Apostas online e orçamento familiar: o alerta que o Brasil recebeu em 2024
- Artigo publicado em: 14 março, 2025
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Em 2024, dados do Banco Central acenderam um alerta: bilhões de reais estavam sendo movimentados mensalmente em apostas online no Brasil.
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O transtorno do jogo não escolhe classe social, gênero ou nível de escolaridade, afetando diferentes perfis da população.
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Famílias de menor renda tendem a sofrer impactos mais imediatos e graves, enquanto famílias com maior patrimônio podem acumular perdas expressivas ao longo do tempo.
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O avanço das apostas online aponta para um problema de saúde pública que exige atenção psicológica, familiar e social.
Apostas online e orçamento familiar: o alerta que o Brasil recebeu em 2024
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
Em 2024, um dado chamou a atenção de especialistas, profissionais de saúde e autoridades: o volume de dinheiro movimentado pelas apostas online no Brasil alcançou cifras bilionárias. Um estudo técnico do Banco Central do Brasil (2024) estimou que milhões de brasileiros estavam transferindo valores significativos mensalmente para plataformas de apostas, principalmente via Pix.
Esse número não representa apenas uma movimentação econômica. Ele revela um fenômeno mais profundo: o avanço das apostas como parte do cotidiano financeiro das famílias brasileiras. O que antes poderia ser visto como entretenimento pontual passou, em muitos casos, a ocupar espaço no orçamento doméstico, disputando lugar com despesas essenciais como alimentação, moradia, saúde e educação.
Esse cenário levanta uma questão importante: estamos diante de um problema individual ou de um fenômeno coletivo? Cada vez mais, a resposta aponta para a segunda opção. O crescimento das apostas online no Brasil já apresenta características de um problema de saúde pública. É difícil encontrar atualmente quem não saiba, ou conheça, alguma história relacionada a problema de jogo. Levando a imaginar que a questão é extensa o suficiente para preocupar famílias, profissionais de saúde e poder público.
O dado que acendeu o alerta
O levantamento do Banco Central indicou que, em 2024, valores mensais transferidos para empresas de apostas chegaram a variar entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. Em um único mês analisado, cerca de 56 empresas concentraram mais de R$ 20 bilhões em movimentações. Para se ter uma ideia, esse valor é o equivalente ao orçamento público anual do estado do Espírito Santo!
Outro dado chamou ainda mais atenção: aproximadamente 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família movimentaram cerca de R$ 3 bilhões em apostas via Pix no período analisado. Esse número não pode ser interpretado apenas como uma estatística. Ele aponta para um fenômeno que atravessa desigualdades sociais, vulnerabilidade econômica e sofrimento psicológico.
Quando o dinheiro da sobrevivência entra no jogo, o problema deixa de ser apenas financeiro e passa a ser social.
O jogo não escolhe perfil
Existe um equívoco comum quando se fala em ludopatia: a ideia de que o problema estaria restrito a um determinado grupo social. Na prática, isso não se sustenta. O transtorno do jogo pode atingir pessoas de diferentes idades, gêneros, níveis de escolaridade e classes sociais.
Na clínica, é possível encontrar desde jovens adultos expostos às apostas por meio das redes sociais até profissionais consolidados financeiramente que passaram a apostar como forma de lidar com estresse, ansiedade ou busca por excitação. Também aparecem casos de pessoas que iniciaram no jogo como entretenimento e, aos poucos, perderam o controle.
Essa diversidade de perfis mostra que o problema não está apenas na condição econômica, mas na combinação entre acesso fácil, estímulos constantes, impulsividade, fatores emocionais e contexto de vida.
Impactos diferentes, sofrimento semelhante
Embora o transtorno do jogo possa atingir qualquer pessoa, os impactos não são iguais para todos. Famílias com menor renda tendem a sentir os efeitos de forma mais imediata e intensa. Uma perda relativamente pequena pode comprometer contas básicas, alimentação, transporte ou medicamentos.
Nesses contextos, o jogo pode rapidamente se transformar em um fator de desorganização familiar: atrasos em contas, conflitos, insegurança financeira, ansiedade constante e sensação de desamparo.
Por outro lado, famílias com maior renda, patrimônio ou acesso a crédito podem suportar perdas por mais tempo. Isso não significa ausência de problema. Pelo contrário. Em muitos casos, essas perdas se acumulam de forma silenciosa, envolvendo investimentos, reservas financeiras, patrimônio e dívidas mais complexas. Tornando o processo de retomada um desafio que demandará auxílio especializado de contadores e planejadores financeiros.
A diferença não está em quem sofre, mas em como o sofrimento aparece e em quanto tempo ele se torna visível.
Enquanto uma família pode entrar em crise rapidamente, outra pode levar meses ou anos para perceber o tamanho do prejuízo. Em ambos os casos, o impacto emocional costuma ser significativo: vergonha, culpa, quebra de confiança, ansiedade e desgaste nos relacionamentos.
O jogo como falsa solução financeira
Um dos pontos mais importantes para compreender o avanço das apostas no Brasil é a ideia de que o jogo pode funcionar como solução financeira, ou ainda como um complemento de renda. Para pessoas que enfrentam dificuldades econômicas, a promessa de ganho rápido pode parecer uma saída possível. A falsa ideia de conseguir dinheiro rápido acaba se tornando uma verdadeira armadilha.
O problema é que essa lógica frequentemente se inverte. A pessoa aposta para ganhar, perde, tenta recuperar, perde novamente e aumenta o valor das apostas. O que começou como tentativa de solução passa a ser parte do problema.
Esse fenômeno é conhecido como “recuperação de perdas”. A pessoa não joga mais apenas para ganhar, mas para desfazer o prejuízo. E, quanto maior a perda, maior a pressão emocional para tentar resolver rapidamente.
Um problema de saúde pública
O crescimento das apostas online no Brasil apresenta características que vão além do comportamento individual. A combinação de acesso facilitado, estímulos constantes, publicidade intensa, integração com meios de pagamento instantâneo e presença em diferentes espaços sociais cria um ambiente propício ao aumento do jogo problemático.
Organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (2024), já destacam a necessidade de atenção ao comportamento de jogo dentro do campo da saúde mental. Isso inclui não apenas o tratamento individual, mas também estratégias de prevenção, educação e regulação.
No Brasil, a discussão sobre regulamentação avançou nos últimos anos, mas o desafio continua sendo equilibrar aspectos econômicos com proteção à população, especialmente grupos mais vulneráveis.
Quando o jogo entra no orçamento familiar
Um dos sinais mais claros de que o problema ultrapassou o limite do entretenimento é quando o jogo passa a fazer parte do orçamento. Isso pode acontecer de forma explícita ou silenciosa.
Alguns sinais de alerta incluem:
- uso frequente de Pix para plataformas de apostas;
- redução de recursos para despesas essenciais;
- uso de cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos;
- dificuldade em explicar gastos;
- tentativas de recuperar perdas com novas apostas;
- mentiras ou omissões sobre dinheiro;
- conflitos familiares relacionados a finanças.
Quando esses sinais aparecem, é importante olhar para o comportamento com seriedade. O problema não costuma se resolver sozinho e pode se intensificar se não for tratado.
O papel da família e da psicoterapia
A família pode ser um ponto de apoio fundamental, mas também pode se perder entre a tentativa de ajudar e o risco de sustentar o problema. Por isso, a orientação profissional de um Psicólogo que atenda casos de ludopatia é essencial.
A psicoterapia pode auxiliar tanto a pessoa que joga quanto seus familiares. No caso do paciente, ajuda a compreender o ciclo da aposta, trabalhar impulsividade, lidar com emoções difíceis e construir estratégias para interromper o comportamento.
No caso da família, a orientação psicológica ajuda a estabelecer limites, compreender o transtorno, evitar atitudes que alimentam o ciclo e construir uma linha de apoio mais firme e consciente.
A recuperação não depende apenas de parar de jogar, mas de reorganizar a vida emocional, financeira e familiar.
Considerações finais
O alerta de 2024 mostrou que as apostas online deixaram de ser um fenômeno isolado e passaram a ocupar um espaço relevante na vida financeira de milhões de brasileiros. Quando bilhões de reais circulam mensalmente nesse mercado, é necessário olhar para além dos números e considerar os impactos humanos por trás deles.
O transtorno do jogo não escolhe quem atinge. Ele atravessa classes sociais, níveis de escolaridade e diferentes contextos de vida. O que muda é a forma como o problema se manifesta e o tempo que leva para se tornar visível.
Em todos os casos, porém, há algo em comum: o impacto emocional, familiar e financeiro. Por isso, tratar o avanço das apostas apenas como entretenimento ou oportunidade econômica pode ser insuficiente. É preciso reconhecer o fenômeno também como um desafio de saúde pública.
Se o jogo passou a ocupar espaço no seu orçamento ou na sua família, talvez seja o momento de olhar com mais atenção. Buscar ajuda não significa fraqueza. Pode ser o primeiro passo para retomar o controle e reconstruir caminhos mais seguros.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
Terapia | Terapia Online | Palestras
Atendimento em casos de Ludopatia
Avaliação Psicológica para Vasectomia
Atendimento presencial e online
Bigorrilho, Curitiba – PR
Fontes
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil. Brasília, 2024.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Gambling and health. Geneva, 2024.
BRASIL. Ministério da Fazenda. Jogo Responsável. Brasília, 2024.
Microtraição: seu relacionamento pode estar em risco
- Artigo publicado em: 10 março, 2025
- Categorias:
Resumo do artigo:
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Microtraições são pequenos gestos que podem abalar a confiança em um relacionamento.
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Conversas secretas, curtidas excessivas ou intimidade emocional fora do casal são sinais de alerta.
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Quem sofre com isso pode sentir insegurança, tristeza e até sintomas de ansiedade.
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O diálogo honesto e, em muitos casos, a terapia são caminhos para reconstruir a conexão.
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O psicólogo Leonardo Fd Araujo oferece atendimento psicológico com opção presencial em Curitiba ou On-line para todo o Brasil, de forma rápida e prática.
Microtraição: seu relacionamento pode estar em risco
Leia o artigo completo: tempo de leitura 9 minutos
Em um mundo conectado pelas redes sociais e pela constante comunicação digital, os relacionamentos podem estar em risco e cada vez mais expostos a novos desafios. Entre eles, surge a Microtraição, uma forma sutil de desvio emocional que pode corroer a base de confiança entre casais. Mas o que exatamente é a Microtraição, e como podemos reconhecê-la? Convido a acompanhar neste artigo, onde explico quais são os principais pontos da Microtraição:
Para ilustrar o tema, vamos utilizar uma situação fictícia para que fique claro de que forma acontece a Microtraição:
O Dilema de Pedro e Márcia

Pedro e Márcia estão casados há 12 anos e têm dois filhos pequenos (6 e 9 anos). Sempre tiveram um relacionamento baseado no respeito e na parceria. Porém, nos últimos meses, algo mudou. Márcia (38 anos), reencontrou em uma rede social Adriano (40 anos), um antigo amigo de escola. No início, as conversas eram esporádicas, cheias de nostalgia e lembranças da adolescência. Com o tempo, passaram a trocar mensagens com frequência, compartilhar confidências e trocar elogios nas redes sociais. Márcia curtia e comentava quase todas as fotos dele, enviava mensagens privadas elogiando sua aparência e seu estilo de vida. Aos poucos, ela começou a esperar ansiosa pelas trocas e a sentir um vínculo emocional crescente.
