Jogo patológico é falta de caráter ou um problema de saúde mental?
- Artigo publicado em: 5 agosto, 2025
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O jogo patológico, também chamado de transtorno do jogo ou Ludopaia, não deve ser reduzido a falta de caráter, fraqueza moral ou simples irresponsabilidade.
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A ludopatia envolve perda de controle, tentativas frustradas de parar, mentiras, prejuízos financeiros e sofrimento emocional.
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Compreender o transtorno não significa retirar responsabilidade da pessoa, mas criar condições reais para tratamento, limite e reparação.
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A família pode ter papel fundamental na recuperação, especialmente quando recebe orientação psicológica para apoiar sem sustentar o ciclo das apostas.
Jogo patológico é falta de caráter ou um problema de saúde mental?
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
Quando uma família descobre que alguém está envolvido com apostas, dívidas, mentiras e perdas financeiras, uma das primeiras reações costuma ser a indignação. É comum surgirem frases como: “Como ele teve coragem?”, “Por que não parou antes?”, “Isso é falta de vergonha”, “É falta de caráter”, “Jogou porque quis”. São muitas a reações diante de um verdadeiro buraco que se abre no meio da sala de casa. Por ele, escorrem sonhos, planos, sentimentos e confiança.
Essas reações são compreensíveis. A família, muitas vezes, está ferida, assustada e cansada. Em alguns casos, descobre que contas foram atrasadas, cartões foram usados escondidos, empréstimos foram feitos sem conversa ou que valores importantes simplesmente desapareceram. Quando a confiança é quebrada, a dor não é apenas financeira; é emocional.
Mas, do ponto de vista clínico, é importante fazer uma distinção fundamental: o transtorno do jogo não é simplesmente falta de caráter. Também não deve ser tratado apenas como “fraqueza moral” ou “irresponsabilidade”. A ludopatia é um problema de saúde mental reconhecido em classificações diagnósticas, marcado por perda de controle, continuidade do comportamento apesar dos prejuízos e sofrimento significativo.
Isso não significa passar a mão na cabeça ou negar as consequências. Pelo contrário. Compreender o transtorno é justamente o que permite sair do ciclo de acusação, promessa, recaída e nova crise. É a partir dessa compreensão que a família, o paciente e os profissionais de saúde podem construir um caminho mais firme, consciente e realista de recuperação.
Por que a família costuma enxergar como falta de caráter?
A família geralmente não vê o início silencioso do problema. O que ela vê é o estrago: a dívida, a mentira, o sumiço do dinheiro, o comportamento defensivo, a irritabilidade, a promessa não cumprida. Por isso, é natural que a primeira interpretação seja moral. Um sábado de tarde, a família comendo pipoca e assistindo a um filme na tv, tudo parece normal. Mas no sofá ao lado o pai de família está torrando os últimos centavos de sua conta. O jogo não tem cheiro, não deixa os olhos perdidos, não precisa ir na boca de fumo buscar algo para jogar. Está tudo ali, na palma das mãos pelo celular.
Quando alguém mente sobre dinheiro, vende objetos, faz empréstimos escondidos ou usa recursos da casa para apostar, a família sente que houve uma escolha consciente contra o vínculo familiar. A dor é real. A quebra de confiança também.
No entanto, no transtorno do jogo, a pessoa pode estar presa a um ciclo de impulso, vergonha, tentativa de recuperar perdas e novas apostas. Ela sabe que está fazendo mal, mas sente dificuldade intensa de interromper o comportamento. Muitas vezes, joga não apenas para ganhar, mas para tentar “consertar” o prejuízo anterior, aliviar ansiedade, fugir de sentimentos difíceis ou recuperar uma sensação momentânea de controle.
A família enxerga a mentira. Na terapia, o Psicólogo irá ajudar a investigar o ciclo que levou à mentira.
O que caracteriza o transtorno do jogo?
O transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, envolve uma relação persistente e problemática com apostas, mesmo quando elas já estão causando prejuízos importantes. Não se trata apenas de apostar eventualmente ou perder dinheiro em uma situação isolada.
Alguns sinais merecem atenção:
- pensar constantemente em apostas, resultados ou perdas anteriores;
- apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma excitação;
- tentar parar ou reduzir e não conseguir;
- ficar irritado, ansioso ou inquieto quando tenta interromper o jogo;
- apostar para aliviar tristeza, culpa, estresse ou sensação de vazio;
- tentar recuperar perdas com novas apostas;
- mentir para familiares sobre tempo ou dinheiro gasto;
- prejudicar relacionamento, trabalho, estudo ou vida financeira;
- depender de outras pessoas para obter dinheiro ou cobrir dívidas causadas pelo jogo.
Na prática, o transtorno do jogo costuma aparecer como uma sequência: a pessoa aposta, perde, sente culpa, tenta recuperar, perde de novo, esconde, promete parar, volta a apostar e entra em nova crise. O problema não está apenas no ato de jogar, mas na dificuldade de sair desse circuito.
Não é falta de caráter, mas também não é ausência de responsabilidade
Um cuidado importante é não transformar a explicação clínica em desculpa. Dizer que a ludopatia é um problema de saúde mental não significa afirmar que a pessoa não tem responsabilidade. Significa reconhecer que a responsabilidade precisa ser trabalhada dentro de um plano de tratamento.
A pessoa que sofre com transtorno do jogo precisa assumir o impacto de suas escolhas, reparar danos quando possível, reorganizar a vida financeira, aceitar limites e participar ativamente do tratamento. Ao mesmo tempo, ela precisa ser compreendida como alguém que pode estar adoecido, não apenas como alguém “sem caráter”.
Compreender não é justificar. Acolher não é permitir. Tratar não é apagar consequências.
Essa distinção muda tudo. Quando a família fica apenas na acusação, a pessoa pode se esconder ainda mais. Quando a família apenas protege e paga dívidas, pode sustentar o ciclo. O caminho mais saudável exige uma combinação de apoio, limite, tratamento e responsabilidade. Tudo isso é possível a partir da orientação de um Psicólogo. Receber informações de qualidade, entender como calibrar a mão contra o jogo e, principalmente, atuar ativamente no resgate do ente querido.
A vergonha como combustível do problema
A vergonha é uma das emoções mais presentes no transtorno do jogo. A pessoa sente vergonha de ter perdido dinheiro, de ter mentido, de ter decepcionado a família e de não conseguir parar. Muitas vezes, essa vergonha não leva à mudança imediata. Pelo contrário: ela pode levar ao isolamento e a novas apostas, uma tentativa de “resolver tudo”.
