Artigos marcados com a categoria: Ludopatia
Jogadores Anônimos – você não precisa enfrentar isso sozinho
- Artigo publicado em: 9 fevereiro, 2026
- Categorias:
Ler resumo do artigo ⮟
-
Os grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, são uma ferramenta importante no tratamento da ludopatia, oferecendo acolhimento e identificação entre os participantes.
-
Hoje, além dos encontros presenciais espalhados pelo Brasil, existem grupos online com reuniões em diversos horários, facilitando o acesso.
-
Esses espaços também contam com reuniões para familiares, ajudando a construir uma rede de apoio mais consciente e estruturada.
-
A participação em grupos não substitui a psicoterapia, mas pode enriquecer o tratamento e fortalecer o compromisso com a recuperação.
Grupos de apoio e ludopatia: por que você não precisa enfrentar isso sozinho
Tempo estimado de leitura: 7 minutos
Uma das características mais marcantes do transtorno do jogo é o isolamento. A pessoa joga escondido, perde em silêncio, tenta recuperar sem contar a ninguém e, muitas vezes, carrega uma sensação intensa de vergonha.
Esse isolamento pode fazer com que o problema pareça ainda maior — como se fosse algo único, pessoal e difícil de ser compreendido por outras pessoas. É nesse ponto que os grupos de apoio se tornam um recurso extremamente valioso.
Participar de um grupo como o Jogadores Anônimos pode ser um primeiro passo importante para quebrar esse isolamento e perceber algo fundamental: você não está sozinho.
O que são os grupos de apoio?
Os grupos de apoio são espaços onde pessoas que enfrentam o mesmo tipo de dificuldade se reúnem para compartilhar experiências, desafios e estratégias de enfrentamento. No caso da ludopatia, os grupos de Jogadores Anônimos seguem um modelo inspirado nos 12 passos, com foco em acolhimento, responsabilidade e recuperação.
Não se trata de julgamento, nem de exposição forçada. Cada participante fala se quiser, no seu tempo. O mais importante é o ambiente: um espaço seguro, onde as pessoas se reconhecem umas nas outras.
O grupo oferece algo que muitas vezes falta fora dele: escuta sem julgamento e identificação real.
Presencial ou online: hoje o acesso é muito maior
Uma das grandes vantagens atuais é que o acesso aos grupos ficou muito mais fácil. Existem reuniões presenciais espalhadas por diversas cidades do Brasil. Uma busca simples no Google por “Jogadores Anônimos + sua cidade” já pode indicar opções próximas.
Além disso, os grupos online têm crescido de forma significativa. Hoje é possível encontrar reuniões em diferentes horários ao longo do dia,m inclusive à noite e aos finais de semana.
Isso facilita muito o acesso, especialmente para quem:
- tem dificuldade de deslocamento;
- prefere mais anonimato no início;
- possui rotina de trabalho variável;
- está começando a reconhecer o problema.
Outro ponto importante é que muitos desses espaços também oferecem grupos para familiares, o que pode ser extremamente útil. Famílias que participam desses encontros tendem a compreender melhor o transtorno e a construir formas mais saudáveis de apoio.
O que a ciência diz sobre grupos de apoio?
Embora os grupos de apoio não sejam, por si só, uma intervenção clínica estruturada como a psicoterapia, estudos indicam que eles podem desempenhar um papel importante no tratamento do transtorno do jogo.
Pesquisas como a de Petry (2005) mostram que a participação em programas como Jogadores Anônimos pode contribuir para a redução do comportamento de jogo, especialmente quando combinada com tratamento psicológico.
Outros estudos apontam que fatores como suporte social, identificação com o grupo e compromisso com a abstinência podem aumentar a adesão ao tratamento e reduzir recaídas.
Em termos simples: o grupo não substitui a psicoterapia, mas pode potencializar seus efeitos.
Por que o grupo funciona?
Existem alguns elementos que fazem dos grupos de apoio uma ferramenta tão potente:
- Identificação: ouvir histórias semelhantes reduz o sentimento de isolamento;
- Compromisso: a presença regular cria uma rotina de cuidado;
- Responsabilidade: o grupo ajuda a manter o foco na recuperação;
- Rede de apoio: possibilidade de contato com outras pessoas em momentos difíceis;
- Estrutura: encontros organizados, com regras e propósito claro;
- Acolhimento: sem julgamento, sem exposição obrigatória.
Um ponto muito importante é a figura do padrinho ou madrinha dentro do grupo. Trata-se de alguém com mais tempo de recuperação, que pode oferecer suporte mais próximo, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade.
O grupo não substitui o tratamento
É importante deixar claro: os grupos de apoio não substituem a psicoterapia. Eles são um complemento. Enquanto o grupo oferece identificação e suporte, a psicoterapia trabalha aspectos mais profundos, como impulsividade, emoções, história de vida, padrões de comportamento e prevenção de recaídas.
Quando esses dois caminhos caminham juntos — grupo e psicoterapia — o tratamento tende a ganhar mais consistência.
O grupo acolhe. A psicoterapia aprofunda. E juntos, ajudam a sustentar a mudança.
Um convite importante
Se você está enfrentando dificuldades com apostas, ou se alguém próximo está passando por isso, considere conhecer um grupo de apoio. Não é necessário “estar no fundo do poço” para participar. Muitas vezes, quanto mais cedo esse contato acontece, maiores são as chances de reorganização.
Uma simples busca no Google pode ser o primeiro passo. E, se for mais confortável, os grupos online estão disponíveis em diferentes horários, inclusive aos finais de semana.
Você não precisa passar por isso sozinho.
Considerações finais
Na prática clínica, a participação em grupos de apoio costuma trazer ganhos importantes para o tratamento. É possível perceber, em muitos pacientes, uma maior adesão ao processo, um senso mais claro de compromisso e uma diminuição da sensação de isolamento.
Algo que aparece com frequência é a frase: “não é só comigo”. Esse reconhecimento, por si só, já tem um efeito significativo. A pessoa deixa de se enxergar como alguém “fora do normal” ou “sem caráter” e passa a compreender o transtorno como algo que pode ser tratado.
Outro ponto relevante é o contato com experiências reais trazidas nas reuniões. Esses relatos muitas vezes chegam à psicoterapia e enriquecem o processo, tornando o trabalho mais concreto e conectado com o dia a dia do paciente.
A presença de um padrinho ou madrinha, a possibilidade de conversar em momentos críticos e a participação da família em grupos específicos também fortalecem a rede de apoio.
Quando o grupo, a psicoterapia e, quando necessário, o acompanhamento médico caminham juntos, o tratamento tende a ganhar mais consistência e segurança.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É um passo importante em direção à recuperação.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
💬 Uma mensagem importante:
Se você está lendo este artigo e se reconheceu em alguns pontos, considere participar de uma reunião de grupo de apoio ainda esta semana. Não é necessário esperar o “momento certo”. O primeiro passo pode ser apenas entrar e ouvir.
Links úteis e rede de apoio
- Jogadores Anônimos Brasil
https://jogadoresanonimos.com.br/ - Jogadores Anônimos — Reuniões presenciais
https://jogadoresanonimos.com.br/g-reunioes-presenciais/ - Jogadores Anônimos Online
https://www.grupojaonline.com.br/ - Gambling Therapy — Brazil
https://gamblingtherapy.org/?location=brazil
Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras
Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR
Fontes
PETRY, Nancy M. Pathological Gambling: Etiology, Comorbidity and Treatment. American Psychological Association, 2005.
COWLISHAW, Sean et al. Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database, 2012.
A vergonha de quem joga: o segredo por trás da ludopatia
- Artigo publicado em: 17 dezembro, 2025
- Categorias:
Ler resumo do artigo ⮟
-
A vergonha é uma das emoções mais presentes na ludopatia e pode manter o problema escondido por meses ou anos.
-
Muitas pessoas que jogam escondido não sofrem apenas pelas perdas financeiras, mas também pelo medo de decepcionar a família.
-
O segredo pode parecer uma tentativa de proteger a família, mas geralmente aumenta dívidas, mentiras e sofrimento emocional.
-
Falar sobre o problema, buscar psicoterapia e envolver a família com orientação adequada pode ser um passo decisivo no tratamento.