Pedro (39 anos), por outro lado, percebeu essa mudança sutil no comportamento da esposa. Ele notou que ela passava cada vez mais tempo no celular. Algumas vezes, ao se aproximar, ela minimizava a tela ou bloqueava o telefone, sem que o marido pudesse participar. Intrigado e inseguro, ele acabou descobrindo as conversas por acaso quando viu uma notificação na tela do celular dela. Apesar de não encontrar nada explicitamente romântico ou sexual, as trocas de mensagens deixavam claro que Márcia estava emocionalmente envolvida com Adriano. Ao visitar o perfil deste homem, Pedro percebeu que Márcia havia curtido e até comentado em dezenas de publicações.
Desde então, Pedro sente um peso constante no peito. Ele não sabe como abordar o assunto e tem medo de parecer paranoico ou controlador. Para piorar, o casal está tendo intimidade de forma cada vez mais esporádica, chegam a passar semanas sem praticar sexo. Beijos e carinhos mais intensos também vão ficando mais raros. E a cada investida dele, a esposa não corresponde.
A angústia consome Pedro diariamente, e sua autoestima foi profundamente afetada. Ele começou a se sentir insuficiente, se perguntando se estava perdendo a conexão com a esposa. Sem coragem e energia para confrontá-la, Pedro mergulhou em um estado de tristeza e insegurança, questionando se isso era apenas um exagero de sua parte ou se realmente estava perdendo Márcia, mesmo sem que houvesse uma traição física. Ele viu pelas redes sociais e descobriu que Adriano era solteiro, sem filhos e que havia se divorciado recentemente. O que aumentou ainda mais sua apreensão!

Esse caso ilustra como a Microtraição pode ser devastadora, mesmo sem envolvimento carnal. O elo emocional que Márcia criou com outra pessoa, ainda que sem intenção de trair, acabou ferindo Pedro profundamente e abalando a confiança do casal. Situações como essa mostram a importância do diálogo e da definição clara de limites dentro do relacionamento.
Entendendo os detalhes e o que é Microtraição:
Tendo o exemplo acima em mente, vamos agora conversar um pouco sobre o tema, para que você reflita e entenda o que é Microtraição e se o seu relacionamento pode estar em risco:
A Microtraição refere-se a pequenos atos que, à primeira vista, podem parecer inofensivos, mas que, quando analisados mais profundamente, podem sinalizar um afastamento do compromisso emocional no relacionamento. Esses comportamentos incluem desde conversas secretas até interações online que são escondidas do(a) parceiro(a). A percepção da Microtraição varia entre indivíduos e culturas, o que é aceitável para um casal pode ser considerado uma traição para outro.
No caso fictício, Pedro acabou descobrindo detalhes e a extensão da situação, o que acabou piorando ainda mais a situação. Em sua cabeça o cenário estava traçado para perder Márcia, uma fez que Adriano estava divorciado, bem financeiramente e estava com uma conexão emocional forte com sua esposa.
O que não podemos, jamais, é normalizar essa troca de mensagens com outras pessoas, escondendo e desviando a verdade, como sendo algo normal e saudável. Não é! Pois um dos pilares fundamentais de um relacionamento é justamente a confiança e a cumplicidade! É importante lembrar que esses pequenos atos podem ter grandes impactos, principalmente se não forem discutidos de forma aberta. Pode desencadear até mesmo em uma separação!

Sinais Comuns de Microtraição
A Microtraição pode se manifestar de diversas formas, e reconhecer esses sinais pode ser o primeiro passo para lidar com o problema. Alguns exemplos incluem:
• Esconder ou omitir Interações: A pessoa passa a ocultar conversas no Instagram ou contatos online no Whatsapp, por exemplo. Usar senhas para impedir que o parceiro veja mensagens, ou minimizar a tela do celular quando o outro se aproxima. Ter mais de um perfil para conversar com outras pessoas. Apagar o conteúdo de conversas para que não fiquem registradas. Enfim, toda forma de ocultar esse comportamento.
• Flerte Virtual: Curtidas e comentários sugestivos em fotos de outras pessoas, trocar mensagens mesmo sem segundas intenções. Aquele “inocente” coraçãozinho ou comentário no Instagram de outra pessoa, qual é a função daquilo? Tem alguma outra intenção? Se o seu parceiro(a) visse iria entender? Questione o seu comportamento!
• Comparações Desfavoráveis: Comparar o(a) parceiro(a) com outras pessoas de forma negativa, como “Fulano faria isso melhor” ou “Ciclano nunca reclamaria disso”. A comparação econômica também, ao ver que “Beltrano está viajando para Europa” ou “Comprou um carro lindo”, e seu parceiro(a) não faz. As redes sociais são um extrato, bastante idealizado, da realidade. Ter acesso a apenas fragmentos da vida alheia não lhe dará a ideia do todo. Reflita se estiver fazendo comparações sociais e econômicas, mesmo que seja algo velado ou não falado.
• Intimidade Emocional com Terceiros: Compartilhar detalhes íntimos do relacionamento com colegas ou amigos, em vez de discutir ou dividir com o(a) parceiro(a). Abrir pontos do relacionamento a terceiros pode acabar sendo uma verdadeira armadilha para o casal.
• Ligação emocional com outras pessoas além do parceiro(a): De forma a pensar em vários momentos, querer conversar e até mesmo em detrimento de estar ou passar um tempo com o(a) parceiro(a) atual preferir conversar com outra pessoa. Neste ponto o casal pode, até mesmo, se afastar sexualmente e ter cada vez menos momentos de intimidade. A libido acaba sendo direcionada para fora do relacionamento o que pode aumentar ainda mais a desconexão do casal.
Lidando com o assunto no consultório durante a terapia
No dia a dia do consultório, é fácil perceber que esses “pequenos comportamentos” podem gerar insegurança e abalar a confiança dos casais, especialmente se repetidos ou ignorados em conversas sobre os limites do relacionamento.
Recebo com frequência homens e mulheres que descobriram essas interações “secretas” de seus parceiros. Muitas vezes o medo, a insegurança e as dúvidas fazem com que fiquem em silêncio. A ideia de não querer parecer paranoico ou controlador, reforça isso. Assim como é complexo lidar com uma traição “convencional”, lidar com a Microtraição também é um grande desafio para quem está sendo traído e deixado de lado.