O pensamento pode ser mais ou menos assim: “Se eu conseguir ganhar agora, recupero o dinheiro e ninguém precisa saber”. Essa tentativa de apagar o erro com uma nova aposta é uma das armadilhas mais perigosas da ludopatia.
Por isso, humilhação, xingamentos e exposição pública raramente ajudam. Eles podem até parecer uma forma de “dar um choque de realidade”, mas muitas vezes aumentam a vergonha, a defensividade e o segredo. A conversa precisa ser firme, mas precisa preservar algum espaço de diálogo.

O papel fundamental da família na recuperação
A família pode ser uma das partes mais importantes no processo de recuperação. Não porque ela deva controlar tudo, fiscalizar cada passo ou assumir a responsabilidade pelo tratamento, mas porque ela pode ajudar a construir uma rede de apoio firme e consciente.
A intervenção da família precisa ser estruturada, caso contrário toma um corpo de tribunal, de inquisição. A ideia é justamente o contrário, jogar luz ao problema do jogo e deixar claro que todos estão dispostos a correr atrás de uma solução.
Quando bem orientada, a família pode ajudar a pessoa a sair do isolamento, reconhecer o problema, buscar tratamento, organizar limites financeiros e enfrentar as consequências de forma mais estruturada. Em muitos casos, é o familiar que percebe os sinais antes, faz a primeira conversa e ajuda a pessoa a aceitar que precisa de ajuda.
Mas a família também precisa tomar cuidado para não se transformar, sem perceber, em parte do ciclo. Isso acontece quando paga dívidas repetidamente sem nenhum plano, empresta dinheiro sem limite, encobre comportamentos, acredita em promessas vagas ou assume toda a responsabilidade que deveria ser compartilhada com o paciente. Esse tipo de atuação acaba por reforçar o comportamento disfuncional da pessoa com problema de jogo.
A família não deve ser caixa eletrônico, polícia ou plateia do sofrimento. Ela precisa ser rede de apoio com limite, clareza e orientação.
Apoiar não é sustentar o ciclo
Um dos maiores desafios familiares é entender a diferença entre ajudar e alimentar o problema. Ajudar não significa pagar toda dívida imediatamente, liberar acesso irrestrito ao dinheiro ou aceitar novas promessas sem mudança concreta.
Apoiar pode significar:
- acompanhar a pessoa na busca por tratamento. Auxiliar a encontrar um Psicólogo que atenda casos de ludopatia / transtorno do jogo;
- participar de orientações familiares quando indicado;
- ajudar a mapear dívidas e riscos financeiros;
- combinar limites claros sobre dinheiro, cartão, Pix e empréstimos;
- evitar humilhação, exposição e ameaças vazias;
- não pagar novas dívidas sem plano de cuidado e proteção;
- proteger crianças e adolescentes da tensão e dos efeitos do problema;
- observar sinais de depressão, desesperança ou risco de autoagressão.
Em alguns casos, pode ser necessário que a família ajude a restringir temporariamente o acesso da pessoa a recursos financeiros. Isso não deve ser feito como punição, mas como medida de proteção dentro de um plano combinado e, preferencialmente, orientado pelo Psicólogo.
O papel do Psicólogo na orientação familiar
O Psicólogo tem um papel importante não apenas no atendimento da pessoa com problema com jogo, mas também na orientação da família. Muitas vezes, os familiares chegam confusos, com raiva, medo, culpa e sem saber como agir. Alguns querem controlar tudo. Outros querem desistir. Outros, ainda, seguem tentando resolver financeiramente aquilo que precisa ser tratado clinicamente.
A orientação psicológica familiar ajuda a construir uma linha de apoio mais forte e consciente. Esse trabalho pode incluir:
- psicoeducação sobre ludopatia e transtorno do jogo;
- identificação de sinais de recaída e comportamentos de risco;
- organização de limites financeiros e familiares;
- orientação sobre como conversar sem humilhar e sem ceder demais;
- apoio para lidar com raiva, frustração, medo e quebra de confiança;
- construção de um plano de prevenção de recaídas;
- encaminhamento para avaliação médica ou psiquiátrica quando necessário;
- fortalecimento da rede de apoio e da corresponsabilidade no cuidado.
Esse ponto é essencial: a família precisa aprender a ajudar sem adoecer junto. O tratamento não pode depender apenas da vigilância familiar, mas a família também não precisa permanecer sozinha, perdida entre a raiva e a culpa.
Uma linha forte e consciente de apoio
A recuperação exige uma linha de apoio que seja, ao mesmo tempo, humana e firme. Humana, porque a pessoa que sofre com ludopatia muitas vezes está tomada por vergonha, ansiedade, medo e desorganização. Firme, porque o transtorno do jogo se alimenta de brechas, impulsos e promessas sem sustentação.
Uma linha familiar forte pode funcionar com alguns princípios:
- clareza: todos precisam entender qual é o problema e quais são os riscos;
- limite: dinheiro, acesso a crédito e novas dívidas precisam ser tratados com objetividade;
- consistência: a família precisa evitar ameaças que não serão cumpridas e acordos que mudam a cada crise;
- acolhimento: a pessoa precisa encontrar espaço para falar sem ser destruída pela vergonha;
- responsabilidade: o paciente precisa participar do tratamento e assumir consequências reais;
- proteção: a família precisa proteger o orçamento, os filhos, os vínculos e a própria saúde emocional.
Esse tipo de apoio não se constrói apenas com boa intenção. Ele exige orientação, conversas difíceis e decisões práticas. Muitas famílias precisam aprender a sair do ciclo de crise e entrar em uma lógica de tratamento.
E quando a pessoa não aceita ajuda?
Nem sempre a pessoa reconhece o problema no primeiro momento. Algumas minimizam perdas, culpam o azar, dizem que estão “quase recuperando”, prometem parar depois da próxima aposta ou afirmam que a família está exagerando.
Nesses casos, a família não precisa esperar passivamente. Mesmo que a pessoa ainda não aceite tratamento, os familiares podem buscar orientação psicológica para entender como agir, quais limites estabelecer, como se proteger financeiramente e como conversar de forma mais estratégica.
A mudança de postura da família pode ser um ponto de virada. Quando familiares deixam de apenas reagir emocionalmente e passam a agir com clareza, o ciclo pode começar a perder força.