A vergonha de quem joga: o segredo por trás da ludopatia
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
Quem olha de fora costuma enxergar apenas a dívida, a mentira, o cartão estourado, o empréstimo escondido ou a promessa quebrada. E tudo isso realmente importa. A família sofre, a confiança é abalada e as consequências financeiras podem ser graves.
Mas, por trás de muitos casos de ludopatia, existe uma emoção silenciosa que ajuda a manter o problema escondido: a vergonha.
A pessoa que joga pode sentir vergonha de ter perdido dinheiro, vergonha de ter mentido, vergonha de ter decepcionado quem ama, vergonha de não conseguir parar e vergonha de precisar de ajuda. Em muitos casos, essa vergonha é tão intensa que a pessoa passa a esconder ainda mais. E, quanto mais esconde, maior o problema fica.
É assim que o transtorno do jogo pode se instalar no silêncio: uma aposta escondida, uma perda não contada, uma tentativa de recuperar, uma nova dívida, uma nova mentira e uma promessa íntima de que “agora eu vou resolver sozinho”.
A vergonha faz a pessoa acreditar que precisa esconder o problema. O tratamento começa quando ela encontra um espaço seguro para falar sobre ele.
Vergonha não é a mesma coisa que culpa
Culpa e vergonha são emoções parecidas, mas não são a mesma coisa. A culpa costuma estar ligada a algo que a pessoa fez: “eu errei”, “eu menti”, “eu perdi dinheiro”, “eu prejudiquei minha família”. Já a vergonha costuma atingir a identidade: “eu sou um fracasso”, “eu não presto”, “eu sou fraco”, “ninguém vai me respeitar se souber”.
Na ludopatia, essa diferença é muito importante. A culpa pode ajudar alguém a reconhecer danos e buscar reparação. A vergonha, quando se torna excessiva, pode paralisar. Em vez de aproximar a pessoa da ajuda, ela a empurra para o segredo.
A pessoa pode pensar: “Se eu contar, vou destruir minha família”; “Se descobrirem, vão me abandonar”; “Se eu ganhar de volta, não preciso contar”; “Se eu resolver sozinho, ninguém vai saber”. O problema é que essa tentativa de resolver sozinho frequentemente leva a novas apostas.
O segredo como tentativa de controle
Muitas pessoas não começam escondendo tudo. No início, pode ser apenas uma pequena omissão: um valor menor do que o real, uma aposta não comentada, uma perda tratada como algo sem importância. Aos poucos, o segredo cresce.
Quando a dívida aumenta, a pessoa pode tentar recuperar o prejuízo antes que alguém descubra. Esse é um ponto muito delicado. O jogo passa a ser visto como o próprio caminho para apagar o estrago causado pelo jogo.
Esse ciclo pode seguir uma lógica parecida:
- aposta escondida;
- perda financeira;
- vergonha e medo de contar;
- nova aposta para tentar recuperar;
- nova perda;
- mentira ou omissão;
- aumento da dívida;
- mais vergonha e mais segredo.
O segredo parece proteger, mas geralmente aprisiona. Ele impede que a família perceba o problema cedo, dificulta o acesso a tratamento e aumenta o risco de decisões impulsivas.
Por que é tão difícil contar para a família?
Contar para a família significa enfrentar uma realidade que a pessoa tentou evitar por muito tempo. Significa assumir perdas, revelar mentiras, admitir fragilidade e encarar o impacto nos vínculos.
Para muitos pacientes, o medo não é apenas financeiro. É afetivo. A pessoa teme perder respeito, amor, casamento, confiança, autoridade diante dos filhos ou lugar dentro da família.
Diretrizes clínicas sobre danos relacionados ao jogo reconhecem que o estigma, a vergonha e o medo de revelar o problema podem impedir a pessoa de falar sobre o jogo e buscar tratamento. Isso ajuda a entender por que tantos casos só chegam à família quando a dívida já ficou grande ou quando alguma cobrança externa aparece.
Muitas vezes, a família descobre tarde não porque o problema era pequeno, mas porque a vergonha o manteve escondido.
Vergonha pode atrasar o tratamento
A vergonha não aparece apenas antes da descoberta. Ela também pode atrapalhar depois. Mesmo quando a família já sabe, a pessoa pode evitar falar sobre detalhes importantes: valores reais, plataformas usadas, empréstimos, recaídas, pensamentos de desespero ou tentativas anteriores de parar.
Isso pode prejudicar o tratamento, porque o psicólogo, o médico e a família precisam de uma noção mais clara da gravidade do quadro. Sem informações reais, cria-se um tratamento em cima de uma versão parcial do problema.
Por isso, uma parte importante do processo terapêutico é construir um ambiente em que a verdade possa aparecer sem que isso se transforme em destruição. A verdade pode doer, mas ela também organiza. O segredo, ao contrário, costuma prolongar o sofrimento.
Jogo patológico não é falta de caráter
Um dos maiores obstáculos para pedir ajuda é o medo de ser visto como alguém sem caráter. A pessoa sabe que mentiu, sabe que causou prejuízo e sabe que feriu a confiança da família. Mas reduzir tudo a uma falha moral pode impedir a compreensão clínica do problema.
O transtorno do jogo envolve um padrão persistente de apostas apesar de prejuízos importantes. A pessoa pode continuar jogando mesmo quando percebe danos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. Isso não retira sua responsabilidade, mas mostra que o problema precisa ser tratado com mais profundidade.
A frase central aqui é: não é falta de caráter, mas também não é ausência de responsabilidade. A pessoa precisa se responsabilizar pelas consequências, mas também precisa de tratamento, suporte e limites reais.
Quando tudo vira julgamento moral, a pessoa se esconde. Quando tudo vira desculpa, o problema continua. O tratamento precisa encontrar outro caminho.
Como começar a falar sobre o problema?
Não existe uma forma perfeita de contar para a família. Mas existe uma forma mais responsável: com verdade, disposição para assumir consequências e abertura para ajuda.
Alguns pontos podem orientar essa conversa:
- escolha um momento de privacidade e sem pressa;
- não conte apenas uma parte pequena se o problema é maior;
- evite promessas vagas como “nunca mais vou fazer isso”;
- apresente fatos: dívidas, tempo de jogo, tentativas de parar e riscos atuais;
- reconheça o impacto causado na família;
- diga que precisa de ajuda profissional;
- aceite limites financeiros e combinados de proteção;
- procure psicoterapia e, se necessário, avaliação médica.
A conversa pode ser difícil, mas ela pode interromper um ciclo muito mais perigoso. Quando o problema sai do segredo, ele pode finalmente entrar no campo do cuidado.
E como a família pode reagir?
Para a família, ouvir essa revelação pode ser devastador. É natural sentir raiva, medo e decepção. Ninguém precisa fingir tranquilidade diante de uma situação grave. Mas a forma como a família reage pode influenciar bastante os próximos passos.
Algumas atitudes ajudam mais:
- escutar antes de tomar decisões definitivas;
- pedir informações concretas sobre dívidas e riscos;
- evitar humilhação pública;
- não envolver crianças na discussão;
- não pagar dívidas sem plano de tratamento;
- buscar orientação psicológica familiar;
- estabelecer limites financeiros claros;
- observar sinais de depressão, desespero ou risco de autoagressão.
A família não precisa escolher entre destruir a pessoa ou proteger o problema. Existe um caminho mais saudável: acolher sem acobertar, limitar sem humilhar e buscar ajuda sem esperar que tudo se resolva apenas com promessa.
O papel do psicólogo diante da vergonha
A psicoterapia oferece um espaço onde a vergonha pode ser trabalhada com cuidado. Muitas vezes, antes de reorganizar dívidas ou construir estratégias de prevenção de recaída, a pessoa precisa conseguir falar. Falar sobre o que fez, o que perdeu, o que escondeu e o que teme perder.
O psicólogo pode ajudar o paciente a compreender o ciclo do jogo, identificar gatilhos emocionais, lidar com impulsividade e construir formas mais honestas de relação com a família. Também pode ajudar a diferenciar responsabilidade de autodestruição.
Assumir responsabilidade não é se esmagar pela culpa. É reconhecer o dano, aceitar ajuda, construir limites e participar ativamente do tratamento.
