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Copa do Mundo e apostas: por que precisamos dar cartão vermelho ao vício em jogos de azar

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  • Durante a Copa do Mundo, o futebol mobiliza alegria, torcida e emoção, mas também pode aumentar a exposição às apostas esportivas.

  • Para quem já teve problemas com jogo, uma aposta pequena pode funcionar como gatilho e reacender o ciclo da compulsão.

  • As bets não oferecem apenas palpites esportivos: muitas plataformas também funcionam como porta de entrada para cassinos online, roletas, slots e jogos de azar.

  • Família, amigos e pessoas próximas precisam estar atentos para não expor a pessoa vulnerável a convites, brincadeiras ou “dicas” de apostas.

Copa do Mundo e apostas: por que precisamos dar cartão vermelho ao vício em jogos de azar

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

A Copa do Mundo é um dos momentos mais aguardados do calendário esportivo. Para muitas pessoas, o futebol é encontro, memória, torcida, brincadeira, conversa de família, rivalidade saudável e alegria compartilhada. É o esporte mais querido do mundo ocupando as telas, as ruas, os bares, as casas e as conversas do dia a dia.

Mas, nos últimos anos, esse cenário ganhou uma nova camada de atenção: a presença intensa das apostas esportivas. Durante grandes eventos, como a Copa do Mundo, a exposição às bets tende a aumentar. Anúncios, influenciadores, grupos de amigos, palpites, odds, bônus e promessas de ganho rápido aparecem com muita força justamente em um período em que a emoção está mais alta.

Para a maior parte dos torcedores, o futebol deve continuar sendo aquilo que sempre foi: um espaço de diversão, pertencimento e celebração. Porém, para pessoas com histórico de ludopatia, compulsão por apostas ou vulnerabilidade ao jogo, esse período pode representar um risco real.

Nesta Copa, o futebol deve ser palco de alegria. Para o vício em apostas e jogos de azar, precisamos dar o cartão vermelho!

Quando a paixão pelo futebol encontra o risco das apostas

O futebol mexe com emoção. Um jogo importante pode aumentar ansiedade, expectativa, euforia, frustração e desejo de participar da experiência coletiva. É justamente nesse ambiente emocional que as apostas esportivas encontram terreno fértil.

A pessoa pode pensar: “é só uma aposta pequena”, “é só para deixar o jogo mais emocionante”, “eu entendo de futebol”, “dessa vez é diferente”. Esse tipo de pensamento pode parecer inofensivo, mas para quem já teve problemas com jogo, uma aposta pequena pode ser suficiente para reacender um ciclo muito maior.

Em muitos casos, a recaída não começa com uma grande dívida. Começa com uma exceção. Um palpite. Um Pix pequeno. Uma aposta “só para brincar”. Depois vem a vontade de apostar novamente, a tentativa de recuperar uma perda, o segredo, a culpa e, em alguns casos, o retorno ao padrão destrutivo.

A primeira aposta pode funcionar como gatilho

Para quem está em recuperação, a primeira aposta pode ter um efeito muito mais profundo do que parece. Ela não representa apenas o valor financeiro envolvido. Ela pode reabrir um caminho emocional, comportamental e cerebral que a pessoa vinha tentando interromper.

A lógica costuma seguir um padrão conhecido:

  • a pessoa aposta um valor pequeno;
  • sente excitação, expectativa ou alívio;
  • perde ou ganha e sente vontade de repetir;
  • aumenta a frequência ou o valor das apostas;
  • tenta recuperar perdas;
  • volta a esconder o comportamento;
  • reativa culpa, vergonha e conflitos familiares.

Por isso, quando falamos de ludopatia, a pergunta não é apenas “quanto a pessoa apostou?”. A pergunta mais importante é: o que essa aposta pode reativar?

Para quem tem histórico de transtorno do jogo, uma aposta pequena pode abrir novamente uma porta que custou muito para ser fechada.

As bets também são cassinos online

Um ponto importante precisa ser dito com clareza: muitas bets não oferecem apenas apostas esportivas. Em diversas plataformas, a pessoa entra para apostar em futebol, mas encontra também cassino online, roleta, blackjack, slots, jogos de colisão, jogos tipo “tigrinho” e outras modalidades de azar.

Isso aumenta muito o risco. A aposta esportiva já pode ser problemática, especialmente quando feita de forma impulsiva e repetida. Mas os jogos de cassino online costumam ter uma dinâmica ainda mais rápida: várias rodadas em poucos minutos, estímulos visuais intensos, sensação de quase ganho e possibilidade de repetir imediatamente.

A pessoa pode entrar na plataforma por causa de um jogo da seleção e, em poucos cliques, estar em outro ambiente de aposta. O futebol vira a porta de entrada. O cassino online mantém a pessoa dentro do ciclo.

Por isso, durante a Copa do Mundo, o cuidado não deve ser apenas com o palpite no resultado da partida. O cuidado precisa envolver todo o ambiente digital de apostas, especialmente quando há histórico de perda de controle.

O risco não está no futebol

É importante separar as coisas. O problema não é o futebol. O problema não é torcer, assistir aos jogos, vibrar com a Copa ou reunir amigos para acompanhar uma partida.

O risco está no apelo constante, na exposição intensa, na aposta repetida, na tentativa de recuperar perdas e na perda de controle. Para quem tem vulnerabilidade ao jogo, o período da Copa pode funcionar como uma sequência de gatilhos: propaganda, conversa de grupo, convites, links, promoções, comentários sobre odds e brincadeiras envolvendo dinheiro.

O futebol pode continuar sendo alegria. Mas, para isso, é preciso proteger quem já sofreu com apostas ou está tentando se recuperar.

O risco não está no futebol. Está na compulsão, no apelo constante e na perda de controle.

Família e amigos precisam estar atentos

Quando alguém tem histórico de problemas com jogo, a rede próxima precisa compreender que certas situações podem ser mais difíceis do que parecem. Família, amigos, colegas de trabalho e grupos sociais podem ajudar muito — ou, sem perceber, dificultar a recuperação.

Algumas atitudes simples fazem diferença:

  • não enviar links de casas de apostas;
  • não pedir “dicas” de onde apostar;
  • não brincar com a pessoa dizendo que “só uma apostinha não faz mal”;
  • não insistir para que ela participe de bolões com dinheiro;
  • não expor a pessoa a plataformas de apostas em momentos de fragilidade;
  • evitar transformar a abstinência em piada;
  • respeitar quando a pessoa disser que prefere não participar de conversas sobre apostas.

Muitas vezes, o meio social não tem intenção de prejudicar. A pessoa faz uma brincadeira, manda um link, pede uma opinião, comenta uma odd ou fala de uma promoção sem perceber que aquilo pode funcionar como gatilho.

Por isso, informação é fundamental. Quem convive com alguém em recuperação precisa entender que apoio também é evitar exposição desnecessária.

Evitar situações-limite também é cuidado

Durante a Copa, é comum que os jogos sejam acompanhados em bares, festas, reuniões de família e grupos de amigos. Esses ambientes podem ser saudáveis e divertidos. Mas, dependendo do contexto, também podem se tornar situações-limite para quem está em recuperação.