Quando o risco exige atenção imediata
O transtorno do jogo pode estar associado a sofrimento intenso, depressão, ansiedade, uso de álcool ou outras drogas, endividamento grave e pensamentos de morte. Por isso, qualquer fala sobre suicídio, desesperança extrema ou impossibilidade de continuar vivendo deve ser tratada com seriedade.
Nessas situações, a família deve acionar ajuda imediata. No Brasil, em situações de risco, é possível procurar uma emergência, UPA, hospital, SAMU pelo 192 ou o Centro de Valorização da Vida – CVV pelo 188. A psicoterapia é importante, mas crises agudas exigem proteção imediata e rede de cuidado.
Considerações finais
Chamar o jogo patológico de falta de caráter pode até expressar a dor da família, mas não ajuda a compreender o problema em sua profundidade. A ludopatia é um quadro complexo, que envolve comportamento, emoção, impulso, vergonha, perdas financeiras, vínculos familiares e sofrimento psíquico.
Ao mesmo tempo, compreender a ludopatia como problema de saúde mental não significa retirar responsabilidade da pessoa. O tratamento precisa incluir compromisso, limites, reparação possível, reorganização financeira e mudanças concretas de comportamento.
A família tem papel fundamental nesse processo. Quando orientada, ela pode deixar de ser apenas espectadora da crise e passar a compor uma rede de apoio firme, consciente e protetiva. O psicólogo pode ajudar nessa construção, oferecendo escuta, psicoeducação, orientação familiar e estratégias para prevenção de recaídas.
Se o jogo passou a gerar dívida, mentira, sofrimento, conflitos ou perda de controle, talvez seja o momento de buscar ajuda. O caminho da recuperação não começa com julgamento. Começa com reconhecimento, responsabilidade e cuidado.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
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Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Gambling Disorder. Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is Gambling Disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Gambling. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/gambling.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Addictive behaviour. Geneva: WHO, s.d. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/addictive-behaviour.
Lei da Atração e Psicologia: Como Seus Pensamentos Moldam Sua Realidade
- Artigo publicado em: 3 junho, 2025
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Descubra como seus pensamentos moldam sua realidade à luz da psicologia. A “trilha sonora da mente” influencia emoções, decisões e experiências no seu dia a dia.
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O jeito como você pensa e se sente define o “clima” do seu dia.
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Pensamentos funcionam como trilha sonora da vida: influenciam emoções e comportamentos.
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Viés de confirmação e efeito priming explicam como atraímos o que focamos.
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Ao mudar seu estado interno, você transforma sua percepção e suas escolhas.
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Lei da Atração: Como a Forma de se Enxergar Transforma sua Realidade
Leia o artigo completo: tempo de leitura 6 minutos
A trilha sonora da sua mente molda sua experiência
Já percebeu como alguns dias parecem fluir melhor do que outros, mesmo sem grandes mudanças externas? Muito disso tem a ver com o tom e o ritmo dos nossos pensamentos — aquilo que a chamada lei da atração ajuda a ilustrar de forma simbólica, mas poderosa.
Imagine que sua vida é como um filme, e o seu estado mental define a trilha sonora que embala esse enredo. Se você começa o dia mentalmente sintonizado no “rock pesado” — ansiedade, pressa, frustração — tudo à sua volta tende a se harmonizar com essa vibração. Os acontecimentos não mudam magicamente, mas sua forma de interpretá-los sim. E isso muda tudo.
Não tem como viver um dia fluido, sereno e leve se a música de fundo da sua mente está em ritmo de guerra. A trilha do seu dia — ou seja, sua perspectiva, seus pensamentos, suas emoções — influencia diretamente a maneira como você percebe, reage e constrói a sua experiência.
O que a psicologia tem a dizer sobre isso?
Embora a lei da atração seja muitas vezes associada a conceitos esotéricos, há fundamentos psicológicos que ajudam a compreender por que e como ela pode fazer sentido na prática.
Um deles é o viés de confirmação — um fenômeno cognitivo descrito por Raymond Nickerson (1998), que mostra como tendemos a focar, lembrar e interpretar as informações de maneira a confirmar nossas crenças prévias. Se você acredita que “nada dá certo na sua vida”, seu cérebro, de forma inconsciente, vai reforçar essa narrativa, filtrando a realidade a partir desse padrão. Por outro lado, ao cultivar uma perspectiva mais otimista e construtiva, você passa a perceber mais oportunidades, alternativas e caminhos.
Outro conceito relevante é o efeito priming (ou efeito de ativação), pesquisado por John Bargh e colaboradores, que mostra como estímulos sutis — inclusive os pensamentos — influenciam nossas decisões e comportamentos posteriores. Quando você começa o dia visualizando intenções positivas ou repetindo afirmações saudáveis, está, na prática, criando um “estado mental propício” para reagir de forma mais alinhada com seus objetivos.
Sua trilha, seu ritmo, sua experiência
Assim como escolher uma música pode mudar completamente o clima de uma caminhada ou de uma tarde em casa, o tom dos seus pensamentos pode mudar o clima da sua realidade. Isso não quer dizer ignorar problemas ou viver num otimismo inconsequente ou tóxico. A ideia aqui é aprender a modular seu estado interno para que você não seja apenas um espectador do que acontece, mas alguém que conduz com mais consciência a própria jornada.
Você pode continuar ouvindo o mesmo ritmo frenético, achando que a vida é assim mesmo — ou pode experimentar ajustar o volume, mudar o estilo e ver o que acontece.
Um exercício simples para mudar sua trilha sonora interna
No início do seu dia, feche os olhos por alguns minutos e imagine como gostaria que ele fluísse. Tente visualizar, com detalhes, você lidando com suas tarefas de forma calma, produtiva e com boa energia. Imagine as emoções, as expressões faciais, até a postura do seu corpo. Depois, escolha uma palavra ou frase que represente essa intenção. Use-a como um “mantra mental” ao longo do dia.
Isso não é ilusão. É treino. E quanto mais você pratica, mais natural se torna essa mudança de frequência. Aliar esse tipo de exercício imaginativo a práticas meditativas pode ser uma excelente forma de começar o seu dia.
Um convite à reflexão através do cinema

Uma forma sensível de se reconectar com esse tema é através do filme “A Vida Secreta de Walter Mitty” (The Secret Life of Walter Mitty, 2013). Nele, acompanhamos a um homem preso à rotina e aos próprios pensamentos limitantes, que aos poucos começa a visualizar uma vida diferente — até que se permite vivê-la.