Além disso, a orientação familiar pode ser decisiva. O psicólogo pode auxiliar os familiares a compreenderem o transtorno, organizarem limites, evitarem o ciclo de apenas remendar dívidas e criarem uma linha de apoio mais firme e consciente.
Quando a vergonha vira risco
Em alguns casos, a vergonha pode vir acompanhada de desespero intenso. A pessoa pode sentir que perdeu tudo, que não há saída, que decepcionou todos ao redor ou que a vida não tem mais solução.
Qualquer fala sobre morte, suicídio, desaparecimento, vontade de dormir e não acordar, ou sensação de que “seria melhor não estar aqui” deve ser levada a sério. Nesses momentos, a prioridade é proteção imediata.
Procure ajuda emergencial, acione familiares próximos, busque uma UPA, pronto atendimento, hospital, SAMU pelo 192 ou CVV pelo 188. A psicoterapia é fundamental, mas situações de risco exigem cuidado imediato e rede de proteção.
O segredo termina quando existe rede
A recuperação da ludopatia raramente acontece apenas pela força de vontade individual. É comum que o tratamento envolva psicoterapia, orientação familiar, grupos de apoio, reorganização financeira, bloqueios de acesso, avaliação médica quando necessário e prevenção de recaídas.
Grupos como Jogadores Anônimos também podem ajudar muitas pessoas a quebrar o isolamento. Ouvir outras histórias permite que o paciente perceba algo importante: “não é só comigo”. Essa identificação pode diminuir a vergonha e aumentar o compromisso com o tratamento.
Para os familiares, grupos de apoio e orientação profissional também podem trazer alívio. A família começa a compreender que não está sozinha, que o problema é tratável e que ajudar não significa pagar tudo, encobrir tudo ou aceitar tudo.
Considerações finais
A vergonha é uma das faces mais dolorosas da ludopatia. Ela faz a pessoa se esconder, mentir, adiar conversas importantes e tentar resolver sozinha um problema que costuma crescer justamente no segredo.
Mas a vergonha não precisa ser o ponto final da história. Quando existe espaço para falar, quando a família recebe orientação e quando o paciente aceita tratamento, o segredo começa a perder força.
Na prática clínica, é comum perceber que o tratamento ganha mais consistência quando o paciente consegue transformar vergonha em responsabilidade. Isso não acontece de uma hora para outra. Mas, quando acontece, algo importante muda: a pessoa deixa de lutar sozinha contra o problema e passa a construir um caminho de cuidado, limite e reconstrução.
A ludopatia não deve ser reduzida a “frescura” ou falta de caráter. É um transtorno que pode gerar sofrimento intenso, mas que também pode ser tratado. E o primeiro passo, muitas vezes, é encontrar coragem para dizer: “eu preciso de ajuda”.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras
Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR
Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder. Acesso em: 26 abr. 2026.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248/chapter/recommendations.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Gambling. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/gambling.
Jogo patológico é falta de caráter ou um problema de saúde mental?
- Artigo publicado em: 5 agosto, 2025
- Categorias:
Ler resumo do artigo ⮟
-
O jogo patológico, também chamado de transtorno do jogo ou Ludopaia, não deve ser reduzido a falta de caráter, fraqueza moral ou simples irresponsabilidade.
-
A ludopatia envolve perda de controle, tentativas frustradas de parar, mentiras, prejuízos financeiros e sofrimento emocional.
-
Compreender o transtorno não significa retirar responsabilidade da pessoa, mas criar condições reais para tratamento, limite e reparação.
-
A família pode ter papel fundamental na recuperação, especialmente quando recebe orientação psicológica para apoiar sem sustentar o ciclo das apostas.
Jogo patológico é falta de caráter ou um problema de saúde mental?
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
Quando uma família descobre que alguém está envolvido com apostas, dívidas, mentiras e perdas financeiras, uma das primeiras reações costuma ser a indignação. É comum surgirem frases como: “Como ele teve coragem?”, “Por que não parou antes?”, “Isso é falta de vergonha”, “É falta de caráter”, “Jogou porque quis”. São muitas a reações diante de um verdadeiro buraco que se abre no meio da sala de casa. Por ele, escorrem sonhos, planos, sentimentos e confiança.
Essas reações são compreensíveis. A família, muitas vezes, está ferida, assustada e cansada. Em alguns casos, descobre que contas foram atrasadas, cartões foram usados escondidos, empréstimos foram feitos sem conversa ou que valores importantes simplesmente desapareceram. Quando a confiança é quebrada, a dor não é apenas financeira; é emocional.
Mas, do ponto de vista clínico, é importante fazer uma distinção fundamental: o transtorno do jogo não é simplesmente falta de caráter. Também não deve ser tratado apenas como “fraqueza moral” ou “irresponsabilidade”. A ludopatia é um problema de saúde mental reconhecido em classificações diagnósticas, marcado por perda de controle, continuidade do comportamento apesar dos prejuízos e sofrimento significativo.
Isso não significa passar a mão na cabeça ou negar as consequências. Pelo contrário. Compreender o transtorno é justamente o que permite sair do ciclo de acusação, promessa, recaída e nova crise. É a partir dessa compreensão que a família, o paciente e os profissionais de saúde podem construir um caminho mais firme, consciente e realista de recuperação.
Por que a família costuma enxergar como falta de caráter?
A família geralmente não vê o início silencioso do problema. O que ela vê é o estrago: a dívida, a mentira, o sumiço do dinheiro, o comportamento defensivo, a irritabilidade, a promessa não cumprida. Por isso, é natural que a primeira interpretação seja moral. Um sábado de tarde, a família comendo pipoca e assistindo a um filme na tv, tudo parece normal. Mas no sofá ao lado o pai de família está torrando os últimos centavos de sua conta. O jogo não tem cheiro, não deixa os olhos perdidos, não precisa ir na boca de fumo buscar algo para jogar. Está tudo ali, na palma das mãos pelo celular.
Quando alguém mente sobre dinheiro, vende objetos, faz empréstimos escondidos ou usa recursos da casa para apostar, a família sente que houve uma escolha consciente contra o vínculo familiar. A dor é real. A quebra de confiança também.
No entanto, no transtorno do jogo, a pessoa pode estar presa a um ciclo de impulso, vergonha, tentativa de recuperar perdas e novas apostas. Ela sabe que está fazendo mal, mas sente dificuldade intensa de interromper o comportamento. Muitas vezes, joga não apenas para ganhar, mas para tentar “consertar” o prejuízo anterior, aliviar ansiedade, fugir de sentimentos difíceis ou recuperar uma sensação momentânea de controle.
A família enxerga a mentira. Na terapia, o Psicólogo irá ajudar a investigar o ciclo que levou à mentira.
O que caracteriza o transtorno do jogo?
O transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, envolve uma relação persistente e problemática com apostas, mesmo quando elas já estão causando prejuízos importantes. Não se trata apenas de apostar eventualmente ou perder dinheiro em uma situação isolada.
Alguns sinais merecem atenção:
- pensar constantemente em apostas, resultados ou perdas anteriores;
- apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma excitação;
- tentar parar ou reduzir e não conseguir;
- ficar irritado, ansioso ou inquieto quando tenta interromper o jogo;
- apostar para aliviar tristeza, culpa, estresse ou sensação de vazio;
- tentar recuperar perdas com novas apostas;
- mentir para familiares sobre tempo ou dinheiro gasto;
- prejudicar relacionamento, trabalho, estudo ou vida financeira;
- depender de outras pessoas para obter dinheiro ou cobrir dívidas causadas pelo jogo.
Na prática, o transtorno do jogo costuma aparecer como uma sequência: a pessoa aposta, perde, sente culpa, tenta recuperar, perde de novo, esconde, promete parar, volta a apostar e entra em nova crise. O problema não está apenas no ato de jogar, mas na dificuldade de sair desse circuito.
Não é falta de caráter, mas também não é ausência de responsabilidade
Um cuidado importante é não transformar a explicação clínica em desculpa. Dizer que a ludopatia é um problema de saúde mental não significa afirmar que a pessoa não tem responsabilidade. Significa reconhecer que a responsabilidade precisa ser trabalhada dentro de um plano de tratamento.