Se o grupo passa o jogo inteiro falando de apostas, mostrando ganhos, comparando palpites e incentivando apostas ao vivo, a pessoa vulnerável pode ficar em uma posição difícil. Ela pode sentir vergonha de dizer que não quer participar, medo de parecer fraca ou vontade de testar novamente o controle.

Nesses casos, evitar a exposição não é exagero. É estratégia de proteção. Assim como uma pessoa em recuperação do álcool pode evitar certos ambientes no início do tratamento, alguém com transtorno do jogo pode precisar evitar ambientes onde a aposta é o centro da interação.

Cuidar não é isolar a pessoa do mundo. É ajudá-la a escolher melhor onde, com quem e em quais condições estará durante momentos de maior risco.

Sinais de alerta durante a Copa

Alguns sinais podem indicar que a pessoa está voltando a se aproximar do ciclo do jogo:

  • voltar a acompanhar odds, palpites e sites de apostas;
  • instalar novamente aplicativos de bets;
  • falar repetidamente em “aposta pequena” ou “só para testar”;
  • ficar irritado quando alguém questiona o tema;
  • esconder o celular ou mudar de tela rapidamente;
  • pedir dinheiro emprestado sem explicação clara;
  • acompanhar jogos apenas por interesse financeiro;
  • tentar recuperar perdas com novas apostas;
  • voltar a mentir sobre tempo, dinheiro ou comportamento online.

O ideal é agir cedo. Não é preciso esperar uma grande dívida, uma crise familiar ou uma recaída grave para conversar e buscar ajuda.

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O que fazer para reduzir o risco?

Algumas medidas práticas podem ajudar durante a Copa:

  • evitar abrir contas em plataformas de apostas;
  • desinstalar aplicativos relacionados a bets e cassino online;
  • usar ferramentas de bloqueio, como bloqueadores de sites de apostas;
  • avaliar recursos de autoexclusão quando necessário;
  • combinar com familiares limites claros sobre dinheiro, Pix, cartão e crédito;
  • evitar grupos de mensagens focados em apostas;
  • avisar pessoas próximas que o tema é sensível;
  • participar de grupos de apoio, como Jogadores Anônimos;
  • buscar psicoterapia ou retomar acompanhamento se houver risco de recaída.

Essas medidas não substituem tratamento, mas criam barreiras importantes. Na ludopatia, reduzir acesso e exposição pode fazer diferença, especialmente em períodos de maior estímulo.

O papel da família no cuidado

A família tem um papel importante, mas precisa tomar cuidado para não se transformar em polícia, vigilante ou única responsável pela recuperação. Apoiar não é controlar tudo. Apoiar é criar um ambiente mais seguro, com limites claros e presença consciente.

Uma boa conversa pode começar assim:

“Eu sei que a Copa pode trazer muita exposição a apostas. Quero que a gente pense juntos em como passar por esse período com mais segurança, sem colocar seu tratamento em risco.”

Esse tipo de abordagem é diferente de acusar ou humilhar. Ela reconhece o risco, mas também oferece parceria. A pessoa precisa sentir que não está sozinha, ao mesmo tempo em que compreende que o cuidado exige responsabilidade.

A família também pode buscar orientação psicológica. Muitas vezes, os familiares não sabem como agir, quando falar, o que permitir, o que limitar e como ajudar sem sustentar o problema. A orientação profissional pode ajudar a organizar essas decisões.

Futebol sem aposta: recuperar a alegria do jogo

Para quem tem problemas com jogo, um desafio importante é recuperar a relação com o futebol sem transformar cada partida em risco financeiro. Isso pode levar tempo. Talvez, no início, seja necessário assistir a menos jogos, evitar determinados grupos ou escolher ambientes mais protegidos.

Mas o objetivo não é retirar o prazer da Copa. O objetivo é separar futebol de aposta. O esporte pode ser vivido como encontro, torcida, conversa e emoção — sem precisar passar pelo dinheiro, pela compulsão e pela tentativa de recuperar perdas.

A Copa pode ser uma oportunidade para lembrar que o futebol não pertence às bets. O futebol pertence às pessoas, às famílias, às histórias e à alegria coletiva.

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Quando buscar ajuda?

É importante buscar ajuda quando a pessoa percebe que não consegue se afastar das apostas, quando sente vontade intensa de jogar, quando volta a esconder comportamentos, quando usa dinheiro que não poderia usar ou quando a família percebe sinais de recaída.

A psicoterapia pode ajudar a identificar gatilhos, construir estratégias de prevenção de recaída, trabalhar vergonha, reorganizar rotina e envolver a família de forma mais consciente. Em alguns casos, também pode ser importante uma avaliação médica ou psiquiátrica, especialmente se houver ansiedade intensa, depressão, impulsividade, uso de álcool ou pensamentos de autoagressão.

Se houver fala sobre suicídio, desespero extremo ou risco imediato, procure ajuda emergencial: UPA, pronto atendimento, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188.

Considerações finais

A Copa do Mundo deve ser um momento de alegria, torcida e encontro. O futebol pode reunir famílias, amigos e histórias. Mas, para quem tem histórico de transtorno do jogo, o período também exige cuidado.

As bets não são apenas palpites esportivos. Muitas plataformas também funcionam como porta de entrada para cassinos online e outros jogos de azar. Para uma pessoa vulnerável, a primeira aposta pode deflagrar uma recaída e trazer de volta o ciclo destrutivo do vício em jogos.

Por isso, amigos, familiares e pessoas próximas precisam estar atentos. Não pedir dicas de apostas, não enviar links, não insistir em bolões com dinheiro e não expor a pessoa a situações-limite são formas concretas de apoio.

Nesta Copa, que o futebol seja vivido como futebol: alegria, esporte, encontro e celebração. Para o vício em apostas e jogos de azar, o recado precisa ser claro: cartão vermelho.

Leia também: Bets no esporte: quando a paixão pelo futebol se mistura com o risco das apostas

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR

Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf.

Palestra: “Do Clique ao Vício: o perigo silencioso das apostas online” – UniBrasil – Material de apoio

Biblioteca de apoio: ludopatia, apostas online e saúde mental

Material complementar da palestra “Do clique ao vício: o perigo silencioso das apostas on-line”

No dia 30 de abril de 2026, participei da palestra “Do clique ao vício: o perigo silencioso das apostas on-line”, realizada na UniBrasil, ao lado da psicóloga Greicy Pais. O encontro teve como objetivo ampliar o diálogo sobre ludopatia, apostas esportivas, jogos online, impactos familiares e os desafios clínicos que surgem diante desse fenômeno cada vez mais presente na vida de muitas pessoas.

Este espaço foi organizado como uma biblioteca de apoio para estudantes, profissionais, familiares e demais interessados no tema. Aqui você encontrará artigos, documentos oficiais, diretrizes clínicas, estudos científicos e links úteis para compreender melhor o transtorno do jogo, suas consequências emocionais, familiares, financeiras e sociais, além de possibilidades de tratamento e encaminhamento.

A proposta não é esgotar o assunto, mas oferecer um ponto de partida confiável para quem deseja estudar, orientar melhor uma família, reconhecer sinais de alerta ou encaminhar alguém que esteja sofrendo com apostas online, bets, cassino virtual, Jogo do Tigrinho ou outras formas de jogo problemático.