A mudança de realidade, neste caso, começa dentro. É quando ele troca a “trilha mental” do medo e da monotonia por uma mais aventureira e autêntica, que a sua experiência externa começa a se transformar. Assistir a esse filme pode ser uma inspiração para perceber como pequenos ajustes internos têm grande impacto na vida real.
Conclusão: Mais do que pensar positivo, é pensar com consciência
A lei da atração, sob o olhar da psicologia, pode ser entendida como um convite à autorresponsabilidade, à clareza mental e ao cultivo de intenções coerentes com seus desejos mais profundos. Não se trata de pensar positivo o tempo todo, mas de escolher com mais atenção o que você alimenta dentro de si.
A trilha sonora da sua mente pode ser ajustada — e isso influencia diretamente como você vive, reage, cria e se relaciona. Comece aos poucos, com pequenos rituais mentais, mudanças de perspectiva e espaço para novos olhares. Lembre-se que é importante tirar um tempo para si, dar espaço para que esse tipo de reflexão aconteça.
E se você sente que está difícil mudar essa trilha sozinho, considere buscar apoio profissional. A psicoterapia é um espaço seguro para reorganizar seus pensamentos, curar padrões repetitivos e construir uma forma mais leve e autêntica de viver.
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Sua mente pode ser seu melhor aliado — desde que você esteja disposto a escutá-la com mais cuidado. Agende uma conversa e vamos caminhar juntos rumo à sua cura emocional. Pode contar comigo!
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Para citações:
ARAUJO, Leonardo Fd. Lei da Atração e Psicologia: Como Seus Pensamentos Moldam Sua Realidade In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 03 jun. 2025. Disponível em: https://psicologoemcuritiba.com.br/2025/06/lei-da-atracao-e-psicologia/
Referências
NICKERSON, R. S. (1998). Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises. Review of General Psychology, 2(2), 175–220.
BARGH, J. A., & CHARTRAND, T. L. (1999). The Unbearable Automaticity of Being. American Psychologist, 54(7), 462–479.
Solidão no pós-término: como se recuperar emocionalmente?
- Artigo publicado em: 28 maio, 2025
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Resumo do artigo:
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Sentir-se sozinho após o fim de um relacionamento é mais comum do que parece.
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Vivenciar o luto amoroso é essencial para elaborar a perda e seguir em frente.
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Autoconhecimento e autocuidado são aliados poderosos nesse processo.
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Filmes podem ajudar a refletir e encontrar conforto emocional durante essa fase.
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O psicólogo Leonardo Fd Araujo oferece atendimento psicológico com opção presencial em Curitiba ou On-line para todo o Brasil, de forma rápida e prática.
Solidão no pós-término: como se recuperar emocionalmente?
Leia o artigo completo: tempo de leitura 6 minutos
Recebi uma dúvida sobre “solidão no pós término” do leitor, o A.D. , homem, 42 anos:
“Leonardo, desde que terminei um relacionamento de mais de 15 anos me sinto sozinho. Já se passaram mais de 7 meses, mesmo estando com pessoas, amigos e saindo com algumas garotas, a solidão está sendo pesada para lidar. Gostaria que falasse mais sobre isso! É normal sentir-se assim ou estou exagerando?”:
Então vamos lá, esse artigo é para responder essa dúvida do nosso leitor e que pode ser também a sua! Como se trata da dúvida de um leitor homem, vou direcionar a resposta ao público masculino. Porém, fica fácil de perceber que alguns dos pontos se fundem e são inerentes a ambos os gêneros.
O fim de um relacionamento pode ser um dos momentos mais desafiadores da vida de um homem. Para muitos, a dor do término não se limita à perda da parceira, mas também às consequências emocionais que vêm junto com ele: a solidão, a dúvida sobre o futuro e a dificuldade de expressar o sofrimento. Homens, de maneira geral, foram ensinados a engolir o choro e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Mas ignorar a dor pode fazer com que ela se transforme em um problema ainda maior.
A solidão após o término: um peso invisível
Uma pesquisa do Instituto Gallup (2023)* revelou que os homens têm redes de apoio significativamente menores do que as mulheres. Enquanto muitas mulheres contam com amigas próximas para dividir emoções, grande parte dos homens tende a se isolar. Esse isolamento emocional pode levar a um aumento nos sintomas de ansiedade e depressão, tornando o período pós-término ainda mais desafiador.
Sem um espaço seguro para falar sobre suas emoções, muitos recorrem a estratégias ineficazes para lidar com a dor. Trabalho excessivo, consumo de álcool ou mergulhar rapidamente em novos relacionamentos podem parecer soluções, mas, na maioria dos casos, são apenas distrações temporárias. O que realmente pode ajudar é encarar a solidão de frente, lidando com a realidade dos fatos e aprender a lidar com o momento de maneira saudável.
4 Passos para reconstruir-se após o término
1. Aceite a dor sem pressa de superá-la
O primeiro impulso de muitos homens é tentar ignorar ou reprimir a dor. Mas sentimentos não desaparecem apenas porque escolhemos não olhá-los. Permita-se sentir, sem pressa para “superar” o término rapidamente.
2. Reconstrua sua identidade individual
Relacionamentos podem fazer com que nossas identidades se misturem com as do parceiro. Redescubra seus interesses, hobbies e paixões. O que você gostava de fazer antes do relacionamento? O que sempre quis experimentar, mas nunca teve tempo?
3. Fortaleça sua rede de apoio
Se você não tem o hábito de compartilhar emoções com amigos, esse é um bom momento para mudar. Converse com amigos próximos que sejam confiáveis. Procurar um psicólogo pode te ajudar a organizar os sentimentos e entender melhor os caminhos a seguir. O diálogo criado na terapia é essencial para não se afogar na solidão e entender melhor o que está acontecendo.
4. Cuide do seu corpo e da sua mente
Praticar exercícios físicos, dormir bem e manter uma alimentação equilibrada fazem diferença no bem-estar emocional. O corpo e a mente estão conectados, e investir na sua saúde física é também investir na sua recuperação emocional.
“Quarentena emocional”: o tempo necessário para curar antes de recomeçar
Depois de um término, é comum sentir um vazio e buscar formas de preenchê-lo rapidamente. Muitos acabam mergulhando em novos relacionamentos ou buscando distrações constantes para evitar encarar a dor da separação. No entanto, isso pode ser um grande erro.