Com o emocional abalado, sem forças para lidar com o que acontece, é frequente encontrar quadros de início de depressão. A pessoa ganha ou perde peso, passa a se cuidar menos, o sono cada vez pior e fica frequentemente doente. O emocional e os assuntos não resolvidos acabam sendo somatizados no corpo.
Fazer o resgate de quem está em sofrimento é um grande desafio na terapia! O primeiro passo é buscar ajuda, entender como estão seus limites emocionais e como tudo isso está interferindo na sua vida. Estar aberto a pensar e refletir, com uma terceira pessoa, no caso o psicólogo, sobre a situação atual do relacionamento e os possíveis desdobramentos.
Com o resgate psicológico em andamento na terapia, é hora de cuidar da autoestima! Cortar o cabelo, cuidar da pele, voltar a fazer atividades físicas e regenerar a saúde física e mental. Criar forças e energia, pois será preciso resolver o que está acontecendo no relacionamento!
Como Lidar com a Microtraição
Reconhecer os sinais é apenas o primeiro passo. Lidar com a Microtraição requer uma abordagem cuidadosa e um esforço conjunto do casal para reconstruir a confiança. Autoconhecimento e reflexão são essenciais para entender seus próprios limites e valores.
“Pergunte-se o que é aceitável para você e quais comportamentos o incomodam. Diálogo aberto e honesto também desempenha um papel crucial, é importante reservar momentos para conversar sobre inseguranças e desconfortos.“
Além disso, a comunicação não-violenta pode ajudar a expressar suas necessidades de maneira clara e respeitosa, evitando ataques pessoais e fortalecendo a compreensão mútua. Outro ponto fundamental é o estabelecimento de limites: juntos, vocês devem definir comportamentos que são inaceitáveis e prejudiciais ao relacionamento. Em muitos casos, a ajuda de um profissional de psicologia pode ser necessária.
É preciso criar estratégias e até um freio a comportamentos que minem e destruam o relacionamento. Fazer terapia é uma excelente ferramenta para reconstruir a confiança e promover uma comunicação mais clara e eficaz.
Para quem está praticando a Microtraição, algumas palavras:
A adrenalina e o mistério envolvidos nessa situação podem até parecer empolgantes no momento. O flerte discreto, as conversas escondidas e até mesmo a ideia de uma possível traição consumada criam uma ilusão de novidade e excitação. Mas já parou para pensar no que realmente está em jogo?
“Saiba que a traição emocional pode ser tão devastadora para um relacionamento quanto a traição física. Por experiência clínica, percebo que muitas pessoas consideram o envolvimento emocional com outra pessoa até mesmo mais doloroso do que a infidelidade sexual, pois afeta diretamente a confiança e a segurança dentro da relação.“
Relacionamentos têm altos e baixos, e alguns chegam ao fim naturalmente. No entanto, o grande problema aqui não é apenas a possibilidade de um término, mas sim a inconstância e a incerteza que esse tipo de comportamento gera entre você e seu parceiro(a). Será que vale a pena arriscar a estabilidade e o respeito construídos ao longo do tempo por momentos passageiros de euforia? Se você sente necessidade de buscar conexão fora do relacionamento, talvez seja hora de refletir sobre o que realmente deseja e, se necessário, buscar ajuda de um psicólogo para entender melhor seus sentimentos e tomar decisões mais conscientes.
Psicologia nas telas: O Impacto da Microtraição nos Relacionamentos
Embora a Microtraição possa parecer trivial, ela tem o potencial de criar rachaduras profundas na confiança de um casal. No filme Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love, 2011, dirigido por Glenn Ficarra e John Requa), vemos como pequenos desvios no comportamento de Cal (Steve Carell) e Emily (Julianne Moore) geram grandes conflitos. O distanciamento emocional, as mentiras não ditas e as comparações entre o relacionamento e outras pessoas resultam em uma crise no casamento. A história ilustra como a confiança pode ser abalada por comportamentos aparentemente pequenos, mas carregados de significados ocultos e segundas intenções.

Aqui estão alguns dos principais impactos da Microtraição que podemos refletir com este filme:
• Erosão da Confiança: Pequenos atos, como esconder mensagens ou flertar com outras pessoas, podem gerar dúvidas e insegurança, levando à desconfiança constante.
• Distanciamento Emocional: Quando a confiança é rompida, o casal pode sentir uma desconexão emocional, prejudicando a intimidade e o senso de cumplicidade.
• Desconexão emocional: É um veneno para o relacionamento. Os dias vão passando, a “poeira” vai ficando pelos cantos e o casal fica cada vez mais distante. Até que um dia, o lado que pratica a microtraição é descoberto.
• Conflitos Frequentes: As discussões sobre esses comportamentos podem se intensificar, gerando ressentimento e mágoa.
Conclusão
A Microtraição pode parecer inofensiva, mas seus efeitos podem ser devastadores para a confiança em um relacionamento. O segredo para lidar com esse desafio é a honestidade, o respeito e a abertura para o diálogo. Reconstruir a confiança é um processo, mas é possível com esforço mútuo e, quando necessário, a ajuda de um profissional.
Não deixe que o seu interesse em conversar ou ter amizades interfira no seu relacionamento. Combinem o que pode e o que não pode, ao invés de esconder e deixar a relação atual em segundo plano. Esteja pronto a recalcular o que o seu relacionamento atual significa e o quanto vale lutar por ele.
Não podemos entender ser normal trocar mensagens com outras pessoas e esconder, completamente, esse comportamento do(a) parceiro(a). Normatizar isso é um veneno para a vida dos casais e as redes sociais estão aí para mostrar. Quantas pessoas você conhece que já brigaram por contatos online? Pois é, perceba se você não poderá ser a próxima pessoa a passar por isso!