A pessoa que sofre com transtorno do jogo precisa assumir o impacto de suas escolhas, reparar danos quando possível, reorganizar a vida financeira, aceitar limites e participar ativamente do tratamento. Ao mesmo tempo, ela precisa ser compreendida como alguém que pode estar adoecido, não apenas como alguém “sem caráter”.
Compreender não é justificar. Acolher não é permitir. Tratar não é apagar consequências.
Essa distinção muda tudo. Quando a família fica apenas na acusação, a pessoa pode se esconder ainda mais. Quando a família apenas protege e paga dívidas, pode sustentar o ciclo. O caminho mais saudável exige uma combinação de apoio, limite, tratamento e responsabilidade. Tudo isso é possível a partir da orientação de um Psicólogo. Receber informações de qualidade, entender como calibrar a mão contra o jogo e, principalmente, atuar ativamente no resgate do ente querido.
A vergonha como combustível do problema
A vergonha é uma das emoções mais presentes no transtorno do jogo. A pessoa sente vergonha de ter perdido dinheiro, de ter mentido, de ter decepcionado a família e de não conseguir parar. Muitas vezes, essa vergonha não leva à mudança imediata. Pelo contrário: ela pode levar ao isolamento e a novas apostas, uma tentativa de “resolver tudo”.
O pensamento pode ser mais ou menos assim: “Se eu conseguir ganhar agora, recupero o dinheiro e ninguém precisa saber”. Essa tentativa de apagar o erro com uma nova aposta é uma das armadilhas mais perigosas da ludopatia.
Por isso, humilhação, xingamentos e exposição pública raramente ajudam. Eles podem até parecer uma forma de “dar um choque de realidade”, mas muitas vezes aumentam a vergonha, a defensividade e o segredo. A conversa precisa ser firme, mas precisa preservar algum espaço de diálogo.

O papel fundamental da família na recuperação
A família pode ser uma das partes mais importantes no processo de recuperação. Não porque ela deva controlar tudo, fiscalizar cada passo ou assumir a responsabilidade pelo tratamento, mas porque ela pode ajudar a construir uma rede de apoio firme e consciente.
A intervenção da família precisa ser estruturada, caso contrário toma um corpo de tribunal, de inquisição. A ideia é justamente o contrário, jogar luz ao problema do jogo e deixar claro que todos estão dispostos a correr atrás de uma solução.
Quando bem orientada, a família pode ajudar a pessoa a sair do isolamento, reconhecer o problema, buscar tratamento, organizar limites financeiros e enfrentar as consequências de forma mais estruturada. Em muitos casos, é o familiar que percebe os sinais antes, faz a primeira conversa e ajuda a pessoa a aceitar que precisa de ajuda.
Mas a família também precisa tomar cuidado para não se transformar, sem perceber, em parte do ciclo. Isso acontece quando paga dívidas repetidamente sem nenhum plano, empresta dinheiro sem limite, encobre comportamentos, acredita em promessas vagas ou assume toda a responsabilidade que deveria ser compartilhada com o paciente. Esse tipo de atuação acaba por reforçar o comportamento disfuncional da pessoa com problema de jogo.
A família não deve ser caixa eletrônico, polícia ou plateia do sofrimento. Ela precisa ser rede de apoio com limite, clareza e orientação.
Apoiar não é sustentar o ciclo
Um dos maiores desafios familiares é entender a diferença entre ajudar e alimentar o problema. Ajudar não significa pagar toda dívida imediatamente, liberar acesso irrestrito ao dinheiro ou aceitar novas promessas sem mudança concreta.
Apoiar pode significar:
- acompanhar a pessoa na busca por tratamento. Auxiliar a encontrar um Psicólogo que atenda casos de ludopatia / transtorno do jogo;
- participar de orientações familiares quando indicado;
- ajudar a mapear dívidas e riscos financeiros;
- combinar limites claros sobre dinheiro, cartão, Pix e empréstimos;
- evitar humilhação, exposição e ameaças vazias;
- não pagar novas dívidas sem plano de cuidado e proteção;
- proteger crianças e adolescentes da tensão e dos efeitos do problema;
- observar sinais de depressão, desesperança ou risco de autoagressão.
Em alguns casos, pode ser necessário que a família ajude a restringir temporariamente o acesso da pessoa a recursos financeiros. Isso não deve ser feito como punição, mas como medida de proteção dentro de um plano combinado e, preferencialmente, orientado pelo Psicólogo.
O papel do Psicólogo na orientação familiar
O Psicólogo tem um papel importante não apenas no atendimento da pessoa com problema com jogo, mas também na orientação da família. Muitas vezes, os familiares chegam confusos, com raiva, medo, culpa e sem saber como agir. Alguns querem controlar tudo. Outros querem desistir. Outros, ainda, seguem tentando resolver financeiramente aquilo que precisa ser tratado clinicamente.
A orientação psicológica familiar ajuda a construir uma linha de apoio mais forte e consciente. Esse trabalho pode incluir:
- psicoeducação sobre ludopatia e transtorno do jogo;
- identificação de sinais de recaída e comportamentos de risco;
- organização de limites financeiros e familiares;
- orientação sobre como conversar sem humilhar e sem ceder demais;
- apoio para lidar com raiva, frustração, medo e quebra de confiança;
- construção de um plano de prevenção de recaídas;
- encaminhamento para avaliação médica ou psiquiátrica quando necessário;
- fortalecimento da rede de apoio e da corresponsabilidade no cuidado.
Esse ponto é essencial: a família precisa aprender a ajudar sem adoecer junto. O tratamento não pode depender apenas da vigilância familiar, mas a família também não precisa permanecer sozinha, perdida entre a raiva e a culpa.
Uma linha forte e consciente de apoio
A recuperação exige uma linha de apoio que seja, ao mesmo tempo, humana e firme. Humana, porque a pessoa que sofre com ludopatia muitas vezes está tomada por vergonha, ansiedade, medo e desorganização. Firme, porque o transtorno do jogo se alimenta de brechas, impulsos e promessas sem sustentação.
Uma linha familiar forte pode funcionar com alguns princípios:
- clareza: todos precisam entender qual é o problema e quais são os riscos;
- limite: dinheiro, acesso a crédito e novas dívidas precisam ser tratados com objetividade;
- consistência: a família precisa evitar ameaças que não serão cumpridas e acordos que mudam a cada crise;
- acolhimento: a pessoa precisa encontrar espaço para falar sem ser destruída pela vergonha;
- responsabilidade: o paciente precisa participar do tratamento e assumir consequências reais;
- proteção: a família precisa proteger o orçamento, os filhos, os vínculos e a própria saúde emocional.
Esse tipo de apoio não se constrói apenas com boa intenção. Ele exige orientação, conversas difíceis e decisões práticas. Muitas famílias precisam aprender a sair do ciclo de crise e entrar em uma lógica de tratamento.
E quando a pessoa não aceita ajuda?
Nem sempre a pessoa reconhece o problema no primeiro momento. Algumas minimizam perdas, culpam o azar, dizem que estão “quase recuperando”, prometem parar depois da próxima aposta ou afirmam que a família está exagerando.
Nesses casos, a família não precisa esperar passivamente. Mesmo que a pessoa ainda não aceite tratamento, os familiares podem buscar orientação psicológica para entender como agir, quais limites estabelecer, como se proteger financeiramente e como conversar de forma mais estratégica.
A mudança de postura da família pode ser um ponto de virada. Quando familiares deixam de apenas reagir emocionalmente e passam a agir com clareza, o ciclo pode começar a perder força.
Quando o risco exige atenção imediata
O transtorno do jogo pode estar associado a sofrimento intenso, depressão, ansiedade, uso de álcool ou outras drogas, endividamento grave e pensamentos de morte. Por isso, qualquer fala sobre suicídio, desesperança extrema ou impossibilidade de continuar vivendo deve ser tratada com seriedade.
Nessas situações, a família deve acionar ajuda imediata. No Brasil, em situações de risco, é possível procurar uma emergência, UPA, hospital, SAMU pelo 192 ou o Centro de Valorização da Vida – CVV pelo 188. A psicoterapia é importante, mas crises agudas exigem proteção imediata e rede de cuidado.