Chamo de “quarentena emocional” o período de pausa intencional para processar o luto do fim do relacionamento, entender as lições da relação e fortalecer a própria identidade antes de seguir em frente. O tempo da quarentena pode variar de pessoa para pessoa. No consultório percebo que, geralmente, um tempo entre 2 e 4 meses é o suficiente para organizar em boa parte o coração e os sentimentos.
Esse tempo permite que você evite repetições, pois sem um tempo de reflexão, há o risco de cair nos mesmos padrões e acabar em um novo relacionamento pelos motivos errados.
Fortalecer a sua autonomia emocional, a solidão pode ser desconfortável, mas aprender a estar bem consigo mesmo é essencial para relações futuras mais saudáveis. Outro ponto fundamental é respeitar seu próprio ritmo, precisamos entender que cada pessoa leva um tempo diferente para superar um término, uns estarão se sentindo prontos em 40 dias, outros em 6 meses. Forçar-se a seguir em frente sem ter elaborado a dor pode gerar ou aumentar feridas emocionais não resolvidas.
Esse período pode servir também para dar um significado à experiência, ao invés de encarar o fim apenas como uma perda, esse tempo de pausa ajuda a enxergá-lo como uma oportunidade de amadurecimento.
Criar essa “quarentena emocional” não significa isolar-se do mundo, mas sim dar a si mesmo o espaço necessário para processar o que aconteceu e, só então, estar pronto para novas conexões. Além do mais, é preciso entender o que você irá buscar e procurar em um próximo relacionamento.
O cinema como espelho da reconstrução pós-término
Como vimos neste artigo, vivenciar o luto após o fim de um relacionamento é um processo legítimo e necessário. Trata-se de um período de recolhimento, mas também de recomeço. Para muitos, o silêncio da solidão pode ser assustador — mas ele também pode ser fértil. Sempre convido meus clientes a assistir filmes sobre temas ligados a situações da vida em geral. Nesse momento, obras cinematográficas podem funcionar como espelhos e guias simbólicos, ajudando a nomear sentimentos e a encontrar caminhos de autocuidado.

Comer Rezar Amar (Eat Pray Love, 2010)
Liz (Julia Roberts) decide embarcar em uma jornada de autoconhecimento por três países após o divórcio. O prazer (Itália), a espiritualidade (Índia) e o equilíbrio (Indonésia) representam camadas do processo de cura. O filme nos apresenta um lembrete poderoso de que cuidar do corpo, da mente e da alma é parte essencial do recomeço. E que, durante a essa jornada, podemos até mesmo encontrar um novo amor!
Oportunidade de crescimento
Pode parecer clichê, mas é verdade: todo término também é uma oportunidade de crescimento. Ele nos obriga a olhar para dentro e entender quem somos quando estamos sozinhos. É um momento de autoconhecimento, onde aprendemos a ser felizes com nossa própria companhia.
Se você sente que a solidão está pesando demais ou que não consegue sair desse ciclo sozinho, buscar ajuda um psicólogo é uma excelente escolha. A terapia pode ser um espaço seguro para entender suas emoções e criar um novo caminho para sua vida. Lembre-se: você não precisa enfrentar isso sozinho!
O psicólogo Leonardo Fd Araujo, em Curitiba, oferece atendimento especializado para ajudar pessoas que enfrentam esse tipo de questão. Entre em contato e dê o primeiro passo! Atendimentos presenciais em nosso consultório no Bigorrilho e On-line de onde você estiver, dentro e fora do Brasil!
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Para citações:
ARAUJO, Leonardo Fd. Solidão no pós-término: como se recuperar emocionalmente? In: LEONARDO Fd Araujo | Psicologia. 28 mai. 2025. Disponível em: https://psicologoemcuritiba.com.br/2025/05/solidao-no-pos-termino-como-se-recuperar-emocionalmente/ Acesso em:
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*Fonte da pesquisa: Instituto Gallup. “Social Connections and Loneliness.” Gallup, 2023.
A Nova NR1 e a Importância do Psicólogo Palestrante na SIPAT
- Artigo publicado em: 26 maio, 2025
- Categorias:
As recentes atualizações (2025) na Norma Regulamentadora NR1 trouxeram mudanças significativas para as empresas, reforçando a necessidade de uma gestão mais eficaz dos riscos ocupacionais. Entre as novidades, o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) exige uma abordagem mais estruturada para identificar e mitigar ameaças à saúde dos trabalhadores, incluindo riscos psicossociais. Diante desse cenário, a saúde mental ganha um papel central, e a atuação de um psicólogo palestrante se torna essencial para auxiliar as organizações na criação de um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo.
O Psicólogo Palestrante e a Nova NR1
A NR1 determina que as empresas devem avaliar e atuar sobre os riscos psicossociais no ambiente corporativo. Isso inclui pressão excessiva por resultados, assédio moral, conflitos interpessoais e a falta de suporte emocional, fatores que impactam diretamente a motivação e o desempenho dos colaboradores. Um psicólogo palestrante pode contribuir nesse contexto, promovendo a conscientização e fornecendo ferramentas para a gestão do estresse e do bem-estar emocional.
Exemplo prático: Em uma empresa de tecnologia, notou-se um aumento nos afastamentos por ansiedade e burnout. Ao contratar um psicólogo palestrante para um ciclo de palestras sobre resiliência e gestão emocional, a organização percebeu uma melhora na satisfação dos colaboradores, na produtividade e na redução dos afastamentos.
Temas Relevantes para a SIPAT
A SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho) é uma excelente oportunidade para inserir temas de saúde mental e alinhar a organização às diretrizes da NR1. Algumas abordagens essenciais incluem:
- Gestão do Estresse e Qualidade de Vida: Como reconhecer os sinais do estresse e adotar estratégias para manter o equilíbrio emocional.
- Inteligência Emocional e Resiliência: O impacto da autogestão emocional na produtividade e no bem-estar.
- Comunicação Assertiva e Relacionamento Interpessoal: Como evitar conflitos e fortalecer a cooperação entre colegas.
- Prevenção do Burnout: A importância da gestão de tempo e do autocuidado no ambiente de trabalho.
- Segurança Psicológica no Trabalho: Como criar um ambiente onde os colaboradores se sintam confortáveis para expressar suas ideias e preocupações sem medo de represálias.
Benefícios para a Empresa e os Colaboradores
Ao investir em palestras sobre saúde mental durante a SIPAT, a empresa não apenas se adequa à NR1, mas também colhe vantagens como:
- Redução de afastamentos por problemas psicológicos.