O ponto que fica e que gostaria que você absorvesse é que a Microtraição pode ser uma porta aberta, um caminho para a traição, a infidelidade conjugal, o estar fisicamente e ter intimidade sexual com outra pessoa fora do relacionamento. Questione-se sempre o que estiver fazendo, pois muitas vezes não há mais volta. Jogar fora uma relação de anos, com pequenos filhos, por uma simples aventura, é isso mesmo que você procura?
Está enfrentando dificuldades no seu relacionamento? Agende uma consulta e vamos trabalhar juntos para fortalecer sua relação e superar os desafios emocionais que podem estar minando a confiança!
Mensagem final:
Histórias como a de Pedro e Márcia são mais comuns do que se imagina, independente de gênero ou orientação sexual. No consultório, atendo frequentemente clientes que enfrentam dilemas como esse – tanto aqueles que se sentem traídos emocionalmente quanto os que não percebem o impacto de suas atitudes na saúde emocional do parceiro(a) e do relacionamento. A Microtraição pode parecer inofensiva à primeira vista, mas seus efeitos podem ser profundos, dolorosos e com graves consequências!
Se você se identificou com essa situação, seja na posição de Pedro ou de Márcia, talvez seja hora de refletir sobre os limites do seu relacionamento e, se necessário, buscar ajuda profissional para trabalhar essas questões, a fim de restaurar a confiança e a conexão no casal. O mais importante é não sofrer em silêncio, procurar um psicólogo pode te ajudar a entender melhor o que está acontecendo!
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Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
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Para citações:
ARAUJO, Leonardo Fd. Microtraição: seu relacionamento pode estar em risco. In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 10 mar. 2025. Disponível em: https://psicologoemcuritiba.com.br/2025/03/microtaicao/ Acesso em:
Brain Rot é eleita palavra do ano: o que isso tem a ver com saúde mental?
- Artigo publicado em: 4 dezembro, 2024
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Você já se pegou sentindo a mente pesada, como se estivesse estagnada, após horas rolando sem parar o feed do Instagram ou TikTok? Pois é, esse fenômeno tem nome: brain rot. E o termo, que pode ser traduzido como “cérebro apodrecido” ou “atrofia mental”, foi escolhido como a Palavra do Ano de 2024 pelo Dicionário de Oxford. Mais de 37 mil pessoas votaram e coroaram um termo que é praticamente o símbolo da era digital.
O que é Brain Rot?
O Dicionário de Oxford define brain rot como a deterioração do estado mental ou intelectual, causada pelo consumo excessivo de conteúdo considerado superficial ou pouco desafiador — basicamente, o efeito colateral de mergulhar em horas de vídeos curtos, memes e atualizações intermináveis.
Embora tenha ganhado popularidade recentemente, o conceito de brain rot não é tão novo. A expressão remonta ao escritor Henry David Thoreau, que em 1854 já criticava o desinteresse da sociedade por pensamentos profundos em favor de ideias simplórias. No clássico Walden, ele questionava: “Enquanto tentamos curar a praga da batata, quem tentará curar a praga do cérebro?”.
Uma Epidemia Moderna
O termo ressurgiu com força nos últimos anos, acompanhando o aumento das preocupações com o impacto do uso excessivo das redes sociais. As consequências não são apenas teóricas: uma provedora de saúde nos EUA já oferece tratamento para brain rot, alegando que a condição pode provocar sintomas como neblina mental, falta de energia, dificuldade de concentração e queda no desempenho cognitivo.
E o que causa isso? O excesso de tempo online, especialmente consumindo conteúdo de baixa qualidade ou passando de notícia ruim em notícia ruim. Os especialistas sugerem que práticas como limitar o tempo nas redes sociais e fazer um detox digital podem ajudar a prevenir o problema.
O Reflexo das Novas Gerações
O que torna brain rot tão interessante é o fato de que as gerações Z e Alpha adotaram o termo com uma dose de ironia. Mesmo sabendo que as redes sociais podem prejudicar a saúde mental, essas comunidades amplificaram o uso do termo no próprio ambiente que contribui para o problema.
Casper Grathwohl, presidente do departamento de linguagens de Oxford, destacou essa autoconsciência: “A escolha de brain rot reflete uma irreverência e uma percepção crítica das gerações mais jovens sobre os desafios digitais que enfrentam”.
Um Espelho da Cultura Digital
Além de brain rot, outras finalistas na votação incluíam palavras como lore (histórias ou mitos que ajudam a entender algo profundamente), romantasy (uma mistura de romance e fantasia) e slop (conteúdo de baixa qualidade gerado por IA). A popular demure, que bombou no TikTok, também estava entre as candidatas.
No ano passado, o termo escolhido foi rizz, gíria que define o “carisma” ou habilidade de flertar. Mas brain rot traz um novo foco para 2024: a urgência de discutir o impacto das nossas rotinas digitais.
O Que Isso significa para você e sua saúde mental?
Se você já sentiu que seu cérebro precisava de um reboot após um mergulho profundo nas redes sociais, talvez seja hora de reavaliar o seu tempo online. A palavra do ano é mais do que um simples termo — é um convite para refletir sobre a qualidade do conteúdo que consumimos e, principalmente, como usamos nosso tempo e energia mental.

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Para citações:
ARAUJO, Leonardo Fd. Brain Rot é eleita palavra do ano: o que isso tem a ver com saúde mental? In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 4 dez. 2024. Disponível em: https://psicologoemcuritiba.com.br/2024/12/brain-rot/
Jogo do Tigrinho: o alerta para o prejuízo emocional e financeiro
- Artigo publicado em: 24 outubro, 2024
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O Jogo do Tigrinho ganhou visibilidade no Brasil a partir de promessas de ganho rápido, divulgação intensa nas redes sociais e participação de influenciadores digitais.
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O que parece começar como uma brincadeira no celular pode evoluir para perdas financeiras, segredo, culpa, irritabilidade e conflitos familiares.
