment of pathological gambling. Biological Psychiatry, v. 49, n. 11, p. 914-921, 2001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11377409/

TONEATTO, Tony; BRANDS, Bruna; SELBY, Peter. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of naltrexone in the treatment of concurrent alcohol use disorder and pathological gambling. The American Journal on Addictions, v. 18, n. 3, p. 219-225, 2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19340640/

KOVANEN, Leena et al. A randomised, double-blind, placebo-controlled trial of as-needed naltrexone in the treatment of pathological gambling. European Addiction Research, v. 22, n. 2, p. 70-79, 2016. Disponível em: https://karger.com/ear/article/22/2/70/119448/A-Randomised-Double-Blind-Placebo-Controlled-Trial

IOANNIDIS, Konstantinos et al. Pharmacological management of gambling disorder: a systematic review and network meta-analysis. Comprehensive Psychiatry, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39675219/

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder

Jogadores Anônimos – você não precisa enfrentar isso sozinho

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  • Os grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, são uma ferramenta importante no tratamento da ludopatia, oferecendo acolhimento e identificação entre os participantes.

  • Hoje, além dos encontros presenciais espalhados pelo Brasil, existem grupos online com reuniões em diversos horários, facilitando o acesso.

  • Esses espaços também contam com reuniões para familiares, ajudando a construir uma rede de apoio mais consciente e estruturada.

  • A participação em grupos não substitui a psicoterapia, mas pode enriquecer o tratamento e fortalecer o compromisso com a recuperação.

Grupos de apoio e ludopatia: por que você não precisa enfrentar isso sozinho

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

Uma das características mais marcantes do transtorno do jogo é o isolamento. A pessoa joga escondido, perde em silêncio, tenta recuperar sem contar a ninguém e, muitas vezes, carrega uma sensação intensa de vergonha.

Esse isolamento pode fazer com que o problema pareça ainda maior — como se fosse algo único, pessoal e difícil de ser compreendido por outras pessoas. É nesse ponto que os grupos de apoio se tornam um recurso extremamente valioso.

Participar de um grupo como o Jogadores Anônimos pode ser um primeiro passo importante para quebrar esse isolamento e perceber algo fundamental: você não está sozinho.

O que são os grupos de apoio?

Os grupos de apoio são espaços onde pessoas que enfrentam o mesmo tipo de dificuldade se reúnem para compartilhar experiências, desafios e estratégias de enfrentamento. No caso da ludopatia, os grupos de Jogadores Anônimos seguem um modelo inspirado nos 12 passos, com foco em acolhimento, responsabilidade e recuperação.

Não se trata de julgamento, nem de exposição forçada. Cada participante fala se quiser, no seu tempo. O mais importante é o ambiente: um espaço seguro, onde as pessoas se reconhecem umas nas outras.

O grupo oferece algo que muitas vezes falta fora dele: escuta sem julgamento e identificação real.

Presencial ou online: hoje o acesso é muito maior

Uma das grandes vantagens atuais é que o acesso aos grupos ficou muito mais fácil. Existem reuniões presenciais espalhadas por diversas cidades do Brasil. Uma busca simples no Google por “Jogadores Anônimos + sua cidade” já pode indicar opções próximas.

Além disso, os grupos online têm crescido de forma significativa. Hoje é possível encontrar reuniões em diferentes horários ao longo do dia,m inclusive à noite e aos finais de semana.

Isso facilita muito o acesso, especialmente para quem:

  • tem dificuldade de deslocamento;
  • prefere mais anonimato no início;
  • possui rotina de trabalho variável;
  • está começando a reconhecer o problema.

Outro ponto importante é que muitos desses espaços também oferecem grupos para familiares, o que pode ser extremamente útil. Famílias que participam desses encontros tendem a compreender melhor o transtorno e a construir formas mais saudáveis de apoio.

 

O que a ciência diz sobre grupos de apoio?

Embora os grupos de apoio não sejam, por si só, uma intervenção clínica estruturada como a psicoterapia, estudos indicam que eles podem desempenhar um papel importante no tratamento do transtorno do jogo.

Pesquisas como a de Petry (2005) mostram que a participação em programas como Jogadores Anônimos pode contribuir para a redução do comportamento de jogo, especialmente quando combinada com tratamento psicológico.