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O psicólogo palestrante desempenha um papel estratégico dentro da SIPAT ao trazer reflexões sobre a importância do autocuidado e da gestão emocional no dia a dia do trabalho. Ele ajuda a traduzir conceitos psicológicos em ações práticas, incentivando mudanças positivas de comportamento entre os colaboradores. Além disso, promove um espaço seguro para que os trabalhadores expressem suas dificuldades e encontrem soluções para lidar com desafios emocionais. Dessa forma, sua presença na SIPAT contribui diretamente para a criação de um ambiente laboral mais acolhedor e produtivo.
Com a nova NR1, a prevenção dos riscos ocupacionais vai além dos aspectos físicos, contemplando também o bem-estar emocional dos trabalhadores. O psicólogo palestrante se torna, portanto, um aliado estratégico na promoção de um ambiente corporativo mais equilibrado, produtivo e alinhado às melhores práticas de segurança e saúde no trabalho.
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Leonardo Fd Araujo
Psicólogo em Curitiba CRP 08/10907
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Bets no esporte: quando a paixão pelo futebol se mistura com o risco das apostas
- Artigo publicado em: 22 abril, 2025
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As bets se aproximaram intensamente do futebol brasileiro, aparecendo em camisas, transmissões, redes sociais, estádios e conteúdos esportivos.
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O risco aumenta quando a paixão pelo esporte se mistura com apostas rápidas, impulsivas e frequentes durante os jogos.
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Muitas plataformas não oferecem apenas apostas esportivas: elas também conduzem o usuário para cassinos online, roletas, slots, jogos tipo “tigrinho” e outras modalidades de azar.
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Quando assistir futebol deixa de ser lazer e passa a depender de ganho financeiro, ansiedade e tentativa de recuperar perdas, é importante buscar ajuda.
Bets no esporte: quando a paixão pelo futebol se mistura com o risco das apostas
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
O futebol sempre foi mais do que um esporte no Brasil. Ele atravessa histórias familiares, memórias de infância, encontros entre amigos, rivalidades saudáveis, identidade regional e pertencimento. Para muita gente, torcer por um clube é quase uma forma de narrar a própria vida: há jogos que viram lembrança, gols que atravessam gerações e derrotas que parecem doer mais do que deveriam.
Nos últimos anos, porém, um novo elemento passou a ocupar esse cenário: as bets. As casas de apostas esportivas deixaram de aparecer apenas como sites isolados e passaram a integrar o cotidiano do torcedor. Estão nas camisas dos clubes, nos intervalos das transmissões, nos comerciais, nos influenciadores, nos programas esportivos, nas placas de estádio e nas conversas sobre futebol.
O problema não está em gostar de futebol. Nem em acompanhar estatísticas, palpites ou debates esportivos. O ponto de atenção surge quando a paixão pelo esporte começa a ser capturada por uma lógica de aposta constante, rápida e emocionalmente intensa. Em muitos casos, o torcedor deixa de assistir ao jogo apenas pelo prazer do esporte e passa a viver cada lance como uma possibilidade de ganho ou perda financeira.
E existe ainda uma segunda camada de risco: muitas plataformas que começam com a promessa de aposta esportiva também oferecem cassinos online, roletas, jogos de cartas, slots, jogos de colisão, “tigrinho” e outras modalidades de azar. Assim, a pessoa que entra para apostar em um jogo de futebol pode ser conduzida, dentro do mesmo ambiente digital, para formas de jogo ainda mais rápidas, repetitivas e difíceis de controlar. As casas sabem, muito bem, como oferecer bônus ou apresentar as novidades.
Quando a aposta entra no campo da paixão
O esporte mobiliza emoção. O torcedor vibra, sofre, espera, se frustra, comemora e se identifica com o time. Esse envolvimento afetivo é justamente o que torna a mistura entre futebol e apostas tão delicada. A pessoa não está apostando apenas em números frios; muitas vezes, ela aposta em algo que já ocupa um lugar importante na sua vida emocional.
Quando a aposta se associa ao futebol, ela ganha uma espécie de verniz de familiaridade. O apostador pode pensar: “eu entendo do meu time”, “acompanho esse campeonato”, “sei quem está em boa fase”, “conheço o elenco”, “hoje é aposta certa”. Esse sentimento de conhecimento pode gerar uma perigosa sensação de controle.
A familiaridade com o futebol pode fazer a aposta parecer menos arriscada do que realmente é.
Mesmo quando há análise, estatística e informação, o resultado esportivo continua sujeito a imprevistos: uma expulsão, uma lesão, uma falha individual, um erro de arbitragem, uma mudança tática, um gol nos acréscimos. A emoção do futebol é justamente essa imprevisibilidade. Mas, quando existe dinheiro envolvido, a imprevisibilidade deixa de ser apenas parte do espetáculo e passa a atingir o humor, o orçamento e a rotina do apostador.
A normalização das bets no futebol brasileiro
As bets se tornaram uma presença constante no futebol brasileiro. Em 2025, um levantamento do ge mostrou que todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro eram patrocinados por casas de apostas, sendo que 90% tinham empresas do setor como patrocinadoras master, em destaque no centro do uniforme.
Esse dado ajuda a entender o tamanho da mudança cultural. As marcas de apostas deixaram de ocupar um espaço marginal e passaram a se apresentar como parte do espetáculo esportivo. Para o torcedor comum, especialmente o mais jovem, muitas vezes menores de idade, a exposição repetida pode produzir uma associação quase automática entre futebol e aposta.
A mensagem implícita passa a ser: assistir ao jogo não basta; é possível “participar” apostando. O torcedor deixa de ser apenas espectador e passa a ser estimulado a colocar dinheiro em resultados, gols, cartões, escanteios, desempenho de jogadores e eventos que acontecem durante a partida. Sem falar na participação de jogadores/atletas, narradores esportivos e figuras ligadas ao esporte na publicidade das casas de aposta. Tal medida tem o intuito de normalizar e dar um ar de credibilidade ao ato de apostar e aos jogos de azar.
Essa normalização exige cuidado. Quanto mais natural a aposta parece, mais difícil pode ser reconhecer quando ela deixou de ser entretenimento e começou a produzir prejuízo.
A aposta ao vivo e o risco da impulsividade
Uma das grandes mudanças trazidas pelas plataformas digitais é a possibilidade de apostar durante o jogo. Antes, a pessoa poderia fazer um palpite antes da partida começar. Hoje, a aposta pode acontecer a cada minuto: próximo gol, próximo cartão, número de escanteios, resultado do primeiro tempo, desempenho de um jogador, lateral, falta, pênalti ou qualquer outro evento da partida.