O transtorno do jogo não deve ser reduzido a falta de caráter ou fraqueza moral. Trata-se de um problema que pode envolver perda de controle, sofrimento psíquico, endividamento, vergonha, conflitos familiares e necessidade de cuidado especializado.

Se você participou da palestra e chegou até aqui pelo QR Code exibido ao final do encontro, seja bem-vindo. Use este material como apoio para aprofundar seus estudos, revisitar os temas discutidos e encontrar caminhos de orientação, prevenção e cuidado.

1. Artigos do site sobre ludopatia e apostas online

Abaixo estão artigos publicados no site Leonardo Fd Araujo | Psicologia, com linguagem acessível e foco clínico, familiar e psicoeducativo.

2. Documentos oficiais do Ministério da Saúde — Brasil

Os documentos abaixo ajudam a compreender como o tema dos jogos de apostas vem sendo tratado no campo da saúde pública brasileira, especialmente no âmbito da saúde mental, da Rede de Atenção Psicossocial e das ações intersetoriais.

3. Diretrizes e documentos técnicos internacionais

4. Estudos sobre psicoterapia e tratamento psicológico

5. Estudos sobre naltrexona e tratamento medicamentoso

Os links abaixo são estudos e revisões sobre o uso de naltrexona e outros recursos farmacológicos no transtorno do jogo. O uso de medicação deve sempre ser avaliado por profissional médico, preferencialmente em articulação com psicoterapia e acompanhamento familiar.

6. Grupos de apoio e recursos práticos

Grupos de apoio podem ser um complemento importante ao tratamento. Eles não substituem psicoterapia ou avaliação médica quando necessária, mas podem oferecer identificação, compromisso, rede e suporte em momentos difíceis.

7. Contexto brasileiro, regulação e reportagens

8. Escalas, instrumentos de rastreio e avaliação

As escalas e instrumentos abaixo podem ser úteis para rastreio, triagem, pesquisa, atenção ambulatorial e serviços públicos de saúde. No entanto, é importante lembrar que uma escala não substitui avaliação clínica, entrevista psicológica, investigação do contexto familiar, análise do funcionamento emocional e, quando necessário, avaliação médica ou psiquiátrica.

Esses instrumentos ajudam a organizar sinais, estimar gravidade, acompanhar evolução e orientar encaminhamentos, mas seus resultados devem ser interpretados com cuidado. Em geral, são mais indicados como ferramentas complementares, especialmente em contextos de saúde pública, serviços de triagem, ambulatórios, estudos científicos e acompanhamento de casos.

Escalas ajudam a rastrear sinais de risco, mas não devem ser usadas isoladamente para “fechar diagnóstico” ou substituir o olhar clínico.

Para estudantes e profissionais, essas escalas podem ser excelentes portas de entrada para compreender o fenômeno. Ainda assim, o uso responsável exige formação, interpretação cuidadosa e articulação com uma avaliação clínica mais ampla. No transtorno do jogo, a pontuação em uma escala deve ser lida junto da história da pessoa, do impacto financeiro, do sofrimento emocional, da presença de comorbidades, do risco de autoagressão e da dinâmica familiar.

Encaminhamentos e contato profissional

Caso você seja estudante, profissional da saúde, advogado, familiar ou alguém que esteja acompanhando uma pessoa com problemas relacionados ao jogo, este material também pode servir como ponte para novas conversas, encaminhamentos e construção de rede de apoio.

Atuo na clínica em casos que envolvam ludopatia e realizo orientação familiar voltada a esses casos. Na área judicial e extrajudicial, trabalho na avaliação e elaboração de documentos psicológicos quando há demanda relacionada ao transtorno do jogo. Elaboração de laudos, pareceres técnicos e assistência técnica psicológica relacionados a ludopatia.

Contato profissional

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia presencial e online | Palestras

Atendimento em casos de Ludopatia
Orientação familiar em Ludopatia

Elaboração de documentos para demandas judiciais

Site: psicologoemcuritiba.com.br
WhatsApp: 41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Descobri que meu marido aposta escondido: o que fazer?

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  • Descobrir que um familiar aposta ou joga escondido pode gerar choque, raiva, medo, confusão e sensação de traição emocional e financeira.

  • A primeira conversa precisa ser firme, mas não humilhante: o objetivo é entender a gravidade do problema e iniciar uma busca real por ajuda.

  • Pagar dívidas repetidamente, sem plano de tratamento e limites financeiros, pode manter o ciclo da dependência em vez de interrompê-lo.

  • A orientação familiar com um psicólogo pode ajudar a organizar uma linha de apoio mais consciente, protegendo a família e favorecendo o tratamento.

Descobri que meu marido aposta escondido: o que fazer?

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Era uma terça-feira chuvosa quando Ana encontrou a carta do banco. O envelope estava sobre a bancada da cozinha, misturado a contas de luz, propaganda de supermercado e correspondências que normalmente ninguém abria com pressa. Mas aquele papel parecia diferente. Havia um peso silencioso nele.

Ao abrir, Ana sentiu o corpo inteiro gelar. A carta comunicava a inscrição do nome de Jorge no Serasa e trazia um resumo de dívidas em aberto: dois empréstimos pessoais e um cartão de crédito estourado. Ela leu uma vez, leu de novo, tentou entender se havia algum erro. Mas os números estavam ali, organizados demais para serem engano. Eram os  dígitos mais pesados que já havia visto: 147.853,00 reais em dívidas.

Naquele instante, um filme começou a passar pela cabeça. A vida financeira da família sempre tinha parecido estável. Uma viagem por ano. O filho em escola particular. A casa própria, quitada havia quatro anos. Os dois com bons empregos. Ana, funcionária pública em regime híbrido. Jorge, administrador especializado em contratos de franquias, também trabalhando parte da semana em casa.

Nada parecia fora do lugar. Pelo menos, não até aquela carta.

Na manhã seguinte, Jorge ficaria em home office. Ana decidiu que seria a oportunidade de conversar. Sentou-se à mesa da cozinha com uma xícara de café nas mãos, trêmula, tentando encontrar coragem. Jorge apareceu ainda sonolento, abriu o notebook, comentou algo banal sobre a chuva e olhou para ela como se fosse mais uma manhã comum.

Com a voz embargada, Ana colocou a carta sobre a mesa.

“Jorge, eu preciso entender o que está acontecendo.”

Ele olhou para o papel, ficou pálido e não disse nada. Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da cozinha. Ana esperava uma explicação: um erro do banco, uma dívida antiga, alguma emergência que ele não tinha contado. Mas o que veio foi diferente.

Jorge começou a chorar. Disse que tinha começado com apostas pequenas, “só para testar”. Depois tentou recuperar o que perdeu. Em seguida escondeu. Depois fez um empréstimo. Mais outro. O cartão virou uma saída temporária. E, quando percebeu, já não sabia mais como contar.

Essa história é fictícia, mas talvez algo nela soe familiar. Talvez não tenha sido uma carta do banco. Talvez tenha sido uma notificação no celular, uma conversa interrompida, um extrato estranho, uma cobrança inesperada ou uma mentira que não fechava.