Outros estudos apontam que fatores como suporte social, identificação com o grupo e compromisso com a abstinência podem aumentar a adesão ao tratamento e reduzir recaídas.

Em termos simples: o grupo não substitui a psicoterapia, mas pode potencializar seus efeitos.

Por que o grupo funciona?

Existem alguns elementos que fazem dos grupos de apoio uma ferramenta tão potente:

  • Identificação: ouvir histórias semelhantes reduz o sentimento de isolamento;
  • Compromisso: a presença regular cria uma rotina de cuidado;
  • Responsabilidade: o grupo ajuda a manter o foco na recuperação;
  • Rede de apoio: possibilidade de contato com outras pessoas em momentos difíceis;
  • Estrutura: encontros organizados, com regras e propósito claro;
  • Acolhimento: sem julgamento, sem exposição obrigatória.

Um ponto muito importante é a figura do padrinho ou madrinha dentro do grupo. Trata-se de alguém com mais tempo de recuperação, que pode oferecer suporte mais próximo, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade.

O grupo não substitui o tratamento

É importante deixar claro: os grupos de apoio não substituem a psicoterapia. Eles são um complemento. Enquanto o grupo oferece identificação e suporte, a psicoterapia trabalha aspectos mais profundos, como impulsividade, emoções, história de vida, padrões de comportamento e prevenção de recaídas.

Quando esses dois caminhos caminham juntos — grupo e psicoterapia — o tratamento tende a ganhar mais consistência.

O grupo acolhe. A psicoterapia aprofunda. E juntos, ajudam a sustentar a mudança.

Um convite importante

Se você está enfrentando dificuldades com apostas, ou se alguém próximo está passando por isso, considere conhecer um grupo de apoio. Não é necessário “estar no fundo do poço” para participar. Muitas vezes, quanto mais cedo esse contato acontece, maiores são as chances de reorganização.

Uma simples busca no Google pode ser o primeiro passo. E, se for mais confortável, os grupos online estão disponíveis em diferentes horários, inclusive aos finais de semana.

Você não precisa passar por isso sozinho.

Considerações finais

Na prática clínica, a participação em grupos de apoio costuma trazer ganhos importantes para o tratamento. É possível perceber, em muitos pacientes, uma maior adesão ao processo, um senso mais claro de compromisso e uma diminuição da sensação de isolamento.

Algo que aparece com frequência é a frase: “não é só comigo”. Esse reconhecimento, por si só, já tem um efeito significativo. A pessoa deixa de se enxergar como alguém “fora do normal” ou “sem caráter” e passa a compreender o transtorno como algo que pode ser tratado.

Outro ponto relevante é o contato com experiências reais trazidas nas reuniões. Esses relatos muitas vezes chegam à psicoterapia e enriquecem o processo, tornando o trabalho mais concreto e conectado com o dia a dia do paciente.

A presença de um padrinho ou madrinha, a possibilidade de conversar em momentos críticos e a participação da família em grupos específicos também fortalecem a rede de apoio.

Quando o grupo, a psicoterapia e, quando necessário, o acompanhamento médico caminham juntos, o tratamento tende a ganhar mais consistência e segurança.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É um passo importante em direção à recuperação.

Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?

💬 Uma mensagem importante:

Se você está lendo este artigo e se reconheceu em alguns pontos, considere participar de uma reunião de grupo de apoio ainda esta semana. Não é necessário esperar o “momento certo”. O primeiro passo pode ser apenas entrar e ouvir.

Links úteis e rede de apoio

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
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Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR

Fontes

PETRY, Nancy M. Pathological Gambling: Etiology, Comorbidity and Treatment. American Psychological Association, 2005.

COWLISHAW, Sean et al. Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database, 2012.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

A vergonha de quem joga: o segredo por trás da ludopatia

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  • A vergonha é uma das emoções mais presentes na ludopatia e pode manter o problema escondido por meses ou anos.

  • Muitas pessoas que jogam escondido não sofrem apenas pelas perdas financeiras, mas também pelo medo de decepcionar a família.

  • O segredo pode parecer uma tentativa de proteger a família, mas geralmente aumenta dívidas, mentiras e sofrimento emocional.

  • Falar sobre o problema, buscar psicoterapia e envolver a família com orientação adequada pode ser um passo decisivo no tratamento.