Esse tipo de aposta ao vivo aumenta a frequência de decisões. A pessoa não faz apenas uma escolha; ela é convidada a escolher de novo, e de novo, e de novo. A cada lance, surge uma nova possibilidade. A cada perda, aparece uma nova chance de recuperar. Em cada quase acerto, a sensação de que “faltou pouco” pode alimentar uma nova tentativa. Chamamos isso de “sensação de quase ganho”, um dos mecanismos ligados ao jogo e que acaba sendo um caminho para desenvolver a dependência.
Quando a aposta acompanha o ritmo do jogo, a emoção do torcedor pode se transformar em impulso financeiro.
Para algumas pessoas, esse ciclo se torna difícil de interromper. A partida termina, mas a mente continua presa ao prejuízo. O torcedor não lembra apenas do placar; lembra do dinheiro perdido, da aposta que quase entrou, da chance desperdiçada e da vontade de recuperar tudo na próxima rodada.
Quando o futebol deixa de ser lazer
Um sinal importante de alerta aparece quando o prazer pelo futebol começa a ser substituído pela tensão da aposta. A pessoa já não assiste ao jogo apenas para torcer, se divertir ou acompanhar o campeonato. Ela passa a assistir porque tem dinheiro envolvido.
Aos poucos, podem surgir mudanças no comportamento:
- acompanhar jogos de times ou campeonatos pelos quais não tem interesse real;
- ficar irritado quando alguém interrompe a transmissão ou comenta durante a partida;
- apostar para tentar recuperar perdas anteriores;
- mentir sobre valores apostados;
- usar dinheiro que estava destinado a contas, família ou compromissos pessoais;
- sentir ansiedade antes, durante e depois dos jogos;
- prometer parar e voltar a apostar na rodada seguinte;
- perder o interesse pelo esporte quando não há aposta envolvida.
Esse último ponto é muito significativo. Quando o futebol só parece emocionante se houver dinheiro em jogo, algo importante se deslocou. A relação com o esporte deixou de ser apenas cultural, afetiva ou recreativa e passou a ser mediada por risco financeiro.
A inovação perigosa: da aposta esportiva ao cassino online
Um dos aspectos mais preocupantes do mercado atual é que a aposta esportiva nem sempre permanece apenas no esporte. Muitas plataformas oferecem, no mesmo ambiente digital, diferentes modalidades de jogo: cassino ao vivo, roleta, blackjack, caça-níqueis online, jogos de colisão, slots e jogos semelhantes ao chamado Jogo do Tigrinho.
Isso muda completamente a experiência do usuário. A pessoa pode entrar para apostar em uma partida de futebol e, após uma perda ou durante o intervalo do jogo, ser estimulada a experimentar uma modalidade mais rápida. Em vez de esperar 90 minutos pelo resultado de uma partida, ela pode jogar várias rodadas em poucos minutos. Outro artifício são os bônus oferecidos pelas plataformas. Na ideia de “dar uma vantagem” acabam chamando o apostador a jogar, criando uma nova maneira de apostar.
Essa passagem do esporte para o cassino online é clinicamente relevante. A aposta esportiva já pode ser problemática, mas algumas modalidades de cassino digital têm uma dinâmica ainda mais acelerada, com rodadas curtas, estímulos visuais intensos, sensação de quase ganho e repetição contínua. Já atendi casos de pacientes que jogavam por horas e horas, “apertavam o botão” centenas de vezes no mesmo dia, torravam verdadeiras fortunas!
O risco aumenta quando a plataforma deixa de vender apenas o palpite esportivo e passa a oferecer uma esteira permanente de jogos de azar.
A Lei nº 14.790/2023 ampliou a regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo também jogos online. Segundo o Ministério da Fazenda, as apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018 no âmbito das apostas esportivas e pela Lei nº 14.790/2023 no âmbito dos jogos online. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente, com sites utilizando a extensão “.bet.br”.
A regulamentação é importante, mas não elimina o risco clínico. Mesmo em ambientes regulados, algumas pessoas podem desenvolver uma relação problemática com o jogo. Por isso, é necessário falar não apenas de legalidade, mas também de prevenção, saúde mental, educação financeira, proteção familiar e cuidado com públicos vulneráveis. Hoje podemos considerar o transtorno de jogo / ludopatia como um problema de saúde pública!
A ilusão de controle: “eu entendo de futebol”
Um dos pensamentos mais comuns em quem aposta no esporte é acreditar que seu conhecimento sobre futebol reduz significativamente o risco. De fato, conhecer escalações, fases de times e estatísticas pode tornar a pessoa mais informada. Mas informação não elimina acaso.
O futebol é um ambiente vivo, imprevisível e atravessado por fatores que ninguém controla completamente. O problema é que, depois de algumas vitórias, a pessoa pode acreditar que encontrou um método. Após algumas derrotas, pode pensar que precisa apenas ajustar a estratégia. E, quando perde muito, pode tentar recuperar com uma aposta maior.
Esse ciclo psicológico pode ser perigoso porque mistura autoconfiança, frustração e urgência. A pessoa começa apostando porque acredita que entende do jogo. Depois, continua apostando porque não aceita perder. Por fim, pode apostar não mais para se divertir, mas para tentar reparar o prejuízo.
Integridade esportiva e manipulação de resultados
O avanço das apostas esportivas também trouxe outra preocupação: a integridade das competições. Em 2024, o Senado instalou a CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas para apurar denúncias relacionadas ao tema. Em 2025, o relatório final apresentado na comissão fez recomendações, pediu indiciamentos e sugeriu mudanças legais.
Esse ponto é importante porque mostra que o problema das bets não é apenas individual. Ele também envolve o esporte como instituição, os clubes, os atletas, a publicidade, os órgãos reguladores e a confiança do público nos resultados.
Para o torcedor, a suspeita de manipulação pode produzir um efeito corrosivo: se tudo parece passível de aposta e se qualquer lance pode ter impacto financeiro, a experiência esportiva perde parte de sua espontaneidade. A pergunta deixa de ser apenas “meu time vai ganhar?” e passa a ser “quem está lucrando com isso?”.
O que é jogo problemático?