Se você descobriu que alguém da sua família joga escondido, este artigo é um convite para respirar, organizar os próximos passos e buscar ajuda com responsabilidade.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

O primeiro impacto: choque, raiva e confusão

Descobrir que um familiar está jogando escondido costuma gerar uma mistura intensa de emoções. Pode haver raiva, medo, decepção, vergonha, culpa e uma sensação profunda de traição. Muitas pessoas relatam que a dor não vem apenas da dívida, mas da mentira.

É comum que a família pense: “Como eu não percebi?”, “Por que ele não me contou?”, “Será que há mais dívidas?”, “Em quem eu posso confiar agora?”. Essas perguntas são compreensíveis. Quando o jogo se instala em segredo, a família perde a sensação de chão.

Por isso, o primeiro cuidado é não tentar resolver tudo no mesmo dia. A urgência é grande, mas decisões tomadas no auge do desespero podem piorar a situação: ameaças impossíveis de cumprir, exposição pública, pagamentos apressados, discussões agressivas ou acordos feitos sem clareza.

A vergonha e o segredo por trás da ludopatia

A vergonha é uma das emoções mais fortes em quem sofre com transtorno do jogo. Muitas vezes, a pessoa não esconde apenas porque quer manipular a família. Ela também esconde porque sente medo de ser descoberta, julgada, abandonada ou vista como alguém “sem caráter”.

Isso não significa que as mentiras não tenham consequências. Elas têm. A família tem o direito de se sentir ferida. Mas compreender o papel da vergonha ajuda a pensar em uma abordagem mais eficaz. Humilhação, xingamentos e exposição pública podem aumentar o silêncio e dificultar ainda mais a busca por ajuda.

Diretrizes internacionais sobre danos relacionados ao jogo reconhecem que vergonha, estigma e medo de revelar o problema podem impedir a pessoa de falar sobre o jogo e procurar apoio. Por isso, a conversa familiar precisa ser firme, mas também precisa abrir uma porta para tratamento.

A vergonha pode manter o problema escondido. A conversa certa pode começar a quebrar esse silêncio.

O que observar antes da primeira conversa?

Antes de confrontar o familiar, tente reunir informações básicas. Não se trata de investigar como um detetive ou invadir a intimidade de forma desorganizada, mas de evitar uma conversa baseada apenas em suspeitas vagas.

Alguns pontos podem ajudar:

  • quais dívidas já apareceram? Há alguma com agiotas?
  • há empréstimos, cartão de crédito, cheque especial ou Pix recorrentes para plataformas de apostas?
  • existem contas atrasadas ou compromissos familiares comprometidos?
  • a pessoa já mentiu anteriormente sobre dinheiro?
  • há sinais de ansiedade, irritabilidade, isolamento ou depressão?
  • há risco de autoagressão, desespero extremo ou falas sobre morte?

Se houver risco imediato à vida ou falas de desesperança, a prioridade não é discutir dívida. A prioridade é segurança. Nesses casos, procure ajuda emergencial, acione familiares próximos e busque atendimento em pronto atendimento, UPA, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Como iniciar a conversa?

A primeira conversa não precisa resolver tudo. Ela precisa abrir uma linha de realidade. O ideal é escolher um momento com privacidade, sem crianças presentes, sem plateia e sem interrupções. Evite iniciar a conversa no meio de uma briga ou logo depois de uma descoberta explosiva, quando todos estão sem condições emocionais de escutar.

Uma forma possível de começar é:

“Eu encontrei informações sobre dívidas e preciso entender o que está acontecendo. Eu estou muito abalada, mas quero que a gente converse com seriedade. O que está acontecendo com o jogo?”

Essa abordagem é diferente de começar com acusação direta, como: “Você acabou com a nossa vida” ou “Você é um irresponsável”. A raiva pode até ser legítima, mas, se ela ocupar todo o espaço, a pessoa pode entrar em negação, defesa ou fuga.

O objetivo da conversa é entender a gravidade do problema e iniciar encaminhamentos concretos: quais dívidas existem, há quanto tempo o jogo acontece, quais plataformas são usadas, se já houve tentativas de parar e se a pessoa aceita buscar ajuda.

Quem deve participar dessa conversa?

Nem toda a família precisa participar da primeira conversa. Em muitos casos, quanto mais pessoas envolvidas de forma desorganizada, maior o risco de exposição, vergonha e conflito. A intervenção familiar precisa ser pensada com cuidado.

Pode fazer sentido envolver:

  • o cônjuge ou companheiro diretamente afetado;
  • um pai ou uma mãe, quando a pessoa depende emocional ou financeiramente da família de origem;
  • um irmão ou irmã que tenha boa relação e maturidade para ajudar;
  • um amigo próximo, confiável e respeitoso;
  • um profissional de saúde mental, quando a situação já está muito grave ou conflituosa.

O critério não deve ser “quem está com mais raiva”, mas quem pode ajudar com firmeza, discrição e equilíbrio. A família precisa formar uma rede de apoio, não um tribunal.

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

Cuidado com o ciclo de remendar o problema

Um dos erros mais comuns é tentar resolver apenas a dívida. A família descobre o problema, se assusta, paga o cartão, negocia com o agiota, quita o empréstimo, cobre o cheque especial e espera que tudo volte ao normal. A pessoa promete que nunca mais vai jogar. Por algumas semanas, parece funcionar. Depois, uma nova dívida aparece.

Esse ciclo pode se repetir muitas vezes:

  • descoberta;
  • crise familiar;
  • promessa de parar;
  • pagamento ou renegociação da dívida;
  • alívio temporário;
  • nova recaída;
  • nova dívida;
  • nova crise.

Pagar uma dívida pode ser necessário em alguns casos, mas pagar sem plano pode manter o problema. A questão não é apenas “quanto ele deve?”, mas “o que será feito para o comportamento não continuar?”.

Quando a família só remenda a dívida, mas não enfrenta o transtorno, o ciclo tende a continuar.

Primeiros passos práticos para a família

Depois da descoberta, é importante transformar o choque em ação organizada. Isso não significa controlar a pessoa como se ela fosse incapaz de tudo, mas criar limites claros enquanto o tratamento começa.

Alguns passos iniciais podem ajudar:

  • Mapear a situação financeira: listar dívidas, credores, cartões, agiotas, empréstimos e contas atrasadas.
  • Evitar novos empréstimos sem plano: não transformar a família em fonte permanente de cobertura das perdas.
  • Proteger o orçamento básico: alimentação, moradia, saúde, escola, transporte e despesas essenciais precisam ser priorizados.
  • Reduzir acesso a meios de aposta: conversar sobre bloqueios, limites bancários, cartões e aplicativos.
  • Buscar ajuda especializada: procurar um psicólogo com experiência no tratamento de ludopatia, fazer uma avaliação médica quando necessário e participar de grupos de apoio (Jogadores Anônimos).
  • Registrar combinados: acordos verbais feitos no calor da crise tendem a se perder.
  • Observar risco emocional: vergonha intensa, desespero e fala suicida exigem atenção imediata.

O papel da orientação familiar com psicólogo

A orientação familiar é uma ferramenta muito importante quando existe transtorno do jogo. Muitas vezes, os familiares chegam ao consultório em sofrimento, sem saber se devem acolher, confrontar, perdoar, controlar, pagar dívidas ou se afastar.