A vergonha de quem joga: o segredo por trás da ludopatia

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Quem olha de fora costuma enxergar apenas a dívida, a mentira, o cartão estourado, o empréstimo escondido ou a promessa quebrada. E tudo isso realmente importa. A família sofre, a confiança é abalada e as consequências financeiras podem ser graves.

Mas, por trás de muitos casos de ludopatia, existe uma emoção silenciosa que ajuda a manter o problema escondido: a vergonha.

A pessoa que joga pode sentir vergonha de ter perdido dinheiro, vergonha de ter mentido, vergonha de ter decepcionado quem ama, vergonha de não conseguir parar e vergonha de precisar de ajuda. Em muitos casos, essa vergonha é tão intensa que a pessoa passa a esconder ainda mais. E, quanto mais esconde, maior o problema fica.

É assim que o transtorno do jogo pode se instalar no silêncio: uma aposta escondida, uma perda não contada, uma tentativa de recuperar, uma nova dívida, uma nova mentira e uma promessa íntima de que “agora eu vou resolver sozinho”.

A vergonha faz a pessoa acreditar que precisa esconder o problema. O tratamento começa quando ela encontra um espaço seguro para falar sobre ele.

Vergonha não é a mesma coisa que culpa

Culpa e vergonha são emoções parecidas, mas não são a mesma coisa. A culpa costuma estar ligada a algo que a pessoa fez: “eu errei”, “eu menti”, “eu perdi dinheiro”, “eu prejudiquei minha família”. Já a vergonha costuma atingir a identidade: “eu sou um fracasso”, “eu não presto”, “eu sou fraco”, “ninguém vai me respeitar se souber”.

Na ludopatia, essa diferença é muito importante. A culpa pode ajudar alguém a reconhecer danos e buscar reparação. A vergonha, quando se torna excessiva, pode paralisar. Em vez de aproximar a pessoa da ajuda, ela a empurra para o segredo.

A pessoa pode pensar: “Se eu contar, vou destruir minha família”; “Se descobrirem, vão me abandonar”; “Se eu ganhar de volta, não preciso contar”; “Se eu resolver sozinho, ninguém vai saber”. O problema é que essa tentativa de resolver sozinho frequentemente leva a novas apostas.

O segredo como tentativa de controle

Muitas pessoas não começam escondendo tudo. No início, pode ser apenas uma pequena omissão: um valor menor do que o real, uma aposta não comentada, uma perda tratada como algo sem importância. Aos poucos, o segredo cresce.

Quando a dívida aumenta, a pessoa pode tentar recuperar o prejuízo antes que alguém descubra. Esse é um ponto muito delicado. O jogo passa a ser visto como o próprio caminho para apagar o estrago causado pelo jogo.

Esse ciclo pode seguir uma lógica parecida:

  • aposta escondida;
  • perda financeira;
  • vergonha e medo de contar;
  • nova aposta para tentar recuperar;
  • nova perda;
  • mentira ou omissão;
  • aumento da dívida;
  • mais vergonha e mais segredo.

O segredo parece proteger, mas geralmente aprisiona. Ele impede que a família perceba o problema cedo, dificulta o acesso a tratamento e aumenta o risco de decisões impulsivas.

Por que é tão difícil contar para a família?

Contar para a família significa enfrentar uma realidade que a pessoa tentou evitar por muito tempo. Significa assumir perdas, revelar mentiras, admitir fragilidade e encarar o impacto nos vínculos.

Para muitos pacientes, o medo não é apenas financeiro. É afetivo. A pessoa teme perder respeito, amor, casamento, confiança, autoridade diante dos filhos ou lugar dentro da família.

Diretrizes clínicas sobre danos relacionados ao jogo reconhecem que o estigma, a vergonha e o medo de revelar o problema podem impedir a pessoa de falar sobre o jogo e buscar tratamento. Isso ajuda a entender por que tantos casos só chegam à família quando a dívida já ficou grande ou quando alguma cobrança externa aparece.

Muitas vezes, a família descobre tarde não porque o problema era pequeno, mas porque a vergonha o manteve escondido.

Vergonha pode atrasar o tratamento

A vergonha não aparece apenas antes da descoberta. Ela também pode atrapalhar depois. Mesmo quando a família já sabe, a pessoa pode evitar falar sobre detalhes importantes: valores reais, plataformas usadas, empréstimos, recaídas, pensamentos de desespero ou tentativas anteriores de parar.