Em um passo governamental importante, o Ministério da Fazenda reconhece e descreve o jogo problemático como um comportamento compulsivo ou prejudicial relacionado ao jogo, capaz de afetar a saúde mental, emocional e financeira das pessoas. Entre as características citadas estão falta de controle, preocupação excessiva com o jogo, apostas para recuperar perdas, negligência de responsabilidades e mentiras sobre dinheiro ou tempo gasto apostando.
A Associação Americana de Psiquiatria descreve o transtorno do jogo como um padrão repetido e contínuo de apostas que continua apesar de gerar problemas em diferentes áreas da vida. Ou seja, não se trata apenas de perder dinheiro. Trata-se de continuar apostando mesmo quando a pessoa já percebe prejuízo emocional, familiar, profissional, social ou financeiro.
Na vida real, esse quadro pode aparecer de forma gradual. Primeiro, a pessoa aposta em jogos importantes. Depois, aposta em jogos menores. Em seguida, passa a acompanhar campeonatos que nem conhecia. Em alguns casos, migra para cassino online, tigrinho, roleta ou outros jogos rápidos. Quando percebe, o problema já não está mais restrito ao futebol.
O impacto na família
A família costuma perceber o problema antes que o apostador consiga nomeá-lo. Aparecem atrasos em contas, irritabilidade, isolamento, mentiras, pedidos de empréstimo, uso escondido do cartão, sumiços de dinheiro e uma preocupação constante com resultados de jogos.
Em alguns casos, o familiar tenta ajudar pagando dívidas. Em outros, parte para acusações duras. Também é comum a família oscilar entre proteção, raiva, vergonha e medo. O desafio é encontrar uma posição mais saudável: nem abandonar a pessoa, nem sustentar o ciclo da aposta.
Algumas atitudes podem ajudar:
- conversar em um momento de menor tensão, evitando exposição pública ou humilhação;
- falar sobre fatos concretos, como valores, dívidas, datas e consequências;
- evitar pagar dívidas repetidamente sem um plano de tratamento;
- combinar limites financeiros e formas de proteção do orçamento familiar;
- incentivar psicoterapia e, se necessário, avaliação psiquiátrica;
- buscar apoio também para os familiares afetados;
- observar sinais de depressão, desesperança ou risco de autoagressão.
Quando há falas de desespero, vergonha extrema, ideação suicida ou risco imediato, a situação deve ser tratada como urgência. Nesses casos, é importante procurar atendimento emergencial, acionar rede de apoio e buscar serviços especializados de saúde mental.
Como preservar a paixão pelo futebol sem ser capturado pela aposta?
Para algumas pessoas, a melhor decisão pode ser interromper completamente as apostas. Para outras, especialmente quando ainda não há perda de controle instalada, é importante refletir sobre limites e sinais de risco. O ponto central é não permitir que a aposta passe a organizar a relação com o esporte.
Algumas perguntas podem ajudar:
- eu ainda consigo assistir a um jogo sem apostar?
- meu humor muda muito quando perco uma aposta?
- já escondi valores apostados de alguém?
- já usei dinheiro que tinha outra finalidade?
- já tentei recuperar perdas aumentando o valor da aposta?
- tenho migrado de apostas esportivas para cassino online, tigrinho, roleta ou jogos rápidos?
- sinto vergonha, culpa ou ansiedade depois de apostar?
Se a resposta for “sim” para várias dessas perguntas, talvez o problema já mereça atenção. Não é necessário esperar uma grande dívida, uma separação, uma crise familiar ou um prejuízo profissional para buscar ajuda.
O papel da psicoterapia
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender o ciclo da aposta, identificar gatilhos emocionais, reconhecer distorções de pensamento e construir estratégias para interromper o comportamento. Também pode auxiliar na reorganização da rotina, no manejo da vergonha, na prevenção de recaídas e na reconstrução da confiança familiar.
Em muitos casos, o trabalho psicológico precisa conversar com outras frentes: orientação financeira, limites familiares, bloqueios de acesso, grupos de apoio e avaliação médica quando há depressão, ansiedade intensa, impulsividade importante, uso de substâncias ou risco de autoagressão.
O tratamento não deve ser conduzido com moralismo. Ao mesmo tempo, também não pode ignorar as consequências. O caminho mais saudável costuma unir acolhimento, responsabilidade, limites e plano concreto de mudança.
Considerações finais
O futebol pode continuar sendo paixão, encontro, memória e lazer. O problema começa quando essa paixão passa a ser usada como porta de entrada para uma rotina de apostas cada vez mais frequente, impulsiva e financeiramente arriscada.
As bets trouxeram uma nova camada para a experiência esportiva. E, quando se misturam a cassinos online, jogos rápidos, tigrinho, roletas e outras modalidades de azar, o risco deixa de estar apenas no resultado de uma partida. Ele passa a estar na permanência da pessoa dentro de um ambiente digital desenhado para manter a aposta sempre disponível.
Se assistir futebol deixou de ser um prazer e passou a ser fonte de ansiedade, dívida, segredo ou conflito familiar, é importante olhar para isso com seriedade. Buscar ajuda não significa abandonar o esporte; pode significar recuperar uma relação mais livre, saudável e menos aprisionada ao dinheiro.
Leia também: O Vício em Apostas Online: Como Buscar Ajuda?
Sobre o autor
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Fontes
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. What is Gambling Disorder? Washington, DC: APA, s.d. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder
BRASIL. Ministério da Fazenda. Apostas de Quota Fixa. Brasília: Secretaria de Prêmios e Apostas, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/apostas-de-quota-fixa
BRASIL. Ministério da Fazenda. Jogo Responsável. Brasília: Secretaria de Prêmios e Apostas, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/jogo-responsavel
BRASIL. Ministério da Fazenda. Nova Portaria da Fazenda estabelece que operadores de apostas poderão ser responsabilizados por publicidade abusiva. Brasília, 01 ago. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2024/agosto/nova-portaria-da-fazenda-estabelece-que-operadores-de-apostas-poderao-ser-responsabilizados-por-publicidade-abusiva
GE. Todos os clubes do Brasileirão 2025 são patrocinados por bets. Rio de Janeiro, 11 mar. 2025. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/03/11/todos-os-clubes-do-brasileirao-2025-sao-patrocinados-por-bets.ghtml
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. Londres: NICE, 2025. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng248
SENADO FEDERAL. Relatório final da CPI da Manipulação de Jogos pede indiciamentos e sugere leis. Brasília, 18 mar. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/03/18/relatorio-final-da-cpi-da-manipulacao-de-jogos-pede-indiciamentos-e-sugere-leis