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A ludopatia, ou transtorno do jogo, não deve ser reduzida a falta de caráter: trata-se de um quadro que pode envolver perda de controle, compulsão e sofrimento emocional.
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Quando o jogo começa a afetar o orçamento, os vínculos e a rotina da casa, é importante buscar ajuda profissional de um psicólogo e construir limites concretos.
Jogo do Tigrinho: o alerta para o prejuízo emocional e financeiro
Tempo estimado de leitura: 7 minutos
Em pouco tempo, o chamado Jogo do Tigrinho deixou de ser apenas uma curiosidade das redes sociais e passou a ocupar um lugar preocupante na vida de muitas famílias brasileiras. Com aparência simples, linguagem sedutora e promessa de ganhos rápidos, esse tipo de jogo online encontrou um terreno fértil: o celular na mão, a ansiedade financeira, a influência de perfis digitais e a esperança de que uma aposta possa mudar tudo de uma hora para outra.
O problema é que, para muitas pessoas, a experiência não termina na diversão. Começa com pequenas apostas, passa pela tentativa de recuperar o dinheiro perdido e, em alguns casos, chega ao endividamento, às mentiras, aos conflitos conjugais, ao afastamento dos filhos e à sensação de vergonha. Aquilo que parecia ser apenas “um joguinho” pode se transformar em um ciclo silencioso de sofrimento.
Este artigo propõe uma reflexão sobre o avanço do Jogo do Tigrinho, especialmente a partir dos alertas que ganharam força no Brasil em 2023, e sobre como esse fenômeno tem interferido na saúde emocional, financeira e familiar de muitos brasileiros.
O que é o Jogo do Tigrinho?
O Jogo do Tigrinho é o nome popular pelo qual ficou conhecido o Fortune Tiger, um jogo online no formato de caça-níquel digital. Sua lógica é aparentemente simples: o jogador aposta dinheiro, aciona a rodada e espera que os símbolos se combinem para gerar algum prêmio.
A simplicidade visual é justamente uma das armadilhas. O jogo parece fácil de entender, rápido de acessar e inofensivo o suficiente para caber em qualquer intervalo do dia. Diferente de um cassino físico, que exige deslocamento, tempo e exposição social, o jogo online pode acontecer em silêncio: no sofá, na cama, no banheiro, durante o expediente, no intervalo do almoço ou de madrugada.
O perigo não está apenas na aposta em si, mas na facilidade com que ela se repete. A cada rodada, a pessoa pode sentir que está muito perto de recuperar o que perdeu.
Essa repetição rápida, somada à promessa de ganho imediato, pode criar um ciclo emocional intenso: expectativa, frustração, nova tentativa, perda, culpa e mais uma aposta para tentar “corrigir” o prejuízo anterior.
O alerta que ganhou força em 2023
Embora os jogos de azar online já circulassem antes, o Jogo do Tigrinho ganhou grande visibilidade no Brasil a partir de 2023, especialmente por meio das redes sociais e da divulgação feita por influenciadores digitais. Em reportagens exibidas naquele período, vieram à tona denúncias envolvendo promessas de ganho fácil, ostentação de dinheiro e suspeitas de uso de versões demonstrativas para simular resultados positivos.
Esse tipo de divulgação atinge diretamente um ponto sensível: o desejo humano de encontrar uma saída rápida para dificuldades financeiras. Para quem está endividado, inseguro, ansioso ou vivendo um período de baixa autoestima, a promessa de “virar o jogo” pode parecer mais do que entretenimento. Pode parecer uma oportunidade.
O problema é que a oportunidade, muitas vezes, se transforma em armadilha. A pessoa entra imaginando que pode ganhar um valor extra, mas, ao perder, passa a tentar recuperar o prejuízo. Essa tentativa de recuperação é uma das engrenagens mais perigosas do jogo problemático.
Quando o jogo deixa de ser diversão
Nem toda pessoa que aposta desenvolverá um transtorno do jogo. Porém, alguns sinais merecem atenção. O jogo começa a deixar de ser lazer quando passa a ocupar espaço demais na mente, no tempo, no dinheiro e nos vínculos.
Entre os sinais de alerta, podem aparecer:
- pensar constantemente no jogo ou nas perdas;
- apostar valores cada vez maiores;
- tentar parar e não conseguir;
- ficar irritado quando alguém questiona o comportamento;
- mentir sobre valores apostados;
- pedir dinheiro emprestado para pagar dívidas;
- usar cartão, cheque especial, empréstimos ou dinheiro da família;
- tentar recuperar perdas com novas apostas;
- sentir vergonha, culpa ou desespero depois de jogar.
Na prática clínica, é comum que a família perceba primeiro os efeitos indiretos: mudanças de humor, sumiços financeiros, atrasos em contas, isolamento, irritabilidade, mentiras pequenas e um comportamento mais defensivo quando o assunto dinheiro aparece.
O impacto dentro das famílias
O Jogo do Tigrinho não afeta apenas quem joga. Ele pode atingir todo o sistema familiar. Quando o dinheiro desaparece, a confiança também começa a ser comprometida. Em muitos casos, o familiar não sofre apenas pela dívida, mas pela sensação de ter sido enganado.
A companheira ou o companheiro pode descobrir empréstimos escondidos, movimentações estranhas no Pix, compras parceladas, uso do limite do cartão ou pedidos de dinheiro para terceiros. Pais podem perceber que o filho adolescente ou jovem adulto está mais irritado, fechado ou ansioso. Filhos podem notar discussões constantes em casa sem entender exatamente o motivo.
Quando o jogo entra pela porta do segredo, muitas vezes ele sai pela porta do conflito familiar.
A família costuma alternar entre raiva, medo, proteção e desespero. Alguns familiares tentam resolver pagando dívidas. Outros partem para ameaças. Há ainda quem silencie por vergonha. Nenhuma dessas reações é incompreensível. Porém, quando não existe um plano claro, a família pode acabar presa ao mesmo ciclo: descoberta, promessa, pagamento, recaída e nova crise.