Isso pode prejudicar o tratamento, porque o psicólogo, o médico e a família precisam de uma noção mais clara da gravidade do quadro. Sem informações reais, cria-se um tratamento em cima de uma versão parcial do problema.

Por isso, uma parte importante do processo terapêutico é construir um ambiente em que a verdade possa aparecer sem que isso se transforme em destruição. A verdade pode doer, mas ela também organiza. O segredo, ao contrário, costuma prolongar o sofrimento.

Jogo patológico não é falta de caráter

Um dos maiores obstáculos para pedir ajuda é o medo de ser visto como alguém sem caráter. A pessoa sabe que mentiu, sabe que causou prejuízo e sabe que feriu a confiança da família. Mas reduzir tudo a uma falha moral pode impedir a compreensão clínica do problema.

O transtorno do jogo envolve um padrão persistente de apostas apesar de prejuízos importantes. A pessoa pode continuar jogando mesmo quando percebe danos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. Isso não retira sua responsabilidade, mas mostra que o problema precisa ser tratado com mais profundidade.

A frase central aqui é: não é falta de caráter, mas também não é ausência de responsabilidade. A pessoa precisa se responsabilizar pelas consequências, mas também precisa de tratamento, suporte e limites reais.

Quando tudo vira julgamento moral, a pessoa se esconde. Quando tudo vira desculpa, o problema continua. O tratamento precisa encontrar outro caminho.

Como começar a falar sobre o problema?

Não existe uma forma perfeita de contar para a família. Mas existe uma forma mais responsável: com verdade, disposição para assumir consequências e abertura para ajuda.

Alguns pontos podem orientar essa conversa:

  • escolha um momento de privacidade e sem pressa;
  • não conte apenas uma parte pequena se o problema é maior;
  • evite promessas vagas como “nunca mais vou fazer isso”;
  • apresente fatos: dívidas, tempo de jogo, tentativas de parar e riscos atuais;
  • reconheça o impacto causado na família;
  • diga que precisa de ajuda profissional;
  • aceite limites financeiros e combinados de proteção;
  • procure psicoterapia e, se necessário, avaliação médica.

A conversa pode ser difícil, mas ela pode interromper um ciclo muito mais perigoso. Quando o problema sai do segredo, ele pode finalmente entrar no campo do cuidado.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

E como a família pode reagir?

Para a família, ouvir essa revelação pode ser devastador. É natural sentir raiva, medo e decepção. Ninguém precisa fingir tranquilidade diante de uma situação grave. Mas a forma como a família reage pode influenciar bastante os próximos passos.

Algumas atitudes ajudam mais:

  • escutar antes de tomar decisões definitivas;
  • pedir informações concretas sobre dívidas e riscos;
  • evitar humilhação pública;
  • não envolver crianças na discussão;
  • não pagar dívidas sem plano de tratamento;
  • buscar orientação psicológica familiar;
  • estabelecer limites financeiros claros;
  • observar sinais de depressão, desespero ou risco de autoagressão.

A família não precisa escolher entre destruir a pessoa ou proteger o problema. Existe um caminho mais saudável: acolher sem acobertar, limitar sem humilhar e buscar ajuda sem esperar que tudo se resolva apenas com promessa.

O papel do psicólogo diante da vergonha

A psicoterapia oferece um espaço onde a vergonha pode ser trabalhada com cuidado. Muitas vezes, antes de reorganizar dívidas ou construir estratégias de prevenção de recaída, a pessoa precisa conseguir falar. Falar sobre o que fez, o que perdeu, o que escondeu e o que teme perder.

O psicólogo pode ajudar o paciente a compreender o ciclo do jogo, identificar gatilhos emocionais, lidar com impulsividade e construir formas mais honestas de relação com a família. Também pode ajudar a diferenciar responsabilidade de autodestruição.

Assumir responsabilidade não é se esmagar pela culpa. É reconhecer o dano, aceitar ajuda, construir limites e participar ativamente do tratamento.

Além disso, a orientação familiar pode ser decisiva. O psicólogo pode auxiliar os familiares a compreenderem o transtorno, organizarem limites, evitarem o ciclo de apenas remendar dívidas e criarem uma linha de apoio mais firme e consciente.

Quando a vergonha vira risco

Em alguns casos, a vergonha pode vir acompanhada de desespero intenso. A pessoa pode sentir que perdeu tudo, que não há saída, que decepcionou todos ao redor ou que a vida não tem mais solução.