O psicólogo que atua com esse tema pode ajudar a família a compreender o funcionamento da ludopatia, diferenciar ajuda de manutenção do problema e construir uma linha de apoio mais consciente. Isso inclui trabalhar limites financeiros, comunicação, prevenção de recaídas, sinais de risco e participação de pessoas-chave da rede de apoio.

A família também precisa de espaço para falar da própria dor. Quem convive com alguém em sofrimento por jogo pode desenvolver ansiedade, vigilância constante, medo de novas mentiras, raiva acumulada e exaustão emocional.

Nesse sentido, a orientação familiar não serve apenas para “ensinar a lidar com o jogador”. Serve também para proteger a família, organizar decisões e impedir que todos fiquem presos ao ciclo da crise. Inclusive encaminhar, quando necessário, o familiar para algum colega psicólogo, para que também cuide e trabalhe seu emocional. Sempre precisamos perguntar: quem vai cuidar de quem cuida?

Quando buscar avaliação médica?

Em alguns casos, além da psicoterapia, pode ser importante encaminhar a pessoa para avaliação médica ou psiquiátrica. Isso é especialmente relevante quando há depressão, ansiedade intensa, impulsividade importante, uso de álcool ou outras substâncias, insônia grave, risco de autoagressão ou recaídas frequentes.

O transtorno do jogo pode aparecer associado a outros quadros emocionais. Por isso, olhar apenas para a dívida pode ser insuficiente. O tratamento precisa considerar a pessoa como um todo: comportamento, emoções, vínculos, rotina, saúde mental e contexto familiar.

E se ele ou ela negar o problema?

A negação é comum. A pessoa pode dizer que está tudo sob controle, que foi apenas uma fase, que está quase recuperando o dinheiro, que a família está exagerando ou que não precisa de tratamento.

Nesses casos, a família não precisa entrar em disputa para “vencer” a conversa. Pode ser mais útil voltar aos fatos:

  • “Há uma dívida concreta.”
  • “Houve mentira ou omissão.”
  • “O orçamento familiar foi afetado.”
  • “Nós precisamos de ajuda para lidar com isso.”
  • “Não vamos continuar pagando ou encobrindo sem tratamento.”

Mesmo que a pessoa ainda não aceite ajuda, os familiares podem buscar orientação de um psicólogo que tenha experiência no tratamento de ludopatia. A mudança de postura da família pode ser decisiva para interromper o ciclo de promessas, pagamentos e recaídas.

O que não fazer

Algumas atitudes, embora compreensíveis, podem piorar o cenário:

  • expor a pessoa publicamente;
  • envolver filhos pequenos na discussão;
  • pagar dívidas repetidamente sem plano de tratamento;
  • fazer ameaças que não serão cumpridas;
  • tratar o problema apenas como falta de caráter;
  • ignorar sinais de risco emocional;
  • acreditar que apenas “força de vontade” resolverá tudo;
  • tentar controlar tudo sozinha ou sozinho.

A família precisa de equilíbrio: não pode sustentar o jogo, mas também não precisa destruir a pessoa pela vergonha. O caminho mais saudável costuma estar na combinação entre acolhimento, limite e tratamento.

O primeiro passo pode ser informação de qualidade

Quando a família descobre o problema, é comum buscar respostas rápidas na internet. Isso pode ajudar, desde que as informações sejam confiáveis. Procure conteúdos de qualidade produzidos por profissionais de saúde, instituições reconhecidas e serviços especializados.

Também vale considerar grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, e espaços voltados aos familiares. Esses grupos podem ajudar a reduzir a sensação de isolamento e mostrar que outras famílias também enfrentam situações parecidas.

O mais importante é não permanecer sozinho na tentativa de resolver um problema complexo. O transtorno do jogo costuma exigir rede, orientação e consistência.

Considerações finais

Descobrir que um familiar aposta escondido pode ser uma experiência devastadora. Em poucos minutos, a família tenta reconstruir meses ou anos de sinais que talvez tenham passado despercebidos. A carta do banco, a dívida, o cartão estourado ou o empréstimo escondido não revelam apenas um problema financeiro. Revelam também um sofrimento que vinha sendo mantido em segredo.

Nesse momento, é natural sentir raiva, medo e decepção. Mas a pergunta mais importante passa a ser: o que fazer agora?

O primeiro passo é sair do improviso. Conversar com firmeza, mapear a situação, proteger o orçamento familiar, bens familiares, evitar o ciclo de apenas remendar dívidas e buscar ajuda especializada. A psicoterapia pode auxiliar tanto a pessoa que joga quanto os familiares, criando uma linha de apoio mais consciente, com limites reais e possibilidade de recuperação.

A ludopatia não deve ser reduzida a “frescura” ou falta de caráter. É um transtorno que pode ser tratado. Mas o tratamento precisa começar com reconhecimento, responsabilidade e ação concreta.

Se essa história se parece com algo que está acontecendo na sua casa, talvez este seja o momento de buscar ajuda. Descobrir que o marido aposta escondido ou algum outro familiar, um filho, amigo é uma situação delicada e que precisa de atendimento especializado. Ninguém precisa enfrentar isso sozinho!

Descobri que meu familiar joga escondido: o que fazer

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Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
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Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248/chapter/recommendations

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Como oferecer ajuda a um familiar com problemas com jogo

  • Artigo publicado em: 13 abril, 2026
  • Categorias:
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  • Ajudar um familiar com problemas com jogo exige escuta, firmeza e cuidado para não transformar a conversa em julgamento.

  • O primeiro passo é criar um espaço seguro para que a pessoa consiga falar sobre perdas, dívidas, vergonha e dificuldade de parar.

  • A família pode ajudar buscando informações de qualidade, pesquisando profissionais e oferecendo caminhos concretos de tratamento.

  • Uma rede inicial de apoio pode facilitar a aceitação da ajuda profissional e o início do tratamento da ludopatia.

Como oferecer ajuda a um familiar com problemas com jogo

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Descobrir que um familiar está com problemas relacionados a jogos de apostas pode trazer uma mistura de emoções: susto, raiva, medo, tristeza, dúvida e, muitas vezes, sensação de impotência. A família quer ajudar, mas nem sempre sabe como começar.

É comum que a primeira reação seja cobrar, pressionar ou tentar resolver a situação financeira rapidamente. Em alguns casos, isso pode até parecer necessário. Mas, quando existe perda de controle, dívidas, mentiras, vergonha e tentativas frustradas de parar, o problema precisa ser olhado com mais profundidade.

Ajudar um familiar com ludopatia não significa passar a mão na cabeça. Também não significa transformar a pessoa em inimiga. O caminho mais saudável costuma estar entre esses dois extremos: acolher com firmeza, oferecer apoio real e encaminhar para tratamento. Aqui neste artigo você encontra um roteiro, passo a passo, uma sugestão de como essa primeira conversa pode acontecer com o familiar que esteja com problemas com jogos de azar.

1. Escolha o momento certo para conversar

A primeira conversa é muito importante. Evite abordar o familiar no meio de uma briga, diante de outras pessoas ou em um momento de grande tensão. O ideal é escolher um momento com privacidade, sem pressa e sem exposição.

A conversa pode começar de forma simples e direta:

“Eu estou preocupado com você. Percebi que o jogo tem causado sofrimento e quero entender melhor o que está acontecendo. Não quero te humilhar, mas acho que precisamos buscar ajuda.”