Considerações finais
Chamar o jogo patológico de falta de caráter pode até expressar a dor da família, mas não ajuda a compreender o problema em sua profundidade. A ludopatia é um quadro complexo, que envolve comportamento, emoção, impulso, vergonha, perdas financeiras, vínculos familiares e sofrimento psíquico.
Ao mesmo tempo, compreender a ludopatia como problema de saúde mental não significa retirar responsabilidade da pessoa. O tratamento precisa incluir compromisso, limites, reparação possível, reorganização financeira e mudanças concretas de comportamento.
A família tem papel fundamental nesse processo. Quando orientada, ela pode deixar de ser apenas espectadora da crise e passar a compor uma rede de apoio firme, consciente e protetiva. O psicólogo pode ajudar nessa construção, oferecendo escuta, psicoeducação, orientação familiar e estratégias para prevenção de recaídas.
Se o jogo passou a gerar dívida, mentira, sofrimento, conflitos ou perda de controle, talvez seja o momento de buscar ajuda. O caminho da recuperação não começa com julgamento. Começa com reconhecimento, responsabilidade e cuidado.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras
Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR
Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is Gambling Disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Gambling. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/gambling.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Addictive behaviour. Geneva: WHO, s.d. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/addictive-behaviour.
Bets no esporte: quando a paixão pelo futebol se mistura com o risco das apostas
- Artigo publicado em: 22 abril, 2025
- Categorias:
Ler resumo do artigo ⮟
-
As bets se aproximaram intensamente do futebol brasileiro, aparecendo em camisas, transmissões, redes sociais, estádios e conteúdos esportivos.
-
O risco aumenta quando a paixão pelo esporte se mistura com apostas rápidas, impulsivas e frequentes durante os jogos.
-
Muitas plataformas não oferecem apenas apostas esportivas: elas também conduzem o usuário para cassinos online, roletas, slots, jogos tipo “tigrinho” e outras modalidades de azar.
-
Quando assistir futebol deixa de ser lazer e passa a depender de ganho financeiro, ansiedade e tentativa de recuperar perdas, é importante buscar ajuda.
Bets no esporte: quando a paixão pelo futebol se mistura com o risco das apostas
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
O futebol sempre foi mais do que um esporte no Brasil. Ele atravessa histórias familiares, memórias de infância, encontros entre amigos, rivalidades saudáveis, identidade regional e pertencimento. Para muita gente, torcer por um clube é quase uma forma de narrar a própria vida: há jogos que viram lembrança, gols que atravessam gerações e derrotas que parecem doer mais do que deveriam.
Nos últimos anos, porém, um novo elemento passou a ocupar esse cenário: as bets. As casas de apostas esportivas deixaram de aparecer apenas como sites isolados e passaram a integrar o cotidiano do torcedor. Estão nas camisas dos clubes, nos intervalos das transmissões, nos comerciais, nos influenciadores, nos programas esportivos, nas placas de estádio e nas conversas sobre futebol.
O problema não está em gostar de futebol. Nem em acompanhar estatísticas, palpites ou debates esportivos. O ponto de atenção surge quando a paixão pelo esporte começa a ser capturada por uma lógica de aposta constante, rápida e emocionalmente intensa. Em muitos casos, o torcedor deixa de assistir ao jogo apenas pelo prazer do esporte e passa a viver cada lance como uma possibilidade de ganho ou perda financeira.
E existe ainda uma segunda camada de risco: muitas plataformas que começam com a promessa de aposta esportiva também oferecem cassinos online, roletas, jogos de cartas, slots, jogos de colisão, “tigrinho” e outras modalidades de azar. Assim, a pessoa que entra para apostar em um jogo de futebol pode ser conduzida, dentro do mesmo ambiente digital, para formas de jogo ainda mais rápidas, repetitivas e difíceis de controlar. As casas sabem, muito bem, como oferecer bônus ou apresentar as novidades.
Quando a aposta entra no campo da paixão
O esporte mobiliza emoção. O torcedor vibra, sofre, espera, se frustra, comemora e se identifica com o time. Esse envolvimento afetivo é justamente o que torna a mistura entre futebol e apostas tão delicada. A pessoa não está apostando apenas em números frios; muitas vezes, ela aposta em algo que já ocupa um lugar importante na sua vida emocional.
Quando a aposta se associa ao futebol, ela ganha uma espécie de verniz de familiaridade. O apostador pode pensar: “eu entendo do meu time”, “acompanho esse campeonato”, “sei quem está em boa fase”, “conheço o elenco”, “hoje é aposta certa”. Esse sentimento de conhecimento pode gerar uma perigosa sensação de controle.
A familiaridade com o futebol pode fazer a aposta parecer menos arriscada do que realmente é.
Mesmo quando há análise, estatística e informação, o resultado esportivo continua sujeito a imprevistos: uma expulsão, uma lesão, uma falha individual, um erro de arbitragem, uma mudança tática, um gol nos acréscimos. A emoção do futebol é justamente essa imprevisibilidade. Mas, quando existe dinheiro envolvido, a imprevisibilidade deixa de ser apenas parte do espetáculo e passa a atingir o humor, o orçamento e a rotina do apostador.
A normalização das bets no futebol brasileiro
As bets se tornaram uma presença constante no futebol brasileiro. Em 2025, um levantamento do ge mostrou que todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro eram patrocinados por casas de apostas, sendo que 90% tinham empresas do setor como patrocinadoras master, em destaque no centro do uniforme.
Esse dado ajuda a entender o tamanho da mudança cultural. As marcas de apostas deixaram de ocupar um espaço marginal e passaram a se apresentar como parte do espetáculo esportivo. Para o torcedor comum, especialmente o mais jovem, muitas vezes menores de idade, a exposição repetida pode produzir uma associação quase automática entre futebol e aposta.
A mensagem implícita passa a ser: assistir ao jogo não basta; é possível “participar” apostando. O torcedor deixa de ser apenas espectador e passa a ser estimulado a colocar dinheiro em resultados, gols, cartões, escanteios, desempenho de jogadores e eventos que acontecem durante a partida. Sem falar na participação de jogadores/atletas, narradores esportivos e figuras ligadas ao esporte na publicidade das casas de aposta. Tal medida tem o intuito de normalizar e dar um ar de credibilidade ao ato de apostar e aos jogos de azar.
Essa normalização exige cuidado. Quanto mais natural a aposta parece, mais difícil pode ser reconhecer quando ela deixou de ser entretenimento e começou a produzir prejuízo.
A aposta ao vivo e o risco da impulsividade
Uma das grandes mudanças trazidas pelas plataformas digitais é a possibilidade de apostar durante o jogo. Antes, a pessoa poderia fazer um palpite antes da partida começar. Hoje, a aposta pode acontecer a cada minuto: próximo gol, próximo cartão, número de escanteios, resultado do primeiro tempo, desempenho de um jogador, lateral, falta, pênalti ou qualquer outro evento da partida.
Esse tipo de aposta ao vivo aumenta a frequência de decisões. A pessoa não faz apenas uma escolha; ela é convidada a escolher de novo, e de novo, e de novo. A cada lance, surge uma nova possibilidade. A cada perda, aparece uma nova chance de recuperar. Em cada quase acerto, a sensação de que “faltou pouco” pode alimentar uma nova tentativa. Chamamos isso de “sensação de quase ganho”, um dos mecanismos ligados ao jogo e que acaba sendo um caminho para desenvolver a dependência.
Quando a aposta acompanha o ritmo do jogo, a emoção do torcedor pode se transformar em impulso financeiro.
Para algumas pessoas, esse ciclo se torna difícil de interromper. A partida termina, mas a mente continua presa ao prejuízo. O torcedor não lembra apenas do placar; lembra do dinheiro perdido, da aposta que quase entrou, da chance desperdiçada e da vontade de recuperar tudo na próxima rodada.
Quando o futebol deixa de ser lazer
Um sinal importante de alerta aparece quando o prazer pelo futebol começa a ser substituído pela tensão da aposta. A pessoa já não assiste ao jogo apenas para torcer, se divertir ou acompanhar o campeonato. Ela passa a assistir porque tem dinheiro envolvido.