Qualquer fala sobre morte, suicídio, desaparecimento, vontade de dormir e não acordar, ou sensação de que “seria melhor não estar aqui” deve ser levada a sério. Nesses momentos, a prioridade é proteção imediata.

Procure ajuda emergencial, acione familiares próximos, busque uma UPA, pronto atendimento, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188. A psicoterapia é fundamental, mas situações de risco exigem cuidado imediato e rede de proteção.

O segredo termina quando existe rede

A recuperação da ludopatia raramente acontece apenas pela força de vontade individual. É comum que o tratamento envolva psicoterapia, orientação familiar, grupos de apoio, reorganização financeira, bloqueios de acesso, avaliação médica quando necessário e prevenção de recaídas.

Grupos como Jogadores Anônimos também podem ajudar muitas pessoas a quebrar o isolamento. Ouvir outras histórias permite que o paciente perceba algo importante: “não é só comigo”. Essa identificação pode diminuir a vergonha e aumentar o compromisso com o tratamento.

Para os familiares, grupos de apoio e orientação profissional também podem trazer alívio. A família começa a compreender que não está sozinha, que o problema é tratável e que ajudar não significa pagar tudo, encobrir tudo ou aceitar tudo.

Considerações finais

A vergonha é uma das faces mais dolorosas da ludopatia. Ela faz a pessoa se esconder, mentir, adiar conversas importantes e tentar resolver sozinha um problema que costuma crescer justamente no segredo.

Mas a vergonha não precisa ser o ponto final da história. Quando existe espaço para falar, quando a família recebe orientação e quando o paciente aceita tratamento, o segredo começa a perder força.

Na prática clínica, é comum perceber que o tratamento ganha mais consistência quando o paciente consegue transformar vergonha em responsabilidade. Isso não acontece de uma hora para outra. Mas, quando acontece, algo importante muda: a pessoa deixa de lutar sozinha contra o problema e passa a construir um caminho de cuidado, limite e reconstrução.

A ludopatia não deve ser reduzida a “frescura” ou falta de caráter. É um transtorno que pode gerar sofrimento intenso, mas que também pode ser tratado. E o primeiro passo, muitas vezes, é encontrar coragem para dizer: “eu preciso de ajuda”.

Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR

Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder. Acesso em: 26 abr. 2026.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248/chapter/recommendations.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Gambling. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/gambling.

Jogo patológico é falta de caráter ou problema de saúde mental?

Jogo patológico é falta de caráter ou um problema de saúde mental?

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  • O jogo patológico, também chamado de transtorno do jogo ou Ludopaia, não deve ser reduzido a falta de caráter, fraqueza moral ou simples irresponsabilidade.

  • A ludopatia envolve perda de controle, tentativas frustradas de parar, mentiras, prejuízos financeiros e sofrimento emocional.

  • Compreender o transtorno não significa retirar responsabilidade da pessoa, mas criar condições reais para tratamento, limite e reparação.

  • A família pode ter papel fundamental na recuperação, especialmente quando recebe orientação psicológica para apoiar sem sustentar o ciclo das apostas.

Jogo patológico é falta de caráter ou um problema de saúde mental?

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Quando uma família descobre que alguém está envolvido com apostas, dívidas, mentiras e perdas financeiras, uma das primeiras reações costuma ser a indignação. É comum surgirem frases como: “Como ele teve coragem?”, “Por que não parou antes?”, “Isso é falta de vergonha”, “É falta de caráter”, “Jogou porque quis”. São muitas a reações diante de um verdadeiro buraco que se abre no meio da sala de casa. Por ele, escorrem sonhos, planos, sentimentos e confiança.

Essas reações são compreensíveis. A família, muitas vezes, está ferida, assustada e cansada. Em alguns casos, descobre que contas foram atrasadas, cartões foram usados escondidos, empréstimos foram feitos sem conversa ou que valores importantes simplesmente desapareceram. Quando a confiança é quebrada, a dor não é apenas financeira; é emocional.

Mas, do ponto de vista clínico, é importante fazer uma distinção fundamental: o transtorno do jogo não é simplesmente falta de caráter. Também não deve ser tratado apenas como “fraqueza moral” ou “irresponsabilidade”. A ludopatia é um problema de saúde mental reconhecido em classificações diagnósticas, marcado por perda de controle, continuidade do comportamento apesar dos prejuízos e sofrimento significativo.