Esse tipo de abordagem não nega a gravidade do problema, mas evita que a conversa comece como um ataque. Quando a pessoa se sente apenas acusada, pode se fechar, negar ou esconder ainda mais.

2. Ofereça escuta antes de oferecer solução

Muitas vezes, o familiar já está tomado por vergonha. Ele pode ter mentido, perdido dinheiro, ter pego dinheiro com agiotas, feito empréstimos, escondido apostas ou prometido parar sem conseguir. Por isso, antes de listar soluções, tente escutar.

Algumas perguntas podem ajudar:

  • há quanto tempo isso está acontecendo?
  • você sente que perdeu o controle?
  • já tentou parar sozinho?
  • existem dívidas ou riscos que a família precisa saber? (principalmente com agiotas)
  • você aceita conversar com um profissional?

Escutar não significa concordar com tudo. Significa abrir um espaço para que a verdade apareça. Sem esse espaço, a família pode continuar lidando apenas com pedaços do problema.

3. Evite transformar a ajuda em julgamento

Frases como “isso é falta de caráter”, “você acabou com tudo” ou “é só parar” podem parecer compreensíveis no calor da dor, mas raramente ajudam. Elas tendem a aumentar a vergonha e a resistência.

O transtorno do jogo não deve ser reduzido a fraqueza moral. A pessoa precisa assumir responsabilidade, sim. Mas também precisa de tratamento, orientação e limites concretos.

Uma postura mais útil é dizer:

“Eu não vou fingir que está tudo bem. Mas também não quero te destruir pela vergonha. Vamos procurar ajuda e organizar os próximos passos.”

4. Busque informações de qualidade

Antes de propor qualquer caminho, a família pode se informar melhor sobre ludopatia, transtorno do jogo, grupos de apoio e possibilidades de tratamento. Isso ajuda a diminuir o pânico e evita decisões impulsivas.

Procure materiais produzidos por profissionais de saúde, instituições reconhecidas e serviços especializados. Também pode ser útil pesquisar sobre grupos como Jogadores Anônimos, ferramentas de bloqueio de apostas e recursos de autoexclusão.

Quando a família entende melhor o problema, ela para de agir apenas no susto e começa a construir uma resposta mais organizada.

5. Pesquise profissionais e apresente caminhos concretos

Uma forma prática de ajudar é pesquisar profissionais que atuem no atendimento de casos de ludopatia, transtorno do jogo ou “vício em jogos de azar”. Pode procurar ainda por dependências comportamentais, saúde mental ou orientação familiar. Uma busca no Google ou mesmo no Chatgpt será bastante útil neste momento. É preciso entender que, muitas vezes, a pessoa que joga está tão envergonhada ou confusa que não consegue dar esse primeiro passo sozinha.

A família pode ajudar dizendo:

  • “Encontrei um psicólogo que atende casos de ludopatia.”
  • “Podemos marcar uma primeira conversa.”
  • “Eu posso ir com você ou participar de uma orientação familiar, se for indicado.”
  • “Não precisamos resolver tudo hoje, mas precisamos começar.”

O objetivo é transformar a ajuda em algo concreto. Em vez de apenas dizer “você precisa se tratar”, a família oferece um caminho possível.

6. Crie uma rede inicial de apoio

A família não precisa enfrentar tudo sozinha. Dependendo do caso, pode ser importante envolver uma ou duas pessoas de confiança: um irmão, pai, mãe, amigo próximo ou outro familiar que tenha equilíbrio para ajudar.

O cuidado aqui é não transformar a situação em exposição pública. A rede deve ser pequena, discreta e funcional. O objetivo não é constranger o familiar, mas criar apoio para que ele aceite ajuda e consiga sustentar o tratamento.

Essa rede pode ajudar a:

  • acompanhar o início do tratamento;
  • organizar limites financeiros;
  • reduzir acesso a apostas;
  • oferecer presença em momentos de crise;
  • ajudar a família a não agir apenas no desespero.

7. Ajude sem sustentar o ciclo

Ajudar não significa pagar dívidas repetidamente, liberar dinheiro sem controle ou acreditar em promessas vagas. Muitas famílias, tentando proteger quem amam, acabam alimentando o ciclo sem perceber.

Apoio verdadeiro envolve limite. Pode ser necessário conversar sobre cartões, empréstimos, Pix, acesso a aplicativos e proteção do orçamento familiar. Esses combinados devem ser feitos com cuidado, preferencialmente com orientação profissional.

A família pode ser apoio, mas não deve se transformar em caixa eletrônico, polícia ou única responsável pela recuperação.

Quando buscar ajuda com urgência?

Alguns sinais exigem atenção imediata: fala sobre morte, desespero intenso, ameaça de desaparecer, risco de autoagressão, uso abusivo de álcool ou outras substâncias, dívidas com risco de violência ou comportamento muito desorganizado.

Nesses casos, procure ajuda emergencial. Acione familiares próximos, serviços de saúde, UPA, pronto atendimento, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188.

Considerações finais

Oferecer ajuda a um familiar com problemas com jogo exige sensibilidade e firmeza. A família precisa acolher sem encobrir, orientar sem humilhar e apoiar sem sustentar o ciclo da dependência.

O primeiro passo pode ser uma conversa honesta. O segundo, buscar informação de qualidade. O terceiro, apresentar caminhos concretos: psicoterapia, orientação familiar, grupos de apoio e, quando necessário, avaliação médica.

Na prática clínica, é possível perceber que o tratamento tende a ganhar mais força quando a família deixa de agir apenas na crise e começa a construir uma rede inicial de apoio. O familiar que joga passa a se sentir menos sozinho, mas também mais responsável pelo próprio processo.

A ludopatia é um transtorno tratável. E, muitas vezes, o início da recuperação começa quando alguém da família consegue dizer, com firmeza e cuidado: “você não precisa enfrentar isso sozinho, mas precisamos buscar ajuda de verdade!”. Pode contar comigo nesse processo!

Leia também: Descobri que meu marido joga escondido: o que fazer?

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Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento e como funciona

Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo

Ler resumo do artigo ⮟
  • A naltrexona tem sido estudada como possível recurso auxiliar no tratamento da ludopatia, especialmente em casos com forte impulso para apostar.

  • O uso para transtorno do jogo ainda é considerado off-label (fora da bula) e deve ser sempre avaliado por médico, preferencialmente psiquiatra.

  • Estudos clínicos indicam resultados promissores em alguns pacientes, mas ainda não permitem tratar a medicação como solução isolada.

  • O tratamento da ludopatia envolve psicoterapia, orientação familiar, prevenção de recaídas, limites financeiros e, em alguns casos, suporte medicamentoso.

Naltrexona e ludopatia: o que os estudos mostram sobre o tratamento para o transtorno do jogo

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Quando se fala em tratamento da ludopatia, uma das perguntas mais frequentes é direta: existe algum medicamento que ajude a parar de jogar?

A resposta exige cuidado. Não existe uma “cura rápida” em forma de medicação. O transtorno do jogo é um fenômeno complexo, que envolve comportamento, emoção, impulsividade, contexto de vida, prejuízos financeiros e dinâmica familiar. No entanto, nos últimos anos, alguns estudos vêm investigando o uso de medicamentos como a naltrexona como possível recurso auxiliar no tratamento.