Aos poucos, podem surgir mudanças no comportamento:
- acompanhar jogos de times ou campeonatos pelos quais não tem interesse real;
- ficar irritado quando alguém interrompe a transmissão ou comenta durante a partida;
- apostar para tentar recuperar perdas anteriores;
- mentir sobre valores apostados;
- usar dinheiro que estava destinado a contas, família ou compromissos pessoais;
- sentir ansiedade antes, durante e depois dos jogos;
- prometer parar e voltar a apostar na rodada seguinte;
- perder o interesse pelo esporte quando não há aposta envolvida.
Esse último ponto é muito significativo. Quando o futebol só parece emocionante se houver dinheiro em jogo, algo importante se deslocou. A relação com o esporte deixou de ser apenas cultural, afetiva ou recreativa e passou a ser mediada por risco financeiro.
A inovação perigosa: da aposta esportiva ao cassino online
Um dos aspectos mais preocupantes do mercado atual é que a aposta esportiva nem sempre permanece apenas no esporte. Muitas plataformas oferecem, no mesmo ambiente digital, diferentes modalidades de jogo: cassino ao vivo, roleta, blackjack, caça-níqueis online, jogos de colisão, slots e jogos semelhantes ao chamado Jogo do Tigrinho.
Isso muda completamente a experiência do usuário. A pessoa pode entrar para apostar em uma partida de futebol e, após uma perda ou durante o intervalo do jogo, ser estimulada a experimentar uma modalidade mais rápida. Em vez de esperar 90 minutos pelo resultado de uma partida, ela pode jogar várias rodadas em poucos minutos. Outro artifício são os bônus oferecidos pelas plataformas. Na ideia de “dar uma vantagem” acabam chamando o apostador a jogar, criando uma nova maneira de apostar.
Essa passagem do esporte para o cassino online é clinicamente relevante. A aposta esportiva já pode ser problemática, mas algumas modalidades de cassino digital têm uma dinâmica ainda mais acelerada, com rodadas curtas, estímulos visuais intensos, sensação de quase ganho e repetição contínua. Já atendi casos de pacientes que jogavam por horas e horas, “apertavam o botão” centenas de vezes no mesmo dia, torravam verdadeiras fortunas!
O risco aumenta quando a plataforma deixa de vender apenas o palpite esportivo e passa a oferecer uma esteira permanente de jogos de azar.
A Lei nº 14.790/2023 ampliou a regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo também jogos online. Segundo o Ministério da Fazenda, as apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018 no âmbito das apostas esportivas e pela Lei nº 14.790/2023 no âmbito dos jogos online. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente, com sites utilizando a extensão “.bet.br”.
A regulamentação é importante, mas não elimina o risco clínico. Mesmo em ambientes regulados, algumas pessoas podem desenvolver uma relação problemática com o jogo. Por isso, é necessário falar não apenas de legalidade, mas também de prevenção, saúde mental, educação financeira, proteção familiar e cuidado com públicos vulneráveis. Hoje podemos considerar o transtorno de jogo / ludopatia como um problema de saúde pública!
A ilusão de controle: “eu entendo de futebol”
Um dos pensamentos mais comuns em quem aposta no esporte é acreditar que seu conhecimento sobre futebol reduz significativamente o risco. De fato, conhecer escalações, fases de times e estatísticas pode tornar a pessoa mais informada. Mas informação não elimina acaso.
O futebol é um ambiente vivo, imprevisível e atravessado por fatores que ninguém controla completamente. O problema é que, depois de algumas vitórias, a pessoa pode acreditar que encontrou um método. Após algumas derrotas, pode pensar que precisa apenas ajustar a estratégia. E, quando perde muito, pode tentar recuperar com uma aposta maior.
Esse ciclo psicológico pode ser perigoso porque mistura autoconfiança, frustração e urgência. A pessoa começa apostando porque acredita que entende do jogo. Depois, continua apostando porque não aceita perder. Por fim, pode apostar não mais para se divertir, mas para tentar reparar o prejuízo.
Integridade esportiva e manipulação de resultados
O avanço das apostas esportivas também trouxe outra preocupação: a integridade das competições. Em 2024, o Senado instalou a CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas para apurar denúncias relacionadas ao tema. Em 2025, o relatório final apresentado na comissão fez recomendações, pediu indiciamentos e sugeriu mudanças legais.
Esse ponto é importante porque mostra que o problema das bets não é apenas individual. Ele também envolve o esporte como instituição, os clubes, os atletas, a publicidade, os órgãos reguladores e a confiança do público nos resultados.
Para o torcedor, a suspeita de manipulação pode produzir um efeito corrosivo: se tudo parece passível de aposta e se qualquer lance pode ter impacto financeiro, a experiência esportiva perde parte de sua espontaneidade. A pergunta deixa de ser apenas “meu time vai ganhar?” e passa a ser “quem está lucrando com isso?”.
O que é jogo problemático?
Em um passo governamental importante, o Ministério da Fazenda reconhece e descreve o jogo problemático como um comportamento compulsivo ou prejudicial relacionado ao jogo, capaz de afetar a saúde mental, emocional e financeira das pessoas. Entre as características citadas estão falta de controle, preocupação excessiva com o jogo, apostas para recuperar perdas, negligência de responsabilidades e mentiras sobre dinheiro ou tempo gasto apostando.
A Associação Americana de Psiquiatria descreve o transtorno do jogo como um padrão repetido e contínuo de apostas que continua apesar de gerar problemas em diferentes áreas da vida. Ou seja, não se trata apenas de perder dinheiro. Trata-se de continuar apostando mesmo quando a pessoa já percebe prejuízo emocional, familiar, profissional, social ou financeiro.
Na vida real, esse quadro pode aparecer de forma gradual. Primeiro, a pessoa aposta em jogos importantes. Depois, aposta em jogos menores. Em seguida, passa a acompanhar campeonatos que nem conhecia. Em alguns casos, migra para cassino online, tigrinho, roleta ou outros jogos rápidos. Quando percebe, o problema já não está mais restrito ao futebol.
O impacto na família
A família costuma perceber o problema antes que o apostador consiga nomeá-lo. Aparecem atrasos em contas, irritabilidade, isolamento, mentiras, pedidos de empréstimo, uso escondido do cartão, sumiços de dinheiro e uma preocupação constante com resultados de jogos.
Em alguns casos, o familiar tenta ajudar pagando dívidas. Em outros, parte para acusações duras. Também é comum a família oscilar entre proteção, raiva, vergonha e medo. O desafio é encontrar uma posição mais saudável: nem abandonar a pessoa, nem sustentar o ciclo da aposta.
Algumas atitudes podem ajudar:
- conversar em um momento de menor tensão, evitando exposição pública ou humilhação;
- falar sobre fatos concretos, como valores, dívidas, datas e consequências;
- evitar pagar dívidas repetidamente sem um plano de tratamento;
- combinar limites financeiros e formas de proteção do orçamento familiar;
- incentivar psicoterapia e, se necessário, avaliação psiquiátrica;
- buscar apoio também para os familiares afetados;
- observar sinais de depressão, desesperança ou risco de autoagressão.
Quando há falas de desespero, vergonha extrema, ideação suicida ou risco imediato, a situação deve ser tratada como urgência. Nesses casos, é importante procurar atendimento emergencial, acionar rede de apoio e buscar serviços especializados de saúde mental.
Como preservar a paixão pelo futebol sem ser capturado pela aposta?
Para algumas pessoas, a melhor decisão pode ser interromper completamente as apostas. Para outras, especialmente quando ainda não há perda de controle instalada, é importante refletir sobre limites e sinais de risco. O ponto central é não permitir que a aposta passe a organizar a relação com o esporte.
Algumas perguntas podem ajudar:
- eu ainda consigo assistir a um jogo sem apostar?
- meu humor muda muito quando perco uma aposta?
- já escondi valores apostados de alguém?
- já usei dinheiro que tinha outra finalidade?
- já tentei recuperar perdas aumentando o valor da aposta?
- tenho migrado de apostas esportivas para cassino online, tigrinho, roleta ou jogos rápidos?