Isso não significa passar a mão na cabeça ou negar as consequências. Pelo contrário. Compreender o transtorno é justamente o que permite sair do ciclo de acusação, promessa, recaída e nova crise. É a partir dessa compreensão que a família, o paciente e os profissionais de saúde podem construir um caminho mais firme, consciente e realista de recuperação.

Por que a família costuma enxergar como falta de caráter?

A família geralmente não vê o início silencioso do problema. O que ela vê é o estrago: a dívida, a mentira, o sumiço do dinheiro, o comportamento defensivo, a irritabilidade, a promessa não cumprida. Por isso, é natural que a primeira interpretação seja moral. Um sábado de tarde, a família comendo pipoca e assistindo a um filme na tv, tudo parece normal. Mas no sofá ao lado o pai de família está torrando os últimos centavos de sua conta. O jogo não tem cheiro, não deixa os olhos perdidos, não precisa ir na boca de fumo buscar algo para jogar. Está tudo ali, na palma das mãos pelo celular.

Quando alguém mente sobre dinheiro, vende objetos, faz empréstimos escondidos ou usa recursos da casa para apostar, a família sente que houve uma escolha consciente contra o vínculo familiar. A dor é real. A quebra de confiança também.

No entanto, no transtorno do jogo, a pessoa pode estar presa a um ciclo de impulso, vergonha, tentativa de recuperar perdas e novas apostas. Ela sabe que está fazendo mal, mas sente dificuldade intensa de interromper o comportamento. Muitas vezes, joga não apenas para ganhar, mas para tentar “consertar” o prejuízo anterior, aliviar ansiedade, fugir de sentimentos difíceis ou recuperar uma sensação momentânea de controle.

A família enxerga a mentira. Na terapia, o Psicólogo irá ajudar a investigar o ciclo que levou à mentira.

O que caracteriza o transtorno do jogo?

O transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, envolve uma relação persistente e problemática com apostas, mesmo quando elas já estão causando prejuízos importantes. Não se trata apenas de apostar eventualmente ou perder dinheiro em uma situação isolada.

Alguns sinais merecem atenção:

  • pensar constantemente em apostas, resultados ou perdas anteriores;
  • apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma excitação;
  • tentar parar ou reduzir e não conseguir;
  • ficar irritado, ansioso ou inquieto quando tenta interromper o jogo;
  • apostar para aliviar tristeza, culpa, estresse ou sensação de vazio;
  • tentar recuperar perdas com novas apostas;
  • mentir para familiares sobre tempo ou dinheiro gasto;
  • prejudicar relacionamento, trabalho, estudo ou vida financeira;
  • depender de outras pessoas para obter dinheiro ou cobrir dívidas causadas pelo jogo.

Na prática, o transtorno do jogo costuma aparecer como uma sequência: a pessoa aposta, perde, sente culpa, tenta recuperar, perde de novo, esconde, promete parar, volta a apostar e entra em nova crise. O problema não está apenas no ato de jogar, mas na dificuldade de sair desse circuito.

Não é falta de caráter, mas também não é ausência de responsabilidade

Um cuidado importante é não transformar a explicação clínica em desculpa. Dizer que a ludopatia é um problema de saúde mental não significa afirmar que a pessoa não tem responsabilidade. Significa reconhecer que a responsabilidade precisa ser trabalhada dentro de um plano de tratamento.

A pessoa que sofre com transtorno do jogo precisa assumir o impacto de suas escolhas, reparar danos quando possível, reorganizar a vida financeira, aceitar limites e participar ativamente do tratamento. Ao mesmo tempo, ela precisa ser compreendida como alguém que pode estar adoecido, não apenas como alguém “sem caráter”.

Compreender não é justificar. Acolher não é permitir. Tratar não é apagar consequências.

Essa distinção muda tudo. Quando a família fica apenas na acusação, a pessoa pode se esconder ainda mais. Quando a família apenas protege e paga dívidas, pode sustentar o ciclo. O caminho mais saudável exige uma combinação de apoio, limite, tratamento e responsabilidade. Tudo isso é possível a partir da orientação de um Psicólogo. Receber informações de qualidade, entender como calibrar a mão contra o jogo e, principalmente, atuar ativamente no resgate do ente querido.