Este artigo tem como objetivo esclarecer, de forma responsável e acessível, o que se sabe até o momento sobre essa abordagem, seus limites e seu lugar dentro de um tratamento mais amplo.

O que é a naltrexona?

A naltrexona é uma medicação conhecida principalmente pelo seu uso no tratamento de dependência de álcool e opioides. De forma simplificada, ela atua em sistemas do cérebro relacionados à recompensa, ao prazer, motivação e ao reforço comportamental.

Esse mecanismo despertou o interesse de pesquisadores: se o transtorno do jogo compartilha características com outros comportamentos aditivos como impulsividade, busca por recompensa, fissura e dificuldade de controle, será que a naltrexona poderia ajudar também nesses casos?

A partir dessa hipótese, começaram a surgir estudos investigando seu uso no tratamento do jogo patológico, hoje mais frequentemente chamado de transtorno do jogo ou ludopatia.

O que os estudos indicam até agora?

Os estudos sobre naltrexona no transtorno do jogo ainda não permitem afirmar que ela seja uma solução definitiva, mas apontam resultados relevantes em alguns grupos de pacientes. A principal hipótese é que, por atuar em sistemas cerebrais ligados à recompensa, ao prazer e ao impulso, a naltrexona possa ajudar a reduzir a fissura ou urgência de jogar.

Um dos estudos clássicos foi publicado por Kim, Grant, Adson e Shin, em 2001, em um ensaio duplo-cego comparando naltrexona e placebo no tratamento do jogo patológico. Os autores observaram redução dos sintomas no grupo tratado com naltrexona, embora tenham destacado a necessidade de cautela e de novos estudos para confirmação dos achados.

Em 2008, Grant, Kim e Hartman publicaram outro estudo duplo-cego, placebo-controlado, avaliando a naltrexona em adultos com jogo patológico e forte urgência para apostar. O estudo também encontrou resultados favoráveis, especialmente na redução dos impulsos relacionados ao jogo.

Por outro lado, nem todos os estudos encontraram benefícios tão consistentes. Toneatto, Brands e Selby, em 2009, avaliaram a naltrexona em pessoas com jogo patológico associado ao abuso ou dependência de álcool, e os resultados não demonstraram superioridade clara da medicação em relação ao placebo nesse contexto específico.

Outro estudo, publicado por Kovanen e colaboradores em 2016, avaliou o uso de naltrexona “conforme a necessidade” em pessoas com jogo patológico que também recebiam suporte psicossocial. Os autores concluíram que essa forma de uso não trouxe benefício adicional substancial para o grupo como um todo, embora tenham apontado possibilidades de resposta em subgrupos específicos.

Mais recentemente, uma revisão sistemática com meta-análise em rede publicada por Ioannidis e colaboradores, em 2025, indicou que naltrexona e nalmefeno estão entre as opções farmacológicas com evidência mais favorável para o transtorno do jogo, embora os autores também tenham destacado limitações importantes, como tolerabilidade, tamanho dos estudos e necessidade de pesquisas mais robustas.

A naltrexona pode ser promissora como recurso adjuvante, mas não deve ser apresentada como “remédio para parar de jogar” ou como substituta da psicoterapia.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento

O que dizem as diretrizes clínicas?

As diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence (NICE – Reino Unido), publicadas em 2025, recomendam considerar a naltrexona para reduzir a gravidade do jogo quando a psicoterapia não alcançou os resultados esperados após um curso adequado de tratamento, ou quando a pessoa apresenta recaídas repetidas apesar de ter recebido intervenção psicológica apropriada. Ou seja, um caso refratário ao tratamento psicoterápico ou mesmo mais resistente.

A própria diretriz destaca que, em janeiro de 2025, esse era um uso off-label da naltrexona. Isso significa que a medicação não deve ser usada de forma banalizada ou sem avaliação médica. O início do tratamento deve ocorrer sob responsabilidade de profissional médico qualificado e experiente, preferencialmente em articulação com uma abordagem psicológica e familiar.

O que significa uso off-label?

Uso off-label significa que uma medicação está sendo utilizada para uma finalidade diferente daquela para a qual foi originalmente aprovada pelas autoridades regulatórias, que o uso não está descrito na bula. Isso não quer dizer, necessariamente, que o uso seja inadequado. Significa que ele exige critério clínico, avaliação individualizada, acompanhamento médico e consentimento informado.

No caso da ludopatia, a decisão de utilizar naltrexona deve ser tomada por um médico, geralmente psiquiatra, considerando:

  • histórico clínico do paciente;
  • intensidade do comportamento de jogo;
  • presença de outras condições de saúde mental;
  • uso de álcool, opioides ou outras substâncias;
  • uso de outras medicações;
  • condições hepáticas e demais aspectos de saúde geral;
  • risco de recaídas e gravidade dos prejuízos causados pelo jogo.

Esse cuidado é fundamental porque a medicação pode ter contraindicações, interações e efeitos adversos. Além disso, cada paciente apresenta uma história diferente. O que pode fazer sentido em um caso pode não ser indicado em outro.

A naltrexona não substitui a psicoterapia

Mesmo quando indicada, a naltrexona deve ser compreendida como recurso auxiliar. Ela pode ajudar alguns pacientes a reduzirem a fissura e a urgência de jogar, mas não reorganiza, sozinha, a vida emocional, financeira e familiar da pessoa. Essa mesma dinâmica de recurso auxiliar é vista em outros transtornos, como por exemplo a depressão e a ansiedade, sendo indicado o tratamento multidisciplinar, envolvendo o trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.

A medicação não substitui o trabalho de compreender gatilhos, reconstruir rotina, lidar com vergonha, assumir responsabilidades, reparar danos possíveis e desenvolver estratégias de prevenção de recaídas.

Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa. E ainda oferecer informações e orientações de qualidade aos familiares, tendo o profissional de psicologia como um aliado nesse processo.

A medicação pode reduzir o impulso, mas a recuperação exige mudança de comportamento, reorganização da vida e reconstrução de vínculos.

A importância da psicoterapia

Por isso, no tratamento da ludopatia, a psicoterapia continua sendo uma das bases mais importantes. É no processo terapêutico que a pessoa pode compreender por que joga, em quais momentos perde o controle e como construir uma nova relação com impulso, frustração, dinheiro e recompensa.

Estudos apontam que intervenções psicológicas estruturadas, especialmente abordagens cognitivas e comportamentais, apresentam resultados consistentes na redução do comportamento de jogo e na prevenção de recaídas. Uma revisão sistemática conduzida por Cowlishaw e colaboradores (2012), publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews, encontrou evidências de que a psicoterapia pode reduzir significativamente a frequência e a intensidade das apostas em pessoas com transtorno do jogo.

Além disso, o acompanhamento psicológico permite trabalhar aspectos que a medicação não alcança: padrões de pensamento distorcidos, impulsividade, regulação emocional, vergonha, culpa e reconstrução de sentido fora do jogo.

Outro ponto fundamental é o trabalho com a família. A psicoterapia também pode oferecer orientação aos familiares, ajudando-os a compreender o transtorno, estabelecer limites saudáveis e construir uma rede de apoio mais consciente. Nesse contexto, o profissional de psicologia se torna um aliado importante não apenas do paciente, mas de todo o sistema familiar envolvido.