- sinto vergonha, culpa ou ansiedade depois de apostar?
Se a resposta for “sim” para várias dessas perguntas, talvez o problema já mereça atenção. Não é necessário esperar uma grande dívida, uma separação, uma crise familiar ou um prejuízo profissional para buscar ajuda.
O papel da psicoterapia
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender o ciclo da aposta, identificar gatilhos emocionais, reconhecer distorções de pensamento e construir estratégias para interromper o comportamento. Também pode auxiliar na reorganização da rotina, no manejo da vergonha, na prevenção de recaídas e na reconstrução da confiança familiar.
Em muitos casos, o trabalho psicológico precisa conversar com outras frentes: orientação financeira, limites familiares, bloqueios de acesso, grupos de apoio e avaliação médica quando há depressão, ansiedade intensa, impulsividade importante, uso de substâncias ou risco de autoagressão.
O tratamento não deve ser conduzido com moralismo. Ao mesmo tempo, também não pode ignorar as consequências. O caminho mais saudável costuma unir acolhimento, responsabilidade, limites e plano concreto de mudança.
Considerações finais
O futebol pode continuar sendo paixão, encontro, memória e lazer. O problema começa quando essa paixão passa a ser usada como porta de entrada para uma rotina de apostas cada vez mais frequente, impulsiva e financeiramente arriscada.
As bets trouxeram uma nova camada para a experiência esportiva. E, quando se misturam a cassinos online, jogos rápidos, tigrinho, roletas e outras modalidades de azar, o risco deixa de estar apenas no resultado de uma partida. Ele passa a estar na permanência da pessoa dentro de um ambiente digital desenhado para manter a aposta sempre disponível.
Se assistir futebol deixou de ser um prazer e passou a ser fonte de ansiedade, dívida, segredo ou conflito familiar, é importante olhar para isso com seriedade. Buscar ajuda não significa abandonar o esporte; pode significar recuperar uma relação mais livre, saudável e menos aprisionada ao dinheiro.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras
Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
psicologoemcuritiba.com.br
41 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR
Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is Gambling Disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder
BRASIL. Ministério da Fazenda. Apostas de Quota Fixa. Brasília: Secretaria de Prêmios e Apostas, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/apostas-de-quota-fixa
BRASIL. Ministério da Fazenda. Jogo Responsável. Brasília: Secretaria de Prêmios e Apostas, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/jogo-responsavel
BRASIL. Ministério da Fazenda. Nova Portaria da Fazenda estabelece que operadores de apostas poderão ser responsabilizados por publicidade abusiva. Brasília, 01 ago. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2024/agosto/nova-portaria-da-fazenda-estabelece-que-operadores-de-apostas-poderao-ser-responsabilizados-por-publicidade-abusiva
GE. Todos os clubes do Brasileirão 2025 são patrocinados por bets. Rio de Janeiro, 11 mar. 2025. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/03/11/todos-os-clubes-do-brasileirao-2025-sao-patrocinados-por-bets.ghtml
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248
SENADO FEDERAL. Relatório final da CPI da Manipulação de Jogos pede indiciamentos e sugere leis. Brasília, 18 mar. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/03/18/relatorio-final-da-cpi-da-manipulacao-de-jogos-pede-indiciamentos-e-sugere-leis
O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
- Artigo publicado em: 19 março, 2025
- Categorias:
Ler resumo do artigo ⮟
-
As apostas online estão viciando cada vez mais pessoas, seja no Jogo do Tigrinho, em cassinos on-line ou nas apostas esportivas.
-
O vício começa aos poucos e pode se transformar em uma armadilha difícil de sair, com relação direta à liberação constante de dopamina
-
Os prejuízos vão do bolso à saúde mental e acabam afetando toda a vida, inclusive os relacionamentos amorosos e familiares.
-
Há tratamento e apoio para quem deseja retomar o controle e reconstruir a própria vida com mais segurança.
-
O psicólogo Leonardo Fd Araujo oferece atendimento psicológico para dependentes de jogo e seus familiares, com opção presencial em Curitiba ou on-line para todo o Brasil, de forma rápida e prática.
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Leia o artigo completo: tempo de leitura 8 minutos
Nos últimos anos os jogos de azar cresceram exponencialmente, tornando-se uma febre entre os brasileiros, movimentando mais de R$100 bilhões no ano passado. O apelo e as promessas de dinheiro fácil e emoção garantida, milhões de pessoas se entregam ao jogo, sem perceber os riscos envolvidos. O vício em apostas pode causar danos financeiros, emocionais e sociais profundos. Mas afinal, como saber se você ou alguém próximo está desenvolvendo um problema com jogos de azar? E mais importante: como buscar ajuda? Te convido a acompanhar esse breve artigo sobre o tema, boa leitura!
Como o Vício em Apostas Online Se Desenvolve?
A compulsão por apostas esportivas, jogos e cassinos online não surge do nada. Ela ocorre de forma progressiva, passando por diferentes estágios. Inicialmente, o jogador aposta por diversão, aproveitando pequenos ganhos. Com o tempo, a necessidade de recuperar perdas ou sentir novamente a adrenalina da vitória leva a apostas cada vez maiores. Esse ciclo vicioso é reforçado pelo próprio sistema das plataformas, que utilizam algoritmos para manter o usuário engajado. O fato de o sistema aparentar ser algo divertido e inofensivo, também acaba sendo um ponto importante de reflexão.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o transtorno do jogo patológico afeta cerca de 1% da população mundial, mas a taxa pode ser ainda maior em países onde as apostas são amplamente divulgadas e incentivadas como é o caso do Brasil. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)1, entre 3% e 5% dos apostadores desenvolvem um comportamento patológico ligado ao jogo, precisando de tratamento especializado.

Por que as apostas viciam?
A Ludopatia, termo técnico usado para o vício em jogos de azar, acontece porque o desafio e a excitação provocados pelas apostas estimulam o cérebro de forma semelhante a substâncias psicoativas. Assim como acontece com drogas e álcool, o jogo ativa intensamente o sistema de recompensa, levando à dependência.
Os cassinos, casas de apostas e jogos online são projetados para manter o jogador envolvido, utilizando mecânicas como eventos de “quase-ganho” e recompensas imprevisíveis. Esse efeito cria uma falsa sensação de controle e de que a vitória está sempre por um triz, incentivando o jogador a continuar apostando.
Além disso, cada aposta ativa a liberação de dopamina, o neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. Com o tempo, o cérebro se adapta e desenvolve tolerância, exigindo apostas cada vez maiores para gerar a mesma sensação de euforia. Esse ciclo leva o indivíduo a correr riscos crescentes, muitas vezes resultando em perdas financeiras e impactos profundos na vida do apostador.
Os Sinais de Alerta do Vício em Jogos de Azar
Muitas pessoas não percebem que estão viciadas em apostas até que os danos se tornem irreversíveis ou grandes o bastante para trazer muitos problemas. Alguns sinais importantes que podem servir de alerta incluem:
- Dificuldade em controlar a frequência e o valor das apostas.
- Mentiras para familiares e amigos sobre o dinheiro gasto.
- Uso de empréstimos ou cartão de crédito para continuar jogando.
- Cria situações para que amigos ou familiares emprestem dinheiro.
- Sintomas de abstinência, como ansiedade e irritabilidade ao tentar parar.
- Preocupação excessiva com o jogo, a ponto de afetar as relações familiares, trabalho e até a saúde.
- Negligência de responsabilidades familiares e profissionais. Deixar de pagar contas, cuidar da família e de si próprio.
- A pessoa começa a aparentar um aspecto de estar doente. Pode emagrecer ou engordar, cuidar menos da aparência e até mesmo da higiene pessoal. Há uma deterioração geral da saúde.
Se você se identifica com esses sinais ou conhece alguém nessa situação, é hora de buscar ajuda profissional!