A vergonha como combustível do problema

A vergonha é uma das emoções mais presentes no transtorno do jogo. A pessoa sente vergonha de ter perdido dinheiro, de ter mentido, de ter decepcionado a família e de não conseguir parar. Muitas vezes, essa vergonha não leva à mudança imediata. Pelo contrário: ela pode levar ao isolamento e a novas apostas, uma tentativa de “resolver tudo”.

O pensamento pode ser mais ou menos assim: “Se eu conseguir ganhar agora, recupero o dinheiro e ninguém precisa saber”. Essa tentativa de apagar o erro com uma nova aposta é uma das armadilhas mais perigosas da ludopatia.

Por isso, humilhação, xingamentos e exposição pública raramente ajudam. Eles podem até parecer uma forma de “dar um choque de realidade”, mas muitas vezes aumentam a vergonha, a defensividade e o segredo. A conversa precisa ser firme, mas precisa preservar algum espaço de diálogo.

O papel fundamental da família na recuperação

A família pode ser uma das partes mais importantes no processo de recuperação. Não porque ela deva controlar tudo, fiscalizar cada passo ou assumir a responsabilidade pelo tratamento, mas porque ela pode ajudar a construir uma rede de apoio firme e consciente.

A intervenção da família precisa ser estruturada, caso contrário toma um corpo de tribunal, de inquisição. A ideia é justamente o contrário, jogar luz ao problema do jogo e deixar claro que todos estão dispostos a correr atrás de uma solução.

Quando bem orientada, a família pode ajudar a pessoa a sair do isolamento, reconhecer o problema, buscar tratamento, organizar limites financeiros e enfrentar as consequências de forma mais estruturada. Em muitos casos, é o familiar que percebe os sinais antes, faz a primeira conversa e ajuda a pessoa a aceitar que precisa de ajuda.

Mas a família também precisa tomar cuidado para não se transformar, sem perceber, em parte do ciclo. Isso acontece quando paga dívidas repetidamente sem nenhum plano, empresta dinheiro sem limite, encobre comportamentos, acredita em promessas vagas ou assume toda a responsabilidade que deveria ser compartilhada com o paciente. Esse tipo de atuação acaba por reforçar o comportamento disfuncional da pessoa com problema de jogo.

A família não deve ser caixa eletrônico, polícia ou plateia do sofrimento. Ela precisa ser rede de apoio com limite, clareza e orientação.

Apoiar não é sustentar o ciclo

Um dos maiores desafios familiares é entender a diferença entre ajudar e alimentar o problema. Ajudar não significa pagar toda dívida imediatamente, liberar acesso irrestrito ao dinheiro ou aceitar novas promessas sem mudança concreta.

Apoiar pode significar:

  • acompanhar a pessoa na busca por tratamento. Auxiliar a encontrar um Psicólogo que atenda casos de ludopatia / transtorno do jogo;
  • participar de orientações familiares quando indicado;
  • ajudar a mapear dívidas e riscos financeiros;
  • combinar limites claros sobre dinheiro, cartão, Pix e empréstimos;
  • evitar humilhação, exposição e ameaças vazias;
  • não pagar novas dívidas sem plano de cuidado e proteção;
  • proteger crianças e adolescentes da tensão e dos efeitos do problema;
  • observar sinais de depressão, desesperança ou risco de autoagressão.

Em alguns casos, pode ser necessário que a família ajude a restringir temporariamente o acesso da pessoa a recursos financeiros. Isso não deve ser feito como punição, mas como medida de proteção dentro de um plano combinado e, preferencialmente, orientado pelo Psicólogo.

O papel do Psicólogo na orientação familiar

O Psicólogo tem um papel importante não apenas no atendimento da pessoa com problema com jogo, mas também na orientação da família. Muitas vezes, os familiares chegam confusos, com raiva, medo, culpa e sem saber como agir. Alguns querem controlar tudo. Outros querem desistir. Outros, ainda, seguem tentando resolver financeiramente aquilo que precisa ser tratado clinicamente.