Por que é tão difícil simplesmente parar?
Para quem está de fora, pode parecer simples: “é só desinstalar o aplicativo”, “é só bloquear o cartão”, “é só parar de jogar”. Mas, quando o comportamento já assumiu características compulsivas, a situação se torna mais complexa.
O transtorno do jogo envolve uma relação problemática com a aposta, marcada pela repetição do comportamento apesar dos prejuízos. A pessoa pode reconhecer que está perdendo dinheiro, que está ferindo a família e que precisa parar. Mesmo assim, sente uma pressão interna para continuar. Em muitos casos, joga não apenas para ganhar, mas para aliviar ansiedade, fugir de problemas, recuperar perdas ou reduzir uma sensação de fracasso.
Isso não significa retirar a responsabilidade da pessoa. Significa compreender que responsabilidade e cuidado precisam caminhar juntos. A pessoa precisa assumir as consequências, mas também precisa de tratamento, limites externos e reorganização da vida.
A armadilha da recuperação de perdas
Um dos pontos mais importantes para entender o Jogo do Tigrinho é a tentativa de recuperar o que foi perdido. A pessoa aposta R$ 50, perde, tenta recuperar com mais R$ 100, perde novamente e aumenta a aposta. Em pouco tempo, o problema deixa de ser ganhar dinheiro e passa a ser desfazer o prejuízo.
Essa lógica é emocionalmente poderosa porque mistura vergonha, esperança e urgência. A pessoa pensa: “se eu ganhar agora, resolvo tudo e ninguém precisa saber”. Mas, ao tentar esconder a perda, muitas vezes aumenta ainda mais o tamanho do problema.
É nesse momento que surgem comportamentos de maior risco: mentiras, empréstimos, venda de objetos, uso de dinheiro da casa, pedidos insistentes a familiares e, em alguns casos, envolvimento com dívidas difíceis de controlar.
Como conversar com alguém que está preso ao jogo?
A conversa precisa ser firme, mas não humilhante. A humilhação pode aumentar a vergonha e levar a mais segredo. Por outro lado, a permissividade pode alimentar o ciclo. O caminho mais saudável costuma estar entre esses dois extremos: acolher a pessoa, mas estabelecer limites objetivos.
Algumas orientações podem ajudar:
- evite discutir apenas no auge da crise;
- fale sobre fatos concretos, como valores, datas e consequências;
- não transforme a conversa em ataque moral;
- não assuma dívidas sem um plano de tratamento e controle;
- combine limites financeiros claros;
- incentive ajuda psicológica e, se necessário, avaliação psiquiátrica;
- proteja crianças e adolescentes da exposição ao jogo;
- busque apoio também para os familiares afetados.
A família não precisa resolver tudo sozinha. Muitas vezes, o familiar também está adoecido pela tensão, pela vigilância constante, pela frustração e pelo medo de uma nova recaída.
O que pode ajudar no tratamento?
O tratamento da ludopatia / transtorno de jogo envolve diferentes frentes. A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender gatilhos emocionais, impulsividade, vergonha, pensamentos distorcidos sobre ganho e perda, além de construir estratégias práticas para interromper o ciclo do jogo.
Também pode ser necessário organizar medidas externas, como bloqueios de acesso, limitação de movimentações financeiras, acompanhamento familiar, planejamento de dívidas e participação em grupos de apoio. Em alguns casos, uma avaliação médica ou psiquiátrica pode ser indicada, especialmente quando há ansiedade intensa, depressão, uso de substâncias, impulsividade importante ou risco de autoagressão.
O ponto central é entender que o tratamento não se resume a “parar de jogar”. A recuperação envolve reconstruir rotina, confiança, responsabilidade financeira, diálogo familiar e formas mais saudáveis de lidar com frustração, vazio, ansiedade e desejo de recompensa imediata.
Quando procurar ajuda?
É importante procurar ajuda quando o jogo começa a gerar sofrimento, dívida, segredo ou prejuízo nos relacionamentos amorosos e familiares. Também é sinal de alerta quando a pessoa promete parar, mas volta a jogar; quando precisa mentir sobre valores; quando usa dinheiro destinado a outras responsabilidades; ou quando o humor passa a depender do resultado das apostas.
Quanto mais cedo o problema é reconhecido, maiores são as chances de reorganização. Esperar “chegar ao fundo do poço” pode tornar o caminho mais doloroso para todos.
Pedir ajuda não apaga as consequências do jogo, mas pode ser o primeiro passo para interromper o ciclo e reconstruir a confiança.
Considerações finais
O avanço do Jogo do Tigrinho mostrou como os jogos de azar online podem entrar rapidamente no cotidiano das pessoas. Com poucos cliques, a aposta se instala no celular, no orçamento e, muitas vezes, no silêncio da casa. O que começa como curiosidade pode se transformar em dependência comportamental, especialmente quando a pessoa tenta compensar perdas, esconder prejuízos e buscar no jogo uma solução emocional ou financeira.
Por isso, é fundamental olhar para esse fenômeno sem ingenuidade e sem moralismo. A ludopatia não deve ser reduzida a falta de caráter, mas também não pode ser tratada como algo sem consequências. Ela exige responsabilidade, cuidado, limites e tratamento adequado.
Se o jogo passou a ocupar espaço demais na sua vida ou na vida de alguém próximo, talvez seja o momento de conversar com um profissional. A psicoterapia pode ajudar a compreender o ciclo, organizar estratégias de enfrentamento e construir um caminho mais seguro para a pessoa e para sua família.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Sobre o autor
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
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Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is Gambling Disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.
FANTÁSTICO. Propagandas fraudulentas do “Jogo do Tigrinho” invadem celulares e redes sociais. Globoplay, 2024. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/12701641/.
CORREIO BRAZILIENSE. “Jogo do Tigrinho”: como agiam e quem são os investigados. Brasília, 04 dez. 2023. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2023/12/6664845-jogo-do-tigrinho-como-agiam-e-quem-sao-os-investigados.html.