A medicação pode ajudar a reduzir o impulso, mas é na psicoterapia que a pessoa aprende a sustentar a mudança.

O papel da psicoterapia no tratamento da ludopatia

A psicoterapia ajuda o paciente a reconhecer o ciclo do jogo. Muitas vezes, esse ciclo envolve ansiedade, tensão, aposta, perda, culpa, tentativa de recuperar, nova perda, segredo e promessa de parar. Sem compreender esse funcionamento, a pessoa pode repetir o mesmo padrão diversas vezes.

O trabalho terapêutico pode envolver:

  • identificação de gatilhos emocionais;
  • manejo da impulsividade;
  • prevenção de recaídas;
  • reconstrução da rotina;
  • trabalho com vergonha, culpa e negação;
  • reorganização da relação com dinheiro;
  • fortalecimento da rede de apoio;
  • desenvolvimento de estratégias para lidar com fissura e urgência de apostar.

Em alguns casos, a psicoterapia também ajuda o paciente a lidar com questões associadas, como ansiedade, depressão, baixa autoestima, solidão, conflitos conjugais, estresse no trabalho ou uso de álcool e outras substâncias.

Família, limites e corresponsabilidade

A família pode ter papel fundamental no tratamento da ludopatia, especialmente quando recebe orientação adequada. Muitas vezes, os familiares estão confusos, com raiva, medo ou culpa, sem saber se devem acolher, confrontar, pagar dívidas ou impor limites.

A orientação familiar pode ajudar a construir uma linha de apoio mais consciente. A família não deve ser transformada em polícia, mas também não pode sustentar o ciclo do jogo com empréstimos repetidos, pagamento de dívidas sem plano ou promessas vazias de mudança.

Algumas medidas podem ser discutidas em conjunto:

  • estabelecimento de limites financeiros claros;
  • proteção do orçamento familiar;
  • restrição temporária de acesso a crédito, cartões ou grandes valores, quando necessário;
  • acompanhamento de sinais de recaída;
  • apoio emocional sem humilhação;
  • participação em sessões de orientação familiar;
  • encaminhamento para avaliação psiquiátrica quando indicado;
  • construção de um plano de prevenção de recaídas.

Quando paciente, família, psicólogo e médico atuam de forma integrada, o tratamento tende a ganhar mais consistência. A recuperação não depende apenas de força de vontade; ela precisa de estrutura.

Quando considerar avaliação psiquiátrica?

A avaliação psiquiátrica pode ser importante quando o comportamento de jogo está associado a impulsividade intensa, recaídas frequentes, depressão, ansiedade significativa, uso de álcool ou outras substâncias, ideação suicida ou dificuldade persistente de controle mesmo com acompanhamento psicológico. Esses pontos reforçam, ainda mais, a importância da participação dos familiares. Observando e dando feedbacks ao psicólogo sobre como anda o dia a dia em casa.

Nesses casos, o psiquiatra poderá avaliar se há indicação de medicação, incluindo ou não a naltrexona, além de considerar outros diagnósticos e condições associadas. O objetivo não é apenas “dar remédio”, mas compreender o quadro de forma ampla e segura.

É importante reforçar: psicólogos não prescrevem medicamentos. O papel do psicólogo é avaliar, acompanhar, orientar, trabalhar aspectos emocionais e comportamentais, e, quando necessário, encaminhar para avaliação médica.

Cuidados importantes sobre medicação

Todo tratamento medicamentoso precisa ser individualizado. A naltrexona não deve ser iniciada por conta própria, compartilhada entre familiares ou utilizada com base em vídeos, fóruns ou relatos de internet.

Também é importante que o paciente informe ao médico sobre uso de álcool, opioides, analgésicos, outras medicações, histórico de doenças hepáticas e qualquer condição clínica relevante. O acompanhamento profissional permite avaliar benefícios, riscos, efeitos adversos e necessidade de ajustes.

No campo da ludopatia, a medicação pode ser uma ferramenta. Mas a ferramenta precisa estar dentro de um plano. Sem mudança de comportamento, reorganização financeira, apoio familiar e prevenção de recaídas, o risco de retorno ao padrão anterior permanece elevado.

Naltrexona e ludopatia: o que se sabe o possível tratamento e como funciona

Considerações finais

O avanço dos estudos sobre o uso da naltrexona na ludopatia abre possibilidades importantes, mas também exige cautela. Como vimos, a medicação pode ajudar alguns pacientes, especialmente na redução da fissura e da urgência de apostar, mas não deve ser tratada como solução isolada. Aqui reforço o papel do tratamento multidisciplinar, unindo do trabalho do psicólogo e do médico psiquiatra.

Na prática clínica, no dia a dia do consultório, é possível observar alguns sinais que merecem atenção. Em pacientes que estão em acompanhamento psiquiátrico e utilizando a naltrexona como parte do tratamento, mesmo considerando uma amostra pequena e sem o rigor de estudos controlados, percebe-se empiricamente uma tendência a um desenrolar mais estável do quadro.

Em alguns casos, nota-se maior aderência ao tratamento, participação mais consistente dos familiares e uma sensação de maior segurança no dia a dia, especialmente em relação ao controle dos impulsos. Essa percepção clínica não substitui evidência científica, mas dialoga com os resultados encontrados em estudos que apontam a medicação como um possível recurso adjuvante no manejo do transtorno do jogo.

Ainda assim, é fundamental reforçar mais uma vez: o tratamento da ludopatia é multifatorial. Ele envolve psicoterapia, responsabilidade, limites, reorganização financeira, prevenção de recaídas, participação em grupos de apoio (jogadores anônimos), orientação familiar e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso.

A medicação pode facilitar o caminho, mas é o conjunto do tratamento que sustenta a mudança.

Se o jogo passou a ocupar espaço excessivo na sua vida ou na sua família, buscar ajuda pode ser o primeiro passo para retomar o controle. O caminho não é imediato, mas é possível quando existe acompanhamento adequado, rede de apoio e um plano realista de recuperação.

Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?

Sobre o autor

Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br

Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
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41 9.9643-9560
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Bigorrilho, Curitiba – PR

Fontes

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COWLISHAW, Sean et al. Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23076947/

KIM, Suck Won; GRANT, Jon E.; ADSON, Daniel E.; SHIN, Young Chul. Double-blind naltrexone and placebo comparison study in the treatment of pathological gambling. Biological Psychiatry, v. 49, n. 11, p. 914-921, 2001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11377409/

TONEATTO, Tony; BRANDS, Bruna; SELBY, Peter. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of naltrexone in the treatment of concurrent alcohol use disorder and pathological gambling. The American Journal on Addictions, v. 18, n. 3, p. 219-225, 2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19340640/

KOVANEN, Leena et al. A randomised, double-blind, placebo-controlled trial of as-needed naltrexone in the treatment of pathological gambling. European Addiction Research, v. 22, n. 2, p. 70-79, 2016. Disponível em: https://karger.com/ear/article/22/2/70/119448/A-Randomised-Double-Blind-Placebo-Controlled-Trial

IOANNIDIS, Konstantinos et al. Pharmacological management of gambling disorder: a systematic review and network meta-analysis. Comprehensive Psychiatry, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39675219/

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