A orientação psicológica familiar ajuda a construir uma linha de apoio mais forte e consciente. Esse trabalho pode incluir:

  • psicoeducação sobre ludopatia e transtorno do jogo;
  • identificação de sinais de recaída e comportamentos de risco;
  • organização de limites financeiros e familiares;
  • orientação sobre como conversar sem humilhar e sem ceder demais;
  • apoio para lidar com raiva, frustração, medo e quebra de confiança;
  • construção de um plano de prevenção de recaídas;
  • encaminhamento para avaliação médica ou psiquiátrica quando necessário;
  • fortalecimento da rede de apoio e da corresponsabilidade no cuidado.

Esse ponto é essencial: a família precisa aprender a ajudar sem adoecer junto. O tratamento não pode depender apenas da vigilância familiar, mas a família também não precisa permanecer sozinha, perdida entre a raiva e a culpa.

Uma linha forte e consciente de apoio

A recuperação exige uma linha de apoio que seja, ao mesmo tempo, humana e firme. Humana, porque a pessoa que sofre com ludopatia muitas vezes está tomada por vergonha, ansiedade, medo e desorganização. Firme, porque o transtorno do jogo se alimenta de brechas, impulsos e promessas sem sustentação.

Uma linha familiar forte pode funcionar com alguns princípios:

  • clareza: todos precisam entender qual é o problema e quais são os riscos;
  • limite: dinheiro, acesso a crédito e novas dívidas precisam ser tratados com objetividade;
  • consistência: a família precisa evitar ameaças que não serão cumpridas e acordos que mudam a cada crise;
  • acolhimento: a pessoa precisa encontrar espaço para falar sem ser destruída pela vergonha;
  • responsabilidade: o paciente precisa participar do tratamento e assumir consequências reais;
  • proteção: a família precisa proteger o orçamento, os filhos, os vínculos e a própria saúde emocional.

Esse tipo de apoio não se constrói apenas com boa intenção. Ele exige orientação, conversas difíceis e decisões práticas. Muitas famílias precisam aprender a sair do ciclo de crise e entrar em uma lógica de tratamento.

E quando a pessoa não aceita ajuda?

Nem sempre a pessoa reconhece o problema no primeiro momento. Algumas minimizam perdas, culpam o azar, dizem que estão “quase recuperando”, prometem parar depois da próxima aposta ou afirmam que a família está exagerando.

Nesses casos, a família não precisa esperar passivamente. Mesmo que a pessoa ainda não aceite tratamento, os familiares podem buscar orientação psicológica para entender como agir, quais limites estabelecer, como se proteger financeiramente e como conversar de forma mais estratégica.

A mudança de postura da família pode ser um ponto de virada. Quando familiares deixam de apenas reagir emocionalmente e passam a agir com clareza, o ciclo pode começar a perder força.

Quando o risco exige atenção imediata

O transtorno do jogo pode estar associado a sofrimento intenso, depressão, ansiedade, uso de álcool ou outras drogas, endividamento grave e pensamentos de morte. Por isso, qualquer fala sobre suicídio, desesperança extrema ou impossibilidade de continuar vivendo deve ser tratada com seriedade.

Nessas situações, a família deve acionar ajuda imediata. No Brasil, em situações de risco, é possível procurar uma emergência, UPA, hospital, SAMU pelo 192 ou o Centro de Valorização da Vida – CVV pelo 188. A psicoterapia é importante, mas crises agudas exigem proteção imediata e rede de cuidado.

Considerações finais

Chamar o jogo patológico de falta de caráter pode até expressar a dor da família, mas não ajuda a compreender o problema em sua profundidade. A ludopatia é um quadro complexo, que envolve comportamento, emoção, impulso, vergonha, perdas financeiras, vínculos familiares e sofrimento psíquico.

Ao mesmo tempo, compreender a ludopatia como problema de saúde mental não significa retirar responsabilidade da pessoa. O tratamento precisa incluir compromisso, limites, reparação possível, reorganização financeira e mudanças concretas de comportamento.

A família tem papel fundamental nesse processo. Quando orientada, ela pode deixar de ser apenas espectadora da crise e passar a compor uma rede de apoio firme, consciente e protetiva. O psicólogo pode ajudar nessa construção, oferecendo escuta, psicoeducação, orientação familiar e estratégias para prevenção de recaídas.

Se o jogo passou a gerar dívida, mentira, sofrimento, conflitos ou perda de controle, talvez seja o momento de buscar ajuda. O caminho da recuperação não começa com julgamento. Começa com reconhecimento, responsabilidade e cuidado.

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Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
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Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is Gambling Disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Gambling. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/gambling.

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