MINISTÉRIO DA FAZENDA. Jogo Responsável. Brasília: Secretaria de Prêmios e Apostas, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/jogo-responsavel.
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO. Os divórcios motivados pelo vício em bets e Jogo do Tigrinho: “meu marido vendeu nossa casa”. Cuiabá, 2024. Disponível em: https://www.mpmt.mp.br/portalcao/news/730/147750/os-divorcios-motivados-pelo-vicio-em-bets-e-jogo-do-tigrinho-meu-marido-vendeu-nossa-casa/274.
Ghosting: O Silêncio Ensurdecedor que Ecoa no Coração
- Artigo publicado em: 4 outubro, 2024
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Um novo fantasma ronda os relacionamentos atuais: o ghosting
Em tempos de conexões instantâneas e conversas rápidas, essa prática tem se tornado frequente, que consiste em desaparecer subitamente da vida de alguém sem dar explicações, tem se tornado cada vez mais comum, deixando para trás um rastro de dúvidas, inseguranças e corações feridos. Ghosting é um termo inglês que se refere ao ato de ignorar alguém sem dar explicações ou aviso prévio. A palavra deriva de “ghost”, que significa “fantasma” em português. Mas como entender esse comportamento que transforma o silêncio em uma presença incômoda e dolorosa?
Imagine a seguinte situação: você conhece alguém interessante, a conversa flui, a conexão parece promissora. O palco pode ser um aplicativo de relacionamento como o Tinder, ou até mesmo alguém que você conheceu de outra forma. Mensagens são trocadas diariamente, emojis apaixonados colorem a tela do celular, planos começam a ser traçados. Então, do nada, o silêncio. Mensagens visualizadas e não respondidas, ligações que caem na caixa postal, a presença online que se torna um fantasma. Você tenta entender o que aconteceu, revira as conversas em busca de um sinal, uma pista, uma justificativa. Mas o silêncio é a única resposta. Você se torna um detetive investigando migalhas de atenção, torturado pela falta de um ponto final.
O ghosting, apesar de aparentemente simples e indolor para quem o pratica, pode ter um impacto profundo na saúde mental e emocional de quem é ignorado.

A falta de uma explicação clara gera um turbilhão de sentimentos conflitantes:
• Rejeição: A sensação de descarte, de não ser importante o suficiente para merecer ao menos uma despedida.
• Insegurança: “O que eu fiz de errado?”, “Eu não sou suficientemente bom?”. As dúvidas corroem a autoestima, gerando ansiedade e insegurança nas próximas relações.
• Culpa: A tendência natural é buscar as razões para o sumiço em si mesmo, questionando atitudes e comportamentos. “E se eu tivesse dito ou feito algo diferente?”.
• Dificuldade em seguir em frente: Sem um ponto final, a mente cria cenários e expectativas, alimentando a esperança de uma reconciliação que dificilmente virá. A ferida fica aberta, atrapalhando a superação e a possibilidade de novos encontros.
Lidando com o fantasma do silêncio:
A situação foge do controle, por mais que a pessoa queira manter contato, do outro lado só o silêncio. É importante refletir sobre alguns pontos para tentar minimizar os danos emocionais.
• Reconheça seus sentimentos: Negar a dor ou minimizar a importância do que aconteceu só irá prolongar o sofrimento. Permita-se sentir a tristeza, a raiva, a frustração. Toda reparação, toda a cura emocional precede algum nível de dor. É importante vivenciar isso e entender o caminho a seguir.
• Quebre o ciclo da culpa: O ghosting diz mais sobre quem o pratica do que sobre quem é ignorado. Lembre-se que você não pode controlar as ações do outro, apenas as suas. Nesse sentido, libertar-se de sentimentos de insuficiência, ou mesmo de “não sou tão bom para a pessoa” é um caminho para quebrar esse ciclo.
• Estabeleça limites: Se a pessoa reaparecer como se nada tivesse acontecido, converse abertamente sobre o ocorrido e seus sentimentos. Deixe claro que esse tipo de comportamento é inaceitável para você. A autopreservação deve ser uma tônica, pois assim, com você em primeiro lugar, fica mais fácil dizer não!
• Concentre-se em sua recuperação: Invista em atividades prazerosas, fortaleça os laços com amigos e familiares, e procure ajuda de um psicólogo se sentir necessidade. A terapia pode te ajudar a lidar com as emoções dolorosas, a reconstruir sua autoestima e a desenvolver relacionamentos mais saudáveis.
Ghosting nas telas:
“Ele” (Her, 2013) de Spike Jonze.
O filme, estrelado por Joaquin Phoenix (Theodore), explora a relação de um homem solitário com um sistema operacional dotado de inteligência artificial chamado Samantha (voz de Scarlett Johansson). Apesar de não ser o tema central, o filme ilustra de forma sensível o impacto de um “desaparecimento” abrupto em um relacionamento, mesmo que nesse caso seja um sistema operacional quem rompe o contato.

Conclusão:
O ghosting, embora pareça ser uma prática simples e cada vez mais comum na era digital, deixa marcas profundas naqueles que o vivenciam. É fundamental romper o silêncio que aprisiona a dor do ghosting, acolhendo os sentimentos, ressignificando a culpa e reconhecendo o valor próprio. Buscar apoio profissional pode ser o primeiro passo para trilhar um caminho de cura, aprendendo a construir relações mais saudáveis e conscientes, livres do fantasma do silêncio.
No consultório o tema é bastante frequente, o mais importante é falar, trabalhar a questão de forma saudável a fim de supera-la! Lembre-se: você merece respeito, clareza e afeto genuíno em suas relações. Não hesite em buscar ajuda para superar as feridas do ghosting e abrir seu coração para conexões mais autênticas. Agende uma consulta e descubra como a terapia pode te auxiliar nesse processo! Pode contar comigo!
Leonardo Fd Araujo – Doctoralia.com.br
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