O Impacto Psicológico e Social do Jogo Compulsivo
O vício em apostas online afeta não apenas o jogador, mas também sua família, amigos e até o ambiente de trabalho. As pessoas viciadas em jogo têm uma maior propensão a desenvolver depressão, ansiedade e comportamentos impulsivos. A perda financeira contínua pode levar a crises conjugais, afastamento de entes queridos e até ao envolvimento com atividades ilícitas para sustentar o hábito. Neste meio tempo, é comum que o jogador desenvolva outros vícios, a fim de aplacar a “busca incessante por prazer”. A liberação de dopamina no cérebro durante a aposta cria um efeito viciante, tornando cada perda ou ganho um estímulo para continuar jogando. Esse mecanismo da dopamina torna-se uma “busca incessante pelo prazer”.
O Papel da Indústria das Apostas Online
As casas de apostas e cassinos online investem pesadamente em publicidade e estratégias psicológicas para manter seus jogadores ativos. Aqui entra um estudo profundo e muito bem articulado de engenharia social, onde planos são desenvolvidos para oferecer ao jogador sempre que quiser jogar. Muitas plataformas oferecem bônus de boas-vindas, cashback e promoções tentadoras, que incentivam o usuário a apostar cada vez mais. Além disso, a acessibilidade – com jogos disponíveis a qualquer hora do dia – torna ainda mais difícil controlar o impulso de jogar. As plataformas também utilizam figuras públicas ligadas ao esporte e a música, a fim de passar um ar de credibilidade e positividade.

Há uma infinidade de plataformas atualmente, dentro e fora do Brasil. Algumas misturam casa de apostas online, as conhecidas bets, com cassinos. Outras são puramente uma modalidade como o jogo do Tigrinho ou Aviãozinho. Independente da marca ou site, todos tem a mesma função: conseguir fixar o jogador para que jogue e fique o máximo de tempo possível online.
Importante entender que a “banca sempre vence”, e farão tudo o que for possível para arrancar o máximo de dinheiro do jogador! Lembrem, é tudo uma questão de engenharia social!
Outro ponto é atrelar o jogo de azar, as bets, com o esporte mais popular do planeta, o futebol. Campeonatos, times e atletas acabam fazendo parte desta indústria, sendo patrocinados e até mesmo fazendo propagandas ativas para as plataformas. Essa ligação do futebol com apostas não é nova, porém até o advento das plataformas online era algo velado e ilegal no Brasil. Em países como a Inglaterra as casas de apostas esportivas físicas funcionam há muito tempo, equivalendo a nossas casas lotéricas. Por lá há uma crescente preocupação com os impactos sociais do jogo de azar.
Um relatório da Revista Lancet Psychiatry2 revelou que 90% da receita das casas de apostas vem de apenas 5% dos jogadores, indicando que uma pequena parcela da população sustenta a lucratividade dessas empresas, muitas vezes à custa do próprio bem-estar. Aqui está parte do resultado da engenharia social, conseguem cativar e lucrar em cima de apenas 5% dos jogadores, que em boa parte estão viciados em jogo.
Como Parar de Apostar? Estratégias e Tratamento Para o Vício em Apostas
A recuperação do vício em apostas não é simples, mas é possível com o suporte adequado. Um dos primeiros passos é a autoexclusão, um recurso oferecido por muitos sites de apostas que permite bloquear a própria conta, dificultando o acesso e reduzindo as chances de recaída. Além disso, grupos de apoio como os Jogadores Anônimos desempenham um papel fundamental no processo, proporcionando um ambiente de acolhimento onde os participantes compartilham experiências e encontram apoio mútuo para abandonar o jogo.
Outro aspecto essencial da recuperação é a psicoterapia especializada. O psicólogo Leonardo Fd Araujo, em Curitiba, atende pessoas que enfrentam o vício em apostas, ajudando-as a compreender os gatilhos emocionais que levam ao jogo compulsivo e a desenvolver estratégias eficazes para retomar o controle da própria vida. O acompanhamento psicológico não apenas auxilia na superação do vício, mas também fortalece o indivíduo para evitar recaídas e reconstruir sua rotina de forma mais saudável.
A Importância dos Grupos de Apoio
Além do tratamento psicológico individual, os grupos de apoio, como o Jogadores Anônimos (JA), desempenham um papel fundamental na recuperação de pessoas viciadas em jogos de azar. O JA segue os mesmos princípios dos Alcoólicos Anônimos (AA), utilizando um programa de 12 passos que ajuda os participantes a lidarem com o vício e reconstruírem suas vidas.
Nestes grupos, os membros compartilham suas experiências, dificuldades e conquistas, criando um ambiente de suporte mútuo. O apoio social é um dos fatores mais importantes para a recuperação, pois reduz a sensação de isolamento e fortalece a motivação para abandonar o jogo compulsivo. Se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, participar de um grupo como o Jogadores Anônimos pode ser um primeiro passo essencial na jornada para a recuperação.

O Papel da Família no Tratamento
Geralmente, a primeira pessoa que nos procura para atendimento psicológico é um familiar próximo. As histórias que chegam são de dor, desesperança e sofrimento por não saber o que fazer para ajudar seu familiar que está viciado em jogos de azar. A partir deste primeiro acolhimento, oferecemos diversas orientações para que sirvam de incentivo para o jogador venha para um primeiro atendimento. Essa ponte entre o psicólogo – familiar – paciente é muito importante, pois dificilmente o jogador compulsivo irá buscar ajuda profissional sozinho. Em alguns casos acabam pedindo ajuda para um familiar (uma mãe, esposa…) e este nos procura para realizar um primeiro atendimento.
No dia a dia em casa, ter o apoio de familiares e amigos é fundamental para o bom andamento da terapia para o jogo patológico. Em determinada etapa é importante a presença de ao menos um familiar próximo para que possamos repassar as orientações e colher mais informações. Maridos, esposas, filhos, pais e mães, não importa quem será o guardião desta missão, mas saiba que é algo muito importante para a recuperação do seu ente querido ter você como um porto seguro!
Costumo colocar aos meus clientes que é preciso ter “rotas de fuga seguras”, que nada mais são do que 3 ou 4 pessoas chave, que não importando a hora do dia, as quais você poderá pedir ajuda.
Pode ser um amigo, uma namorada, uma mãe. Mas que seja uma pessoa orientada e que saiba quais estratégias seguir naquele momento de socorro. Sempre estamos disponíveis a marcar uma sessão, individualmente ou em conjunto, com uma ou mais dessas pessoas chave, escolhidas pelo cliente que está em terapia.
Buscando Ajuda: O Primeiro Passo Para a Recuperação
Se você ou alguém próximo está sofrendo com o vício em apostas esportivas, bets, tigrinho, aviãozinho ou cassinos online, saiba que há saída! O tratamento com um profissional qualificado pode ser o diferencial para recuperar o controle da sua vida financeira e emocional. Oferecemos, além do atendimento psicológico, a assistência técnica psicológica para demandas judiciais envolvendo jogos de azar. Ajudando na produção e elaboração de documentos psicológicos que sirvam de base para ingresso na justiça contra casas de apostas e bets.
O psicólogo Leonardo Fd Araujo, em Curitiba, oferece atendimento especializado para ajudar pessoas que enfrentam esse problema. Não espere até que as consequências sejam irreversíveis. Entre em contato e dê o primeiro passo! Atendimentos presenciais em nosso consultório no Bigorrilho e On-line de onde você estiver, dentro e fora do Brasil!
Pode contar comigo!
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras
Atendimento em casos de Ludopatia
Assistente Técnico Psicológico para casos judiciais envolvendo jogos de azar / Ludopatia
psicologoemcuritiba.com.br
41 – 9.9643-9560
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR
Para citações deste artigo
ARAUJO, Leonardo Fd. O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda? In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 19 mar. 2025. Disponível em: https://psicologoemcuritiba.com.br/2025/03/o-vicio-em-apostas-online-como-buscar-ajuda/
Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is gambling disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248/chapter/recommendations
NATIONAL COUNCIL ON PROBLEM GAMBLING. FAQs: What is problem gambling? Washington, DC: NCPG, s.d. Disponível em: https://www.ncpgambling.org/help-treatment/faqs-what-is-problem-gambling/
PORTUGAL. Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências. Linhas de orientação técnica para a intervenção em comportamentos aditivos e dependências sem substância: a perturbação de jogo. Lisboa: SICAD, set. 2017. Disponível em: https://www.icad.pt/DocumentList/GetFile?id=483&languageId